A aritmética do desenvolvimento que não fecha
Toda vez que um prefeito anuncia um megaprojeto de data center, sai a mesma cartilha: “geração de empregos”, “desenvolvimento econômico”, “oportunidade histórica”. É o script do desenvolvimento nos anos 2020.
Mas há números que ninguém menciona na coletiva de imprensa. Os números que revelam que essa promessa de emprego vem acompanhada de um custo ambiental que a comunidade paga para sempre.
Quantos empregos mesmo?
Segundo o setor, um data center de tamanho médio gera entre 150 e 500 empregos diretos durante a construção. Parece número grande. Só há um detalhe: a construção leva, em média, 18 a 24 meses. Depois, desaparece.
Na operação — o trabalho que fica — o número cai drasticamente: entre 50 e 200 postos permanentes. Desses, a maioria não é para mão de obra local. Requer especialização em refrigeração, infraestrutura de rede, monitoramento 24/7. O operador traz seus próprios técnicos.
Em Uberlândia, a promessa do RT-One era clara: menos de 100 empregos permanentes, maioria mão de obra externa. Enquanto isso, a comunidade recebe os 239 mil litros de água consumidos por dia para sempre.
A matemática real: água vs. emprego
Coloque na balança:
| Item | Número | Duração |
|---|---|---|
| Empregos permanentes | 50–200 | 30–50 anos (operação) |
| Consumo de água diário | 239.000 litros | 30–50 anos (permanente) |
| Impacto em ecossistema | Depleção hídrica | Irreversível |
Um data center de 100 MW consome entre 30% e 40% de sua energia total só para refrigeração. Isso significa torres de arrefecimento que sugam água de aquíferos já sob pressão.
Em Minas Gerais, Uberlândia já enfrenta estiagem em anos de seca. O aquífero Guarani — que abastece 400 milhões de pessoas — recebe pressão crescente. E o que faz o governo estadual? Aprova outorga de água para um data center sem análise de impacto cumulativo.
Quando “oportunidade” é eufemismo para roubo
Brasil de Fato alertou em julho: “Sem regulação, avanço de data centers de IA em MG acende alerta para impactos ambientais”. O IDEC documentou que data centers representam “o custo invisível da vida digital”. A ClimaInfo calculou que incentivos fiscais como REDATA contradizem direitos à água consagrados em lei.
Mas enquanto isso, prefeitos continuam na narrativa da “oportunidade”. Abraços em data center, pouco interesse em conversa sobre água.
A realidade é que data centers apresentam “baixo potencial para geração de empregos diretos quando comparados ao volume de recursos naturais mobilizados”, segundo dados do setor. Tradução: você paga com água, recebe com empregos que não ficam na cidade.
O exemplo de quem fez antes
Outros países viram isso acontecer. Na Irlanda, centros de dados consomem tanto que competem com abastecimento público. Na Califórnia, a expansão de data centers em Valley exacerba pressão hídrica já crítica. Em Singapura, há limite regulatório ao número de instalações justamente por causa de água.
E o Brasil? Cria REDATA, abre as portas, e deixa prefeitos se emagrecerem falando em “janela de 3 anos” de oportunidade.
Quem paga a conta
A ironia é brutal. Os benefícios — royalties modestos, empregos temporários, receita fiscal — concentram-se em governos e empresas. Os custos — água, energia, impacto ambiental, degradação de solo — ficam com comunidades locais.
Em Uberlândia, a prefeitura não publicou os contratos com a RT-One. Não há clareza sobre cláusulas ambientais, compensações, ou responsabilidade se o projeto deixar dívida hídrica. Vende a “oportunidade” sem revelar o risco.
E quando alguém pergunta — em audiência pública, na câmara, no MP — a resposta é silêncio. O prefeito está de férias em Portugal. A RT-One diz pouco. O DMAE aprovou sem questionar.
A verdade que ninguém canta na coletiva
Um data center não é desenvolvimento. É extração. Extrai água. Extrai energia. Extrai infraestrutura pública. Deixa para trás empregos temporários e um débito ambiental que as gerações futuras herdam.
Quando prefeitos falam em “oportunidade”, falam de uma oportunidade que é deles — de receita política, de obra inaugurada, de foto em jornal. Para comunidades, é outro modelo de transferência de riqueza: a riqueza sai em forma de água e energia. O lucro sai em forma de dados.
A “janela de 3 anos” que o Brasil quer aproveitar é real. Mas abrir essa janela sem regular o que entra significa deixar sair tudo que não deveria sair: água, sustentabilidade, futuro.
Fonte: Brasil de Fato — Sem regulação, avanço de data centers de IA em MG acende alerta para impactos ambientais; IDEC — Data center e impacto ambiental: o custo invisível da vida digital
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