239 mil litros por dia? “Menos que um condomínio”, dizem
A RT-One vai consumir 239.300 litros de água por dia. É como 2,77 litros por segundo, continuamente, todos os dias do ano.
A resposta da prefeitura é sempre a mesma, com variações: “não é significativo”, “representa menos de 1% da produção”, “é inferior ao consumo de um condomínio residencial grande”.
A matemática é simples e desconcertante. Eles estão certos tecnicamente. Uberlândia produz cerca de 2.600 litros de água por segundo; os 2,77 do RT-One são de fato uma fração.
O problema é que essa fração é contínua, garantida, comprometida. E é apenas o começo.
A matemática da minimização
Deixa a gente fazer as contas junto:
239.300 litros/dia do RT-One =
- 87,3 milhões de litros por ano
- Suficiente para abastecer uma casa por 239 dias
A prefeitura usa essa última comparação: “é como uma família de quatro pessoas”. Tecnicamente verdadeiro. Psicologicamente enganador.
Uma família de quatro usa água para beber, cozinhar, lavar, higiêne. Um data center usa água para uma coisa: resfriar equipamentos.
Aquela água entra gelada (ou é gelada, por mais energia) e sai quente. Ela não retorna ao sistema de abastecimento. Ela se evapora na atmosfera ou retorna degrada em qualidade.
O que a prefeitura não diz sobre o “pequeno consumo”
Nos documentos de aprovação da RT-One junto ao DMAE (Departamento Municipal de Água e Esgoto), a prefeitura afirmou que o consumo “não impactará a produção de água tratada”.
Verdade. Não impacta em 2026, quando as chuvas ainda chegam. Mas e quando a seca vem? Quando os aquíferos caem? Quando a capacidade de 2.600 litros/segundo fica sob pressão?
Basta recordar:
- Em 2024, o Triângulo Mineiro enfrentou crise hídrica severa
- Em junho de 2026, Uberlândia registrou chuva recorde, mas isolada
- Os aquíferos locais (especialmente o Aquífero Guarani) sofrem pressão contínua
A aprovação foi feita em condição de abundância. Quando vier a escassez, o RT-One já terá seus contratos garantidos.
Expandir de 100 MW para 400 MW? Multiplique a água também
O RT-One começa com 100 MW de potência e planeja expandir para até 400 MW.
Ninguém diz isso em voz alta, mas a lógica é óbvia: mais potência = mais calor = mais água para refrigeração.
Se 100 MW usam 239 mil litros/dia, o cenário de 400 MW não seria linear — refrigeração é mais eficiente em escala — mas também não seria o mesmo.
Multiplique por 3. Talvez 600-700 mil litros por dia no máximo investimento.
A prefeitura já aprovou 239 mil. Quanto você quer apostar que quando chegar a hora da expansão, haverá uma “pequena revisão” silenciosa?
Especialistas vs. Comunicados Oficiais
Enquanto a prefeitura minimiza, especialistas de universidades (Unesp, Unifesp) alertam publicamente: “data centers exercem pressão significativa sobre recursos hídricos, especialmente em regiões vulneráveis à seca”.
O comunicado foi emitido em março de 2026, após análise de programas de incentivo como Redata e Sudene que subsidiam data centers no Brasil.
A conclusão: governos estão atraindo data centers sem avaliar corretamente o impacto hídrico local.
Uberlândia é exatamente o oposto de um “local ideal” para um data center em termos de disponibilidade hídrica. Mas é ideal em termos de incentivos fiscais.
Consumo oculto: a água que ninguém menciona
O número oficial é 239 mil litros. Mas há água invisível:
- Construção: Milhões de litros durante a obra (concreto, limpeza, paisagismo)
- Manutenção paisagística: O terreno tem 300 mil m² reservados para preservação ambiental — precisam regar
- Consumo de operários: Centenas de pessoas trabalhando precisam beber, lavar as mãos
- Paisagismo corporativo: Porque uma empresa bilionária não vai deixar seus escritórios secos
O número oficial é 239 mil. O real é maior.
A timeline silenciosa
| Período | Ação | O que dizem |
|---|---|---|
| 2025 | Aprovação DMAE para 239 mil litros/dia | ”Não impacta” |
| 2026 (atual) | Começo das obras (previsto maio) | Silêncio |
| 2027-2028 | Expansão para 200-300 MW | ”Pequenos ajustes” (você vai ver) |
| 2029+ | Possível expansão completa para 400 MW | ”Já estava aprovado” |
| 2030+ | Crise hídrica previsível | ”Não era possível prever” |
O custo real é pago depois
A prefeitura aprovou 239 mil litros sob a narrativa de “não impacto em tempos de normalidade”. É o clássico: projeta-se a melhor cenário, aprova em boas condições, problema vira realidade depois.
Quando (não se) a seca chegar forte, o RT-One terá seus contratos. Uberlândia terá que lidar com a pressão. Os moradores vão pagar mais na conta de água.
É o mesmo padrão de sempre: lucro privado, prejuízo público.
O que a gente não discute
Ninguém na prefeitura menciona que dados vazados da indústria mostram que data centers gastam mais água em refrigeração que em consumo humano. Uma política ambiental séria exigiria:
- Auditoria independente do consumo real (não estimado)
- Limite máximo de consumo com penalidades
- Compensação ambiental real (não promessas de parques)
- Cenários de crise hídrica incluídos na aprovação
Uberlândia fez nenhuma dessas coisas.
Fonte: Convergência Digital — Consumo de água; Jornal da Unesp — Especialistas alertam
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