Data center em Belém usa COP30 como vitrine enquanto MP investiga impactos
Em 26 de junho de 2026, a Elea Data Centers anunciou o BEL1 — apresentado como o primeiro data center de inteligência artificial da região Amazônica. O projeto será instalado próximo à subestação de alta tensão de Miramar, na Avenida Artur Bernardes, zona portuária de Belém, e será operado pela Elea em parceria com a AXIA Energia, ex-Eletrobras, responsável pelo fornecimento de energia. A narrativa escolhida para o lançamento foi a de legado climático: o projeto começou a ser estruturado em 2024, quando Belém foi confirmada como sede da COP30. Em 13 de julho de 2026, dezessete dias após o anúncio, a deputada estadual Lívia Duarte (PSOL) encaminhou ofício ao Ministério Público do Estado do Pará pedindo que o MPPA instaurasse procedimento preventivo de acompanhamento do empreendimento.
O que é o BEL1
O BEL1 tem capacidade instalada inicial de 7,5 MW, com plano de expansão em fases até 100 MW. O investimento anunciado para a fase inicial é de R$ 250 milhões. O início de operações está previsto para o segundo trimestre de 2027.
A infraestrutura energética será fornecida pela AXIA Energia por meio de um Contrato de Compra de Energia (PPA) de longo prazo com fornecimento de energia 100% renovável. A subestação de Miramar, ativo estratégico da AXIA no porto de Belém, determinou a localização do empreendimento no bairro do Barreiro.
A Elea Data Centers pertence ao fundo internacional I Squared Capital. A empresa opera data centers em São Paulo e Rio de Janeiro. O BEL1 seria o primeiro na região Norte. Alessandro Lombardi, CEO da Elea, descreveu a expansão para Belém como “movimento estratégico” que reforça o potencial da região. Ítalo Freitas, VP da AXIA, destacou a missão de ampliar a conectividade com energia limpa.
O modelo de negócio do BEL1 é o de data center neutro — a Elea não processará dados próprios, mas venderá capacidade de infraestrutura a clientes que demandam processamento de IA. O anúncio menciona “clientes âncora de grande porte com demanda já contratada”. Quem são esses clientes, que tipo de dados serão processados em território paraense e quais contrapartidas foram negociadas com o governo estadual não constam dos documentos públicos disponíveis.
A narrativa do legado climático
A COP30, realizada em Belém em novembro de 2025, transformou a capital paraense em referência simbólica de desenvolvimento sustentável na Amazônia diante de 200 países. Apresentar um data center como seu “legado” conecta o empreendimento a essa aura — sem que os dados que sustentariam essa afirmação tenham sido divulgados.
O anúncio do BEL1 não incluiu:
- o consumo de água projetado para o sistema de resfriamento;
- o plano de mitigação de carbono do empreendimento;
- a separação entre empregos permanentes e postos temporários de construção;
- dados sobre impacto tarifário para a rede elétrica local;
- o estudo de impacto sobre o abastecimento hídrico regional;
- o escopo do licenciamento ambiental e a existência ou não de audiência pública.
A promessa de energia 100% renovável responde a uma pergunta que não é a mais crítica para Belém. A cidade convive com abastecimento de água precário em bairros inteiros, saneamento deficiente, alagamentos recorrentes e transporte público inadequado. Municípios do interior do Pará ainda não têm acesso regular a eletricidade, internet ou água tratada. Nesse contexto, o argumento de que o projeto é “sustentável” por usar energia eólica ou solar não endereça as pressões que um empreendimento desse porte impõe à infraestrutura local.
O pedido de fiscalização ao MPPA
O ofício da deputada Lívia Duarte ao MPPA descreveu a escala de consumo que a tecnologia envolvida implica. Servidores de GPU utilizados para processamento de inteligência artificial consomem aproximadamente cinco vezes mais energia do que servidores tradicionais de propósito geral. Na capacidade máxima de 100 MW, o BEL1 demandaria energia equivalente ao consumo de cerca de 500 mil residências paraenses — estimativa citada pela Carta Amazônia no ofício.
A solicitação elenca pontos que o MPPA deveria verificar antes de qualquer licença avançar:
- a capacidade da rede elétrica regional de absorver a demanda adicional sem comprometer a estabilidade ou elevar as tarifas pagas pelos consumidores locais;
- a preservação dos recursos hídricos utilizados nos sistemas de resfriamento em uma região que já enfrenta pressões hídricas sazonais;
- a ausência de plano público de mitigação de impactos climáticos e rastreamento de carbono do empreendimento;
- a insuficiência das informações sobre retorno socioeconômico para a população paraense.
A ação preventiva é do mesmo tipo que o Ministério Público de Pernambuco adotou em relação aos projetos de data centers naquele estado em julho de 2026 — antes de qualquer licença ser emitida. A diferença é que, em Pernambuco, o procedimento foi aberto pelo próprio MP por iniciativa institucional. Em Belém, foi necessária uma solicitação parlamentar para que a questão chegasse ao órgão de controle.
O que a AXIA representa nesse arranjo
A AXIA Energia é a antiga Eletrobras Distribuição Pará, privatizada em 2022. Controla a concessão de distribuição de energia em grande parte do estado do Pará. A subestação de Miramar, que ancora o BEL1 geograficamente, é um ativo de transmissão estratégico no complexo portuário de Belém.
Esse arranjo tem implicações que o anúncio não detalhou. Se o BEL1 crescer para 100 MW, a demanda adicional sobre a rede de distribuição da AXIA em Belém será significativa. Como esse crescimento de carga será absorvido — se exigirá ampliação de infraestrutura e quem pagará essa ampliação — é uma pergunta diretamente relacionada ao impacto tarifário sobre os demais consumidores conectados à mesma rede. A AXIA é ao mesmo tempo fornecedora de energia para o BEL1 e distribuidora para os demais clientes residenciais e comerciais de Belém. O PPA de longo prazo que beneficia o BEL1 coexistirá com a tarifa regulada que os outros consumidores pagam.
A lógica do território como recurso
A crítica ao BEL1 formulada por analistas e pelo jornal Ponto de Pauta descreve o modelo como repetição de uma lógica colonial: o território amazônico fornece localização estratégica, imagem ambiental vinculada à COP30 e acesso a energia renovável a preços competitivos. Os benefícios econômicos substantivos — tributação sobre lucros, centros de pesquisa, empregos qualificados permanentes — tendem a fluir para os controladores do fundo internacional que detém a Elea.
O argumento não nega que o projeto gere algum emprego local e alguma demanda por serviços durante a construção. O que ele questiona é a proporção entre o que o território oferece e o que recebe — e a ausência de garantias formais de que as contrapartidas se materializarão além das promessas do anúncio.
O bairro do Barreiro, onde o BEL1 será instalado, registra alagamentos recorrentes na Avenida Artur Bernardes. O mesmo endereço que serve como localização do data center é o mesmo onde moradores convivem com infraestrutura urbana deficiente. O discurso do legado climático coexiste com esse cenário sem explicar como o empreendimento muda a realidade das pessoas que moram ao redor.
O roteiro que Uberlândia também reconhece
O uso da sustentabilidade como instrumento de legitimação — “energia 100% renovável”, “legado climático”, “polo de IA responsável” — é o padrão comunicativo do setor de data centers em projetos de diferentes escalas e regiões. O roteiro combina números de investimento, promessa de empregos, discurso ambiental e ausência de dados específicos sobre os impactos que realmente importam para quem mora próximo.
Em Uberlândia, o projeto da RT-One avança sob premissas semelhantes: R$ 6 bilhões anunciados, energia renovável, empregos e desenvolvimento regional. O consumo de água, o impacto sobre a rede da CEMIG e as contrapartidas formais ao município seguem sem respostas detalhadas nos documentos públicos disponíveis. O Ministério Público estadual não instaurou procedimento preventivo antes do avanço das etapas administrativas — as perguntas chegaram, em sua maioria, a partir da mobilização da sociedade civil.
O precedente que o pedido de Lívia Duarte ao MPPA representa é o mesmo que diferencia o caso de Pernambuco dos demais: a formalização das perguntas que deveriam ser respondidas antes que o projeto se torne irreversível. Quanto mais cedo esse registro existe, mais difícil é para os promotores do empreendimento tratar as omissões como detalhes operacionais a serem resolvidos depois.
O BEL1 está na fase em que essas perguntas ainda têm endereço. O que o MPPA fará com o pedido é o próximo capítulo.
Fontes
- Elea Data Centers: Elea anuncia primeiro data center para IA na Região Amazônica com infraestrutura elétrica da AXIA Energia
- Ponto de Pauta: Deputada Lívia Duarte aciona MPPA para investigar impactos do data center Bel 1 em Belém
- A Nova Democracia: PA: Instalação de data center de IA avança em Belém
- Ponto de Pauta: Data Center em Belém é a nova face do colonialismo na Amazônia
- Telesíntese: Elea terá data center de até 100 MW em Belém, no Pará