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Data Center Uberlândia: o que está em jogo na RT-One

Guia do projeto anunciado: investimento, local indefinido (jul/2026), água, energia, licenciamento e perguntas que Uberlândia ainda não respondeu.

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Data Center Uberlândia: entenda o projeto, os impactos e as perguntas sem resposta

O data center Uberlândia é o projeto anunciado pela RT-One: investimento acima de R$ 6 bilhões (IT Forum), 100 MW iniciais com expansão até 400 MW, e pedido de 239,3 mil litros/dia de água tratada ao DMAE (desenho da fase 1). Local indefinido desde jul/2026 — contratos Bacuri/MGC-497 rescindidos; seleção de nova área. Ainda sem LP/LI/LO da Semad; o empreendimento não está em operação. Este guia resume água, energia, licenças e contrapartidas. Anúncio oficial: Prefeitura 23/02/2026; energia/subestação: Mobile Time 27/02/2026.

Anunciado oficialmente vs. status documentado

Claim booster (Prefeitura / syndicates fev/2026)Status documentado
“Primeiro data center de IA do Sudeste” avançaPrefeitura 23/02/2026 — narrativa oficial (data do anúncio)
Terreno ~1 mi m² / “aquisição” na MGC-497Fase 1 Bacuri rescindida jul/2026; local indefinido
R$ 6 bi · 2 mil empregosClaim de anúncio; empregos permanentes disputados
Obras “próximas” (syndicates / O Tempo fev/2026)Sem LP/LI/LO; cronograma envelheceu com a rescisão
Sustentável / renovávelCapEx subestação sem pagador (Cemig); água 239k vs 1,7 mi

Atualização jul/2026 — local indefinido: a fase 1 na MGC-497 / FII Bacuri saiu do plano da RT-One (rescisão de comum acordo). A empresa seleciona nova área em Uberlândia e outras localidades — não é “projeto cancelado”. Cobertura: RT-One desiste do terreno Bacuri.

Mas data center não é uma ideia abstrata. Ele precisa de terreno, energia, água, rede elétrica, licença ambiental, fiscalização e contrapartidas claras. Por isso, antes de tratar o empreendimento como sinônimo automático de progresso, Uberlândia precisa olhar para a conta completa.

O que é o data center de Uberlândia?

O data center em Uberlândia é um projeto anunciado pela RT-One para hospedar infraestrutura de alta capacidade voltada a inteligência artificial, nuvem, segurança digital e processamento de dados. Segundo a Prefeitura de Uberlândia, a estrutura foi apresentada como o primeiro data center de IA da região Sudeste do país.

A fase 1 foi planejada para a região Oeste, fora do perímetro urbano, em área próxima à MGC-497 (~1 milhão de metros quadrados, FII Bacuri). Em jul/2026 a RT-One encerrou esses contratos e passou a selecionar nova área. Reportagens de tecnologia indicam investimento inicial superior a R$ 6 bilhões.

Na primeira fase, a capacidade instalada anunciada é de 100 MW, com plano de expansão para até 400 MW. Essa escala coloca o projeto em uma categoria diferente de um empreendimento comum de tecnologia: trata-se de uma carga industrial pesada, com impacto direto sobre planejamento energético, disponibilidade hídrica, licenciamento e ordenamento territorial.

Por que Uberlândia foi escolhida?

Uberlândia tem fatores que atraem esse tipo de investimento: localização logística no Triângulo Mineiro, presença de universidades, base empresarial ligada à tecnologia, infraestrutura urbana relevante e distância relativa dos grandes centros saturados.

A narrativa oficial também enfatiza inovação, empregos e diversificação econômica. Esse argumento faz sentido em parte. Cidades que recebem infraestrutura digital podem ganhar visibilidade, atrair fornecedores e fortalecer cadeias de serviços técnicos.

O problema é que a escolha de Uberlândia não pode ser avaliada apenas pela ótica do investimento privado. Um data center de IA também compete por recursos públicos e territoriais: água tratada, capacidade elétrica, licenciamento ambiental, vias de acesso, fiscalização e resposta institucional em caso de crise.

Quanto o data center pode consumir de energia?

A Prefeitura informa que a primeira fase do data center terá 100 MW e poderá chegar a 400 MW. Para o leitor comum, megawatt é uma medida distante. O ponto central é simples: data centers consomem energia continuamente, 24 horas por dia, para manter servidores, refrigeração, redundância, segurança e sistemas auxiliares.

Especialistas da UFU alertaram que data centers de grande porte podem consumir energia em escala comparável à de pequenas cidades, dependendo do tamanho e da tecnologia usada. Mesmo quando a energia contratada é renovável, ainda existem impactos sistêmicos: conexão à rede, subestações, transmissão, disponibilidade em horários críticos e custo indireto de expansão da infraestrutura.

Por isso, a pergunta pública não é apenas “a empresa comprará energia?”. A pergunta correta é:

  • Qual será a fonte contratada?
  • Haverá subestação dedicada?
  • Quem paga reforços de rede?
  • Como será garantido que a carga industrial não prejudique a população?
  • Quais indicadores serão publicados periodicamente?

Sem essas respostas, “energia renovável” vira slogan, não prestação de contas.

Quanto o data center pode consumir de água?

Segundo a Prefeitura de Uberlândia, a RT-One solicitou ao Dmae vazão de 2,77 litros por segundo, equivalente a 239,3 mil litros de água tratada por dia. A administração municipal afirmou que o Dmae aprovou a viabilidade e que a demanda não comprometeria o abastecimento habitual.

Esse número precisa ser lido com cuidado. A comparação oficial tenta enquadrar o consumo como administrável. Ainda assim, 239,3 mil litros por dia é uma demanda permanente sobre água tratada, em um cenário de mudanças climáticas, secas mais frequentes e disputa crescente por recursos hídricos.

A UFU destacou que o consumo hídrico de data centers varia conforme a tecnologia de refrigeração. Sistemas fechados, arrefecimento por líquidos como glicol ou óleo, reaproveitamento de calor e refrigeração por ar podem reduzir uso direto de água. Mas reduzir não é eliminar.

O que falta para a cidade é transparência técnica:

  • Qual tecnologia de refrigeração será usada em cada fase?
  • Qual será o WUE, indicador de eficiência no uso de água?
  • A água será potável, de reúso ou captada de outra fonte?
  • Haverá plano de contingência em período de seca?
  • Os dados de consumo serão públicos?

O licenciamento ambiental já foi concluído?

Não. A própria Prefeitura informou que a RT-One ainda precisará requerer licenças, incluindo a ambiental, junto à Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais, a Semad.

Esse ponto é decisivo. O fato de o município ter dado pareceres positivos sobre zoneamento, uso do solo e viabilidade de abastecimento não substitui o licenciamento ambiental estadual. Um projeto desse porte deve ser avaliado por seus impactos acumulados: água, energia, ruído, calor, fauna, flora, resíduos eletrônicos, trânsito, obras e ocupação territorial.

Antes de qualquer celebração definitiva, Uberlândia precisa conhecer os estudos técnicos e as condicionantes. A sociedade também precisa saber se haverá audiência pública, quais órgãos serão ouvidos e quais dados serão publicados em linguagem acessível.

Quais são os possíveis benefícios?

Um data center pode trazer benefícios reais quando bem regulado e integrado ao território. Entre os potenciais ganhos estão:

  • investimento privado de grande escala;
  • contratação durante a construção;
  • empregos técnicos diretos e indiretos;
  • atração de fornecedores de energia, conectividade e manutenção;
  • fortalecimento da imagem de Uberlândia como polo tecnológico;
  • estímulo a cursos, capacitação e pesquisa aplicada.

Mas esses benefícios precisam ser medidos, não apenas prometidos. A cidade deve diferenciar empregos temporários de obras, vagas permanentes de operação, cargos locais de profissionais trazidos de fora e contrapartidas voluntárias de obrigações verificáveis.

Quais são os riscos para Uberlândia?

Os riscos mais relevantes não são ficção. Eles aparecem em debates internacionais sobre infraestrutura de IA e já foram levantados por pesquisadores locais.

O primeiro risco é hídrico. Mesmo com tecnologias mais eficientes, data centers podem pressionar sistemas de abastecimento, especialmente quando a expansão aumenta a carga térmica e a necessidade de resfriamento.

O segundo risco é energético. Um projeto que começa em 100 MW e pode chegar a 400 MW precisa ser integrado ao planejamento regional de energia. A promessa de não afetar moradores deve ser acompanhada de documentos, contratos e indicadores.

O terceiro risco é ambiental. Obras em área rural, emissão de ruído, calor dissipado, impermeabilização de solo, resíduos eletrônicos e alteração do uso territorial exigem análise acumulada.

O quarto risco é político. Quando um projeto é vendido como “futuro” antes de passar por escrutínio, o debate público fica enfraquecido. Uberlândia não precisa escolher entre tecnologia e responsabilidade. Precisa exigir as duas coisas.

O que a população deveria cobrar?

Antes da instalação definitiva do data center em Uberlândia, a cidade deveria cobrar uma agenda mínima de transparência:

  1. publicação dos estudos ambientais completos;
  2. apresentação pública do consumo estimado de água e energia por fase;
  3. divulgação dos indicadores PUE e WUE previstos;
  4. clareza sobre origem da energia e reforços de rede;
  5. plano de contingência para seca, falhas e expansão;
  6. estimativa realista de empregos permanentes locais;
  7. cronograma de licenças, condicionantes e fiscalizações;
  8. canais de participação para comunidades próximas à MGC-497.

Essa lista não impede desenvolvimento. Ela separa desenvolvimento sério de marketing institucional.

Data center Uberlândia: conclusão

O projeto da RT-One pode reposicionar Uberlândia no mapa da economia digital brasileira. Também pode aumentar a pressão sobre água, energia, território e governança pública. As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo.

A cidade não deve rejeitar infraestrutura tecnológica por reflexo, mas também não deve aceitar um empreendimento dessa escala sem dados abertos. O ponto central é simples: se o data center é bom para Uberlândia, seus números devem resistir ao debate público.

Energia, água, licença ambiental e contrapartidas não são detalhes técnicos. São o centro da decisão.

Perguntas frequentes sobre data center em Uberlândia

O que é o data center RT-One em Uberlândia?

Projeto da RT-One (anunciado jul/2025) de data center de IA: R$ 6 bilhões anunciados, 100→400 MW, pedido de 239,3 mil L/dia ao DMAE na fase 1, sem LP/LI/LO da Semad até a cobertura mais recente. Sítio MGC-497/Bacuri fora dos planos desde jul/2026.

O data center RT-One em Uberlândia foi cancelado?

Não. Contratos com o FII Bacuri encerrados de comum acordo (jul/2026); nova área em seleção em Uberlândia e outras localidades. Local indefinido — não cancelamento do projeto no Brasil.

Onde será instalado o data center em Uberlândia?

A fase 1 anunciada previa a região Oeste (MGC-497 / Fazenda Bom Jardim, FII Bacuri). Esses contratos foram encerrados em jul/2026. A empresa avalia alternativas em Uberlândia e outras localidades; o endereço atual não foi anunciado.

Qual é o investimento anunciado?

Reportagens de tecnologia, como o IT Forum, e comunicação institucional informam investimento inicial superior a R$ 6 bilhões. O terreno da fase 1 (~1 milhão m² na MGC-497) era histórico Bacuri e saiu do plano em jul/2026. O valor anunciado não detalha, em público, quanto fica em impostos, empregos permanentes locais ou contrapartidas verificáveis.

Qual será a capacidade do data center?

Segundo a Prefeitura de Uberlândia, a capacidade divulgada para a primeira fase é de 100 MW, com plano de expansão para até 400 MW. Essa escala exige planejamento energético, subestação e reforços de rede — e não se compara a um empreendimento comum de tecnologia.

O data center já tem licença ambiental?

Não. Nenhuma LP, LI ou LO foi emitida pela Semad/FEAM-MG; o empreendimento não está em operação. Pareceres municipais de zoneamento ou água não substituem licença ambiental estadual. Com a troca de sítio, o calendário de licenciamento pode reabrir.

O data center vai consumir água tratada?

A Prefeitura informou solicitação de 2,77 litros por segundo ao DMAE, o que corresponde a 239,3 mil litros de água tratada por dia. A UFU alerta que o consumo hídrico varia com a refrigeração; WUE, fonte e plano de seca ainda precisam de divulgação pública.

O data center pode afetar energia e água da população?

A Prefeitura afirma que não haverá prejuízo ao fornecimento. Pesquisadores da UFU, porém, alertam que data centers podem pressionar água e energia se não houver transparência, fiscalização e planejamento — sobretudo com expansão de 100 MW para 400 MW.

Fontes

Publicado por:

E

Equipe Data Center Uberlândia

Monitoramento Ambiental e Socioeconômico

Blog independente que documenta os impactos ambientais e socioeconômicos de data centers em Uberlândia (MG).