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Aquífero Guarani em Uberlândia: RT-One Representa Risco Real?

RT-One admitiu captação do Aquífero Guarani no projeto de Maringá. Em Uberlândia, sobre o mesmo aquífero, o cenário não foi descartado. Entenda os riscos.

6 min read aquifero-guarani agua rt-one uberlandia meio-ambiente

Resposta direta

Sim, o risco é real como hipótese técnica e regulatória — não como fato consumado de poço aberto em Uberlândia. A RT-One admitiu, no contexto de Maringá (PR), a possibilidade de captar água do Aquífero Guarani e usar trocadores de calor subterrâneos. Em Uberlândia, sobre a mesma formação, não há descarte formal público dessa rota. Em audiência na ALMG (jul/2026), o IGAM afirmou que não havia pedido de outorga do empreendedor para esse fim em Minas — o que não equivale a “nunca captará”; equivale a “ainda não pediu”.

O que é o Aquífero Guarani (e por que Uberlândia importa)

O Aquífero Guarani é uma das maiores reservas de água doce subterrânea da América do Sul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai). Trechos do sistema e formações correlatas alimentam usos no Triângulo Mineiro — irrigação, indústria, abastecimento complementar e, em alguns pontos, usos termais documentados em estudos acadêmicos (ex.: trabalhos da UFU sobre explotação regional).

Água subterrânea não é “de graça e infinita”. Em Minas Gerais, explotação por poço tubular profundo exige, em regra:

  1. Autorização de perfuração (IGAM)
  2. Outorga de direito de uso (ou cadastramento, quando couber)
  3. Articulação com licenciamento ambiental quando o empreendimento é passível de licença

Manual e normas do IGAM deixam explícito: perfuração e uso subterrâneo não são ato privado opaco — são ato administrativo com prazo e documentação.

O que a RT-One admitiu em Maringá

No projeto gêmeo de Maringá, a empresa admitiu publicamente (informação que consta no inquérito civil do MPF) a possibilidade de:

  • Captação no Aquífero Guarani
  • Trocadores de calor subterrâneos
  • Retorno da água ao subsolo após uso

Isso estabelece precedente de intenção tecnológica no grupo — não prova automática do desenho final em Uberlândia, mas torna razoável exigir declaração negativa formal se a rota estiver fora do projeto mineiro.

E em Uberlândia? Rede DMAE ≠ aquífero

O volume amplamente citado de 2,77 L/s (239 mil L/dia) refere-se ao pedido/aprovação junto ao DMAE (rede pública), fase 1 (~100 MW). Detalhe do parecer e lacunas: Parecer do DMAE. Visão geral do consumo: Consumo de água dos data centers.

Esse número não inclui, por definição:

  • Captação direta de poços / aquífero
  • Expansão para 400 MW
  • Usos industriais auxiliares fora do contrato de rede

Se houver poço, o órgão competente deixa de ser só o DMAE e passa a ser o IGAM (outorga hídrica).

Atualização institucional (ALMG / IGAM)

Na discussão estadual sobre data centers, o diretor-geral do IGAM, Marcelo da Fonseca, registrou que não havia, até então, pedido de outorga de água do empreendedor em Uberlândia (nem de outros no Estado para a mesma finalidade). Também sinalizou que a região de Uberlândia está sob pressão: próximos ao município já há áreas de conflito por indisponibilidade hídrica para outorga. Fonte: cobertura ALMG.

Leitura correta: sem outorga = sem autorização formal de captar — não “aquífero liberado” nem “aquífero descartado”.

Local indefinido (jul/2026) — o risco muda de mapa

Caveat de localização: o terreno anunciado na zona oeste (Fazenda Bom Jardim / Bacuri, MGC-497, Pequis–Monte Hebrom) saiu dos planos da RT-One em jul/2026 (rescisão contratual; seleção de nova área em Uberlândia e outras localidades). Isso não encerra a questão do Guarani: qualquer novo sítio sobre a mesma unidade hidrogeológica reabre o mesmo checklist (poço, outorga, monitoramento, EIA).

Impactos de vizinhança no eixo oeste histórico seguem relevantes se o campus voltar àquela região — ver Bairros afetados (condicional).

Riscos da captação subterrânea (quando existir)

RiscoDescrição
Rebaixamento do lençolQueda de nível em poços de chácaras e agricultura
Contaminação térmicaÁgua devolvida mais quente altera equilíbrio local
Contaminação químicaFluidos / produtos de circuito de refrigeração
Conflito de usoCompetição com abastecimento e irrigação em área já tensionada
Opacidade regulatóriaPoço sem outorga = ilegalidade; poço com outorga sem monitoramento = risco social

O que exigir (checklist mínimo)

  1. Declaração formal da RT-One: haverá ou não captação subterrânea / geoexchange em Uberlândia?
  2. Se sim: número de poços, vazões, balanço térmico e plano de reinjeção
  3. Outorga IGAM antes de qualquer perfuração vinculada ao empreendimento
  4. Monitoramento de nível e qualidade (baseline pré-obra + operação)
  5. EIA/RIMA com capítulo hidrogeológico — não “nota de rodapé” no parecer do DMAE

Perguntas sem resposta

  • A RT-One descarta, por escrito, captação no Guarani em qualquer sítio de Uberlândia?
  • Haverá trocadores de calor subterrâneos no desenho atual?
  • Qual o envelope hídrico total (rede + subterrânea + expansão 400 MW)?
  • Quem publica e audita o monitoramento do aquífero?
  • Se o campus sair de Uberlândia, o risco some para a cidade — e se ficar, em qual bacia/aquífero pousa?

Atualização (julho/2026): o prefeito sobre água

Paulo Sérgio afirmou:

“Nós temos água abundante de qualidade pra instalar esse tipo de empresa em qualquer terreno da cidade.”

O que essa frase não responde:

  • “Abundante” não é vazão outorgável nem margem de seca
  • DMAE aprovou teto de rede para fase 1 — não “qualquer volume”
  • Sobre o Guarani: silêncio
  • Sobre outorga IGAM: o Estado já sinalizou pressão regional e ausência de pedido

Conclusão

O Aquífero Guarani entra no debate de Uberlândia porque a própria RT-One abriu a porta em Maringá e porque o município assenta sobre o sistema. Até agora, o que existe em Minas é ausência de outorga pedida — não garantia pública de descarte. Com o local indefinido após a saída do terreno Bacuri, a pergunta correta deixou de ser só “Pequis aguenta?” e passou a ser: em qualquer sítio escolhido, qual será a matriz hídrica — rede, poço ou as duas — e quem autoriza?


Fontes: ALMG — audiência / IGAM sem outorga · normas de perfuração/outorga IGAM · inquérito civil MPF (referência Maringá)

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Publicado por:

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Equipe Data Center Uberlândia

Monitoramento Ambiental e Socioeconômico

Blog independente que documenta os impactos ambientais e socioeconômicos de data centers em Uberlândia (MG).