A prefeitura chama de progresso. A fatura chega como água, energia, calor e silêncio.
Uberlândia aprendeu um truque novo: chame uma máquina gigante faminta por energia de “futuro” e veja as perguntas básicas desaparecerem. O post da prefeitura celebra o avanço do primeiro data center de IA do Sudeste como se o projeto fosse um presente caído do céu. Mas o mesmo anúncio admite que a planta começa com 100 MW e planeja expandir para 400 MW, uma escala que transforma “inovação” em disputa direta por energia. O texto diz que a empresa vai tratar com a Cemig “sem prejuízo” aos moradores — uma promessa corajosa para um projeto que ainda nem enfrentou o debate público mais duro.
A história da água também vem embrulhada em perfume. A prefeitura diz que o data center pediu ao Dmae 2,77 litros por segundo, o que dá 239.300 litros de água tratada por dia. Depois compara essa demanda a um conjunto habitacional, como se fábrica de servidores e famílias precisando de casa coubessem na mesma caixa moral. Essa comparação não tranquiliza ninguém; ela expõe o truque. Quando água pública vira nota de rodapé em pitch corporativo, a prefeitura parou de explicar e começou a vender.
A melhor parte é a fantasia verde. O post diz que o campus usará energia 100% renovável, resfriamento avançado e um design que inclui área de preservação. Palavras bonitas. Só que “renovável” não significa livre de impacto, e “área de preservação” não apaga uma carga industrial nova na zona rural oeste de Uberlândia, na MGC-497 sentido Prata. Um projeto desse tamanho não flutua sobre o território; ele pousa no solo, na água, nos fios, nas estradas e nas pessoas.
A prefeitura quer aplausos antes que o público tenha respostas. Diz que o projeto ainda precisa de licenças, inclusive aprovação ambiental da Semad, porque o terreno fica em zona rural fora do perímetro urbano. Essa frase deveria ser a manchete, não o rodapé. Uberlândia está sendo convidada a aplaudir um data center antes de conhecer o custo ambiental completo, o custo da rede elétrica, o custo do calor dissipado e o custo público de longo prazo. Progresso sem perguntas difíceis não é progresso. É marketing com data de inauguração marcada.
Então fica a frase pra guardar: IA precisa de terra, água e energia antes de precisar de aplausos. Se esse projeto é tão bom pra Uberlândia, a prefeitura deveria mostrar a conta completa agora. Mostrar os contratos de energia. Mostrar os estudos de risco hídrico. Mostrar o impacto térmico. Mostrar quem paga quando a promessa de “sem prejuízo” encontrar o mundo real.
Fonte: Prefeitura de Uberlândia, “Projeto do primeiro Data Center de IA da região Sudeste do país avança em Uberlândia,” publicado em 23 de fevereiro de 2026.
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