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Sumaré 3: o data center que promete não consumir água enquanto o debate sobre o setor avança

A Ascenty constrói em Sumaré (SP) o primeiro data center da América Latina projetado desde a origem para inteligência artificial, com resfriamento líquido de circuito fechado e promessa de eliminar o consumo de água na operação. O que dizem os documentos e o que ainda não foi respondido.

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Em maio de 2026, a Ascenty anunciou um investimento de US$ 1,2 bilhão — aproximadamente R$ 6 bilhões — para a construção de quatro novos data centers voltados à inteligência artificial no Estado de São Paulo. O projeto mais relevante do pacote chama-se Sumaré 3 e será construído no município de Sumaré, na Região Metropolitana de Campinas. A empresa o descreve como o primeiro data center da América Latina concebido desde a origem exclusivamente para cargas de trabalho de IA em larga escala.

A afirmação é ambiciosa. Mais ambiciosa ainda é a promessa central do projeto: o Sumaré 3 não consumiria água na operação.

O que é a Ascenty e o que é o Sumaré 3

A Ascenty é uma joint venture entre a Digital Realty — um dos maiores operadores de data centers do mundo, com sede nos Estados Unidos — e o fundo canadense Brookfield Infrastructure. A empresa já opera dois campus em Sumaré, município a cerca de 100 km da capital paulista, e o Sumaré 3 será instalado no mesmo complexo, ampliando uma infraestrutura já conhecida no município.

As obras começaram em março de 2026. A entrega está prevista para o terceiro trimestre de 2027. A capacidade inicial será de 90 MW, com possibilidade de expansão para 180 MW em fases posteriores. A área construída prevista é de aproximadamente 48 mil metros quadrados.

Os 150 MW totais anunciados pelo conjunto dos quatro projetos já estão 100% pré-locados por empresas globais de tecnologia, segundo a Ascenty. Os clientes não foram identificados publicamente.

A promessa do circuito fechado

O elemento técnico mais invocado pelo projeto é o sistema de resfriamento. Enquanto data centers convencionais utilizam torres de resfriamento evaporativo — que consomem grandes volumes de água para dissipar calor — o Sumaré 3 promete operar com resfriamento líquido direto no chip em nível de rack, em uma arquitetura de circuito fechado.

Na descrição da empresa, o fluido refrigerante — composto por água e aditivos específicos — circula em sistema fechado e não precisa ser reposto. O calor gerado pelos processadores seria transferido ao fluido sem contato com o ambiente externo, eliminando, em teoria, a evaporação e o descarte de água. A Ascenty declara que essa arquitetura resulta em consumo de água “significativamente reduzido ou eliminado” na operação.

A densidade por rack planejada varia entre 60 kW e 1 MW — uma diferença expressiva em relação aos 8 kW típicos de instalações tradicionais. Para IA generativa, essa densidade é operacionalmente necessária: os aceleradores de última geração produzem calor que sistemas convencionais de ar condicionado não conseguem dissipar com eficiência.

O WUE (Water Usage Effectiveness), indicador padrão do setor para medir consumo de água por unidade de energia processada, não foi divulgado publicamente para o Sumaré 3. A certificação independente das afirmativas sobre consumo hídrico também não foi mencionada nos comunicados.

O que o município cedeu

Em paralelo ao anúncio do projeto, a Prefeitura de Sumaré formalizou, por decreto publicado no Diário Oficial, a autorização para que a Ascenty utilize áreas públicas municipais para implantação de infraestrutura subterrânea de telecomunicações em fibra óptica. A medida serve à operação dos data centers existentes e à futura expansão.

A cessão de espaço público — viário ou de subsolo — é uma concessão municipal que raramente aparece como item de negociação nos anúncios do setor. O decreto foi apresentado como uma medida técnica de apoio à infraestrutura digital, sem que os critérios ou prazos da autorização fossem detalhados nos veículos de comunicação local.

O número de empregos gerados durante as obras foi estimado em cerca de 600 no pico da construção. A operação permanente, após a entrada em funcionamento, deve gerar aproximadamente 120 postos de trabalho especializados. A proporção — seis vezes mais empregos temporários do que permanentes — é consistente com o padrão do setor.

O rótulo de “primeiro na América Latina”

A Ascenty descreve o Sumaré 3 como o primeiro data center da América Latina projetado desde a origem para IA em larga escala. A afirmativa tem valor de marketing mensurável: posiciona a empresa à frente de concorrentes que oferecem capacidade para IA dentro de instalações originalmente construídas para outros fins.

Do ponto de vista técnico, a distinção relevante é a integração nativa de resfriamento líquido em toda a infraestrutura elétrica e física, em vez de adaptações pontuais. Não há, no entanto, certificação ou auditoria independente que valide o rótulo de “primeiro”. Outros operadores no mercado — incluindo projetos no Rio de Janeiro e no Ceará — afirmam igualmente estar desenvolvendo infraestrutura de ponta para IA.

O mercado de data centers no Brasil acumula, segundo estimativas do setor, mais de R$ 30 bilhões em investimentos anunciados nos últimos dois anos, com projetos em ao menos dez estados. Nesse contexto, a distinção entre o que é genuinamente inédito e o que é estratégia de diferenciação comercial raramente aparece nas coberturas.

O que a promessa de “água zero” deixa sem resposta

O circuito fechado elimina a evaporação durante a operação, mas não elimina o consumo de água em todos os momentos do ciclo do projeto.

A fase de construção de 48 mil metros quadrados demanda água para concreto, argamassa, cura e controle de temperatura de equipamentos. A reposição eventual do fluido refrigerante, nos casos em que há perda por manutenção ou incidente, não foi quantificada publicamente. Os sistemas de resfriamento externos — necessários para dissipar o calor que o circuito fechado transfere ao ambiente — podem, dependendo do design específico, ainda utilizar água em alguma etapa.

A Ascenty não publicou documentação técnica acessível sobre o balanço hídrico completo do projeto, incluindo a fase de construção. As afirmativas sobre “consumo zero” ou “consumo eliminado” referem-se, nas fontes disponíveis, à operação normal do sistema de resfriamento, não ao ciclo de vida inteiro do empreendimento.

Essa distinção importa porque o debate sobre água e data centers no Brasil tem sido dominado por afirmações do setor que não especificam o escopo das medições. A verificação independente continua ausente na maioria dos projetos.

O precedente que o debate hídrico deveria registrar

Em Uberlândia, o projeto da RT-One permanece cercado de perguntas sobre consumo hídrico e os compromissos reais com a infraestrutura local. O contraste com o Sumaré 3 não é simples: a RT-One não é uma instalação comparável em porte ou tecnologia, e os modelos de resfriamento adotados pelos dois projetos pertencem a gerações distintas.

O que o caso da Ascenty em Sumaré oferece ao debate nacional é de natureza diferente: mostra que a promessa de “data center sem água” já circula no mercado brasileiro com escopo mal definido. Se o Sumaré 3 vier a publicar métricas verificáveis de WUE e consumo hídrico ao longo da construção e dos primeiros anos de operação, terá contribuído com algo que o setor ainda não entregou no Brasil — transparência mensurável.

Enquanto isso não acontece, a afirmação de “zero consumo de água” é um compromisso anunciado, não um resultado auditado.

Fontes

Publicado por:

E

Equipe Data Center Uberlândia

Monitoramento Ambiental e Socioeconômico

Blog independente que documenta os impactos ambientais e socioeconômicos de data centers em Uberlândia (MG).