Sim — data center sustentável com energia renovável ainda tem consumo de água crítico. A RT-One promete eficiência energética, matriz renovável e resfriamento avançado. A pegada que some do pitch não é o kWh: é o litro. Em Uberlândia, o paradoxo é local — 239 mil L/dia declarados ao DMAE sob estresse hídrico no Triângulo.
Paradoxo: data center “sustentável” ainda consome água crítica
Pesquisadores da Unesp e Unifesp alertam há meses sobre um fenômeno que chamam de paradoxo hidrodigital. Resumidamente: quanto mais “verde” e avançada a infraestrutura promete ser, mais intensiva ela tende a ser justamente no recurso que mais escasseia — a água doce.
Reportagens e análises de setor usam, como ordem de grandeza, cerca de 2 milhões de litros por dia para um data center típico em resfriamento evaporativo — cifra de referência, não medição do RT-One. Não é ar-condicionado de escritório. É demanda contínua, 24/7, sem pausa.
O RT-One declarou ao DMAE 239,3 mil litros por dia (2,77 L/s). É menor que essa referência global. Mas Uberlândia fica na bacia do aquífero Guarani e no Triângulo Mineiro, onde crises hídricas já pressionam o abastecimento.
A empresa afirma eficiência. Os pesquisadores alertam que essa eficiência, por maior que seja, não elimina a demanda. Apenas a torna “mais verde” no papel.
Unesp, Unifesp e USP contra a narrativa verde
Três universidades públicas brasileiras — Unesp, Unifesp e USP — publicaram alertas estruturados sobre essa estratégia de comunicação. A Unesp mapeou o investimento federal em isenções fiscais (Redata) para data centers justamente quando o setor público pede economia de água. Não é coincidência. É contradição estrutural.
A Unifesp acende o debate hídrico-energético no Brasil; a ordem de grandeza global vem da Agência Internacional de Energia (IEA): demanda hídrica de data centers da ordem de 560 bilhões de litros (referência recente) com projeção de cerca de 1,2 trilhão de litros até 2030 se a tendência se mantiver — projeção, não medição local.
A USP advertiu que essa expansão pode comprometer a transição energética. Porque energia renovável não é infinita. Tem limite. E data centers com 400 megawatts (a escala total do RT-One) não cabem em qualquer rede.
Nenhuma dessas universidades critica a tecnologia. Criticam a omissão de impactos reais sob a etiqueta de data center sustentável — quando o consumo de água some do discurso.
Sem EIA/RIMA, a sustentabilidade fica no press release
Há outro problema: licenciamento. Segundo especialistas da Universidade Federal de Uberlândia, o projeto ainda tramita sem EIA/RIMA. Sem estudo de impacto ambiental, sem parecer técnico, sem licença prévia (LP), sem licença de instalação (LI).
A RT-One abriu o terreno em 2025. A obra deve começar em 2026. E ainda não tem licença ambiental definitiva.
Um artigo do Consultor Jurídico (07/07/2026) observa que “a nuvem não paira acima da lei” e que, independente de narrativas, órgãos ambientais têm dever legal de requerer licenciamento prévio. Infraestrutura de 1 milhão de metros quadrados, 400 megawatts e 239 mil litros diários não tramita por omissão regulatória só porque promete ser “eficiente”.
Energia renovável não apaga a pegada hídrica
A RT-One não mente sobre energia renovável. Haverá subestação da Cemig, contrato de fornecimento. A energia será “verde” porque o Brasil tem matriz renovável — o mesmo argumento que AWS, Equinix e Brasscom usam para vender “data center sustentável”. Energia renovável no RT-One não apaga a conta hídrica; matriz “verde” também não.
Mas sustentabilidade não é um atributo só da energia. No setor, PUE (eficiência elétrica) e WUE (eficiência hídrica) medem coisas diferentes. Um campus pode ostentar PUE baixo e matriz renovável e ainda evaporar água crítica no Triângulo. A empresa menciona resfriamento avançado e “baixo consumo”. Não publica WUE do RT-One, quanto dessa água volta ao ciclo, quanto é consumida, para onde vai a descarga térmica — e não há WUE público — a empresa não publicou esse indicador.
O Idec e reportagens como a do Intercept no Ceará já mostraram o padrão nacional: marketing verde empilha kWh limpo e empurra a água para a nota de rodapé. Em Uberlândia, o paradoxo do data center sustentável é o consumo de água local — 239 mil litros/dia sob estresse hídrico — enquanto outras cidades já rejeitaram campus por água.
Isso não é omissão acidental. É seleção de verdades.
Perguntas frequentes
Energia renovável elimina o consumo de água do data center?
Não. Renovável descreve a origem da eletricidade. Refrigeração continua demandando água; PUE e WUE medem coisas diferentes.
Quanto água o RT-One declara em Uberlândia?
239 mil litros por dia (2,77 L/s) ao DMAE — abaixo de médias globais citadas por pesquisadores, mas relevante sob crise hídrica regional.
A RT-One publicou o WUE do projeto?
Não. Não há WUE local publicado; a empresa fala em resfriamento avançado sem divulgar eficiência hídrica mensurável.
Fonte:
- Jornal da Unesp — Especialistas alertam para alto consumo de água por data centers
- Unifesp — Data centers acendem debate sobre água e energia
- ClimaInfo — Expansão de data centers e direito à água
- Jornal da USP — Expansão dos data centers e transição energética
- Consultor Jurídico — A nuvem não paira acima da lei (07/07/2026)
- Convergência Digital — RT-One: 239,3 mil L/dia ao DMAE
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