A nuvem verde que bebe água seca
A RT-One promete um data center construído para “padrões globais de eficiência energética”, alimentado integralmente por “energia renovável” e equipado com “tecnologias avançadas de resfriamento para reduzir a pegada ambiental”. Tudo muito limpo, muito sustentável, muito verde.
Há um pequeno problema: a pegada ambiental de um data center não se mede em kilowatts. Mede-se em litros.
O paradoxo da água doce escassa
Pesquisadores da Unesp e Unifesp alertam há meses sobre um fenômeno que chamam de paradoxo hidrodigital. Resumidamente: quanto mais “verde” e avançada a infraestrutura promete ser, mais intensiva ela tende a ser justamente no recurso que mais escasseia — a água doce.
Um data center médio consome cerca de 2 milhões de litros de água por dia para resfriamento. Equivalente ao consumo de 6.500 residências. Não é ar-condicionado de escritório. É resfriamento contínuo, 24/7, sem pausa.
O RT-One declarou ao DMAE (Departamento Municipal de Água e Esgoto) que consumirá 239 mil litros por dia. Números menores que a média global, é verdade. Mas Uberlândia fica na bacia do aquífero Guarani e na região do Triângulo Mineiro, onde crises hídricas já atingem fornecimento público.
A empresa afirma eficiência. Os pesquisadores alertam que essa eficiência, por maior que seja, não elimina a demanda. Apenas a torna “mais verde” no papel.
Especialistas contra a narrativa verde
Três universidades públicas brasileiras — Unesp, Unifesp e USP — publicaram alertas estruturados sobre essa estratégia de comunicação. A Unesp mapeou o investimento federal em isenções fiscais (Redata) para data centers justamente quando o setor público pede economia de água. Não é coincidência. É contradição estrutural.
A Unifesp levantou dados globais: a Agência Internacional de Energia estima que data centers consumirão 1,2 trilhões de litros de água até 2030, ante 560 bilhões em 2026. Duplo em quatro anos.
A USP advertiu que essa expansão pode comprometer a transição energética. Porque energia renovável não é infinita. Tem limite. E data centers com 400 megawatts (a escala total do RT-One) não cabem em qualquer rede.
Nenhuma dessas universidades critica a tecnologia. Criticam a omissão de impactos reais sob linguagem de sostenibilidade.
Licenciamento ambiental fantasma
Há outro problema: licenciamento. Segundo especialistas da Universidade Federal de Uberlândia, o projeto ainda tramita sem EIA/RIMA. Sem estudo de impacto ambiental, sem parecer técnico, sem licença prévia (LP), sem licença de instalação (LI).
A RT-One abriu o terreno em 2025. A obra deve começar em 2026. E ainda não tem licença ambiental definitiva.
Um artigo do Consultor Jurídico publicado esta semana observa que “a nuvem não paira acima da lei” e que, independente de narrativas, órgãos ambientais têm dever legal de requerer licenciamento prévio. Infraestrutura de 1 milhão de metros quadrados, 400 megawatts e 239 mil litros diários não tramita por omissão regulatória só porque promete ser “eficiente”.
O que funciona no discurso
A RT-One não mente sobre energia renovável. Haverá subestação da Cemig, contrato de fornecimento. A energia será “verde” porque o Brasil tem matriz renovável.
Mas sustentabilidade não é um atributo da energia. É um conceito que inclui água, solo, ar, biodiversidade, direito à água de quem vive a 2 km dali. A empresa menciona resfriamento avançado. Não menciona quanto dessa água volta ao ciclo, quanto é consumida, para onde vai a descarga térmica.
Isso não é omissão acidental. É seleção de verdades.
Fonte:
- Jornal da Unesp — Especialistas alertam para alto consumo de água por data centers
- ClimaInfo — Expansão de data centers, incentivos fiscais e impactos sobre o direito à água
- Jornal da USP — Expansão dos data centers pode pôr em risco a transição energética
- Consultor Jurídico — A nuvem não paira acima da lei
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