239 mil litros/dia: a prefeitura chama de mínimo
O pedido de água do data center RT-One em Uberlândia (fase 1 anunciada) é de 239.300 litros por dia — 2,77 L/s, contínuos — número da Prefeitura/DMAE reportado pela Convergência Digital (27/02/2026). Na audiência da ALMG (02/07/2026), circulou outro envelope: até 1,7 milhão L/dia. A prefeitura chama o menor de "mínimo"; o conflito de números permanece público.
Fonte: Convergência Digital (DMAE/Prefeitura) · Data: 27/02/2026 · Conflito: ALMG · Data: 02/07/2026
Uberlândia produz cerca de 2.600 L/s; os 2,77 do RT-One são, de fato, uma fração. O problema é que essa fração é contínua, garantida, comprometida — e nem é o único número em circulação.
239 mil ou 1,7 milhão? O conflito de números
Na audiência da ALMG sobre o data center, a vereadora Amanda Gondim apontou divergência documentada (REPORTED — ALMG/BdF): o município trabalha com cerca de 239 mil litros/dia (FACT — DMAE via Convergência), enquanto documentos atribuídos à empresa indicariam demanda de até 1,7 milhão de litros por dia — cerca de sete vezes o número que a prefeitura repete.
| Número | Consumo diário | Fonte primária / reportagem | Data | Em um ano (ordem) |
|---|---|---|---|---|
| Envelope municipal | 239.300 L (2,77 L/s) | DMAE/Prefeitura via Convergência Digital | 27/02/2026 | ~87 milhões L |
| Envelope em debate na ALMG | até 1,7 milhão L | Vereadora Gondim / docs atribuídos à empresa — ALMG (secundário: Brasil de Fato) | 02/07/2026 | ~620 milhões L |
Gondim situou a estimativa maior como equivalente ao sexto maior bairro consumidor de água de Uberlândia. Também relatou que, ao pedir documentos à prefeitura, só teria acesso se assinasse termo de confidencialidade imposto pela empresa — o mesmo Executivo que chama o volume de “mínimo”.
Na mesma audiência, o diretor-geral do IGAM, Marcelo da Fonseca, informou que não há pedido de outorga de uso da água para o empreendimento — e que, próximas a Uberlândia, já existem áreas de conflito por indisponibilidade hídrica para outorga (IGAM / testemunho na ALMG). Sylvio Andreozzi, do Conselho da Bacia do Araguari, pediu estudos aprofundados antes de empreendimentos desse porte. O parecer municipal do DMAE não substitui outorga estadual.
A prefeitura minimiza com o número menor. O debate público não pode tratar o maior como rumor descartável — nem o “mínimo” como licença para não outorgar.
A matemática da minimização
Uberlândia produz cerca de 2.600 L/s. Os 2,77 L/s do RT-One são ~0,11% da produção diária. A fração parece pequena em slide; o problema é o tipo de demanda:
| Comparação que a prefeitura prefere | O que o número realmente é |
|---|---|
| ”Menos de 1% da produção” | Compromisso contínuo, 24h/365, não pontual |
| ”Inferior a um condomínio grande” | Uso industrial de refrigeração, não uso doméstico |
| ”Não impacta a produção tratada” | Sem outorga IGAM e sem cenário público de seca |
239.300 litros/dia do RT-One =
- 87,3 milhões de litros por ano
- Suficiente para abastecer uma casa por 239 dias
A prefeitura usa a comparação com “família de quatro pessoas”. Tecnicamente verdadeiro. Psicologicamente enganador. Uma família bebe, cozinha, lava. Um data center usa água para resfriar equipamentos. Essa água não volta ao abastecimento: evapora ou retorna com qualidade degradada. Chamar isso de “nada” só funciona se o público nunca vir o 1,7 milhão — nem a fila de outorga que já trava áreas vizinhas.
Seca no Triângulo: o “pequeno consumo” em abundância
Nos documentos do DMAE, a prefeitura afirmou que o consumo “não impactará a produção de água tratada”. Em 2026, com chuva, a frase passa. E quando a seca vem? Quando a capacidade de 2.600 L/s fica sob pressão?
- Em 2024, o Triângulo Mineiro enfrentou crise hídrica severa
- Em junho de 2026, Uberlândia registrou chuva recorde, mas isolada
- Os aquíferos locais (especialmente o Aquífero Guarani) sofrem pressão contínua
A aprovação foi feita em condição de abundância. Quando vier a escassez, o RT-One já terá contratos.
“Circuito fechado” — alegado na comunicação municipal — reduz perdas, mas não zera consumo: evaporação, manutenção e reposição. Uma taxa de perda de apenas 2–5% ainda significa ordem de 5 a 12 mil litros/dia que saem do sistema e não voltam ao abastecimento. Sem estudo público de seca de longo prazo no parecer do DMAE, a frase “não impacta” permanece slide.
Especialistas (Unesp, Unifesp) alertam desde março de 2026: data centers pressionam recursos hídricos em regiões vulneráveis à seca — enquanto Redata e Sudene subsidiam a atração e o BNDES acelera módulos sem outorga. Uberlândia é o oposto do local ideal em água; é ideal em incentivo fiscal. A eficiência hídrica do REData não apaga os 239 mil L/dia.
De 100 MW a 400 MW: multiplique a água
O RT-One começa com 100 MW e planeja até 400 MW. Mais potência = mais calor = mais refrigeração. Não há cifra pública de água para a expansão. Hipótese linear (mesma intensidade por MW) multiplicaria o pedido; eficiência ou troca de tecnologia poderia reduzir — sem estudo publicado, qualquer número acima de 239 mil é projeção, não fato. O que está documentado: a prefeitura aprovou só o pedaço de 100 MW; a ALMG registrou conflito com documentos atribuídos à empresa até 1,7 milhão L/dia.
Há ainda água fora do número oficial do DMAE: obra (concreto, limpeza), irrigação de áreas de preservação, consumo de operários, paisagismo — itens sem vazão pública somada.
Timeline: do “não impacta” ao “não dava para prever”
| Período | Ação | Narrativa |
|---|---|---|
| 2025 | Aprovação DMAE para 239 mil L/dia | ”Não impacta” |
| 2026 | Obras previstas | Silêncio |
| 2027–2028 | Expansão 200–300 MW | ”Pequenos ajustes” |
| 2029+ | Possível 400 MW | ”Já estava aprovado” |
| 2030+ | Crise hídrica previsível | ”Não era possível prever” |
O custo real é pago depois
Aprovou-se o melhor cenário. Quando (não se) a seca chegar forte, o RT-One terá contratos; Uberlândia, a pressão na conta de água. Nos documentos públicos do projeto não constam auditoria independente do consumo real, limite com penalidade, compensação ambiental efetiva nem cenário de crise hídrica na aprovação.
Lucro privado, prejuízo público.
Perguntas frequentes
Quanto de água o data center da RT-One em Uberlândia vai consumir?
Segundo a Convergência Digital e números oficiais da Prefeitura/DMAE, a RT-One solicitou 2,77 litros por segundo — cerca de 239.300 litros de água tratada por dia, só na fase de 100 MW. O volume é contínuo, 24 horas, e não inclui eventual expansão para 400 MW nem captação subterrânea adicional.
Por que a prefeitura diz que 239 mil litros por dia não é significativo?
Uberlândia produz cerca de 2.600 L/s; os 2,77 L/s do RT-One equivalem a cerca de 0,11% da produção. A prefeitura compara a um condomínio grande. O problema é o tipo de demanda: refrigeração industrial contínua, sem outorga IGAM pública e com conflito de números até 1,7 milhão de litros/dia na audiência da ALMG.
Existe conflito entre 239 mil e 1,7 milhão de litros por dia?
Sim. Na audiência da ALMG, a vereadora Amanda Gondim apontou divergência: o município trabalha com cerca de 239 mil litros/dia, enquanto documentos atribuídos à empresa indicariam até 1,7 milhão — cerca de sete vezes mais. O Brasil de Fato registrou o alerta e a ausência de pedido de outorga no IGAM.
O consumo de água do RT-One já tem outorga do IGAM?
Na audiência da ALMG, o diretor-geral do IGAM, Marcelo da Fonseca, informou que não há pedido de outorga de uso da água para o empreendimento. Perto de Uberlândia já existem áreas de conflito por indisponibilidade hídrica. O parecer do DMAE sobre viabilidade não substitui outorga estadual.
Fontes: Convergência Digital — Consumo de água 239,3 mil L/dia; ALMG — 239 mil vs 1,7 milhão (Gondim); Brasil de Fato — audiência ALMG, IGAM sem outorga; Jornal da Unesp — Especialistas alertam
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