A mágica da palavra “renovável”
Brasil tem 90% de matriz energética renovável. É verdade. Água, vento, sol fazem a maioria da eletricidade do país. Perfeito para atrair data centers. Empresas como Microsoft, Google, Amazon não podem recusar: energia limpa, país estável, isenções fiscais via REDATA.
Mas aqui vem a mágica: quando a conversa é convencer cidades a aceitar data centers, “renovável” vira resposta para tudo. Consumir água? Não importa, energia é verde. Impacto local? Verde. Concentração de infraestrutura numa região? Verde. Emissões indiretas? Verde.
Renovável vira sinônimo de invisibilidade.
E Paulo Sérgio provavelmente dirá isso em Uberlândia, quando tiver coragem de falar.
Verde não é transparente
Dados são claros: mesmo com matriz renovável, data centers têm impacto ambiental significativo.
Um único data center em São Paulo consome energia equivalente à de um município com 150 mil habitantes. Se essa energia vem de hidroelétricas, ótimo — não emite carbono direto. Mas:
- Pressiona o sistema: Concentra demanda elétrica em pontos específicos, exigindo expansão de rede de transmissão
- Consome água: Renovável não significa água infinita. Hidroelétricas dependem de reservatórios que secam
- Emite indiretamente: Construção da infraestrutura, transporte de equipamento, geração de resíduos — tudo tem pegada de carbono
- Afeta localmente: Uberlândia sente a subestação de R$ 160 milhões na Cemig. Uberlândia sofre com 239 mil litros diários de água consumidos
Mas isso é invisível quando você foca só na cor verde da matriz energética.
O argumento que feita para desaparecer
“Mas o Brasil tem energia renovável, então data centers são sustentáveis aqui.”
Quantas vezes você ouvirá isso? De políticos, de consultores, de executivos do RT-One?
É um argumento perfeito porque é tecnicamente verdadeiro (a energia é renovável) e marketing excelente (usa a palavra “sustentável”) mas ignora completamente o problema real: a relação entre consumo de dados e consumo de água, emissões indiretas de carbono, concentração de infraestrutura, risco de instabilidade do aquífero.
Renovável está para o impacto ambiental dos data centers como “trabalha em casa” está para a sustentabilidade do home office: tecnicamente melhora um aspecto, completamente irrelevante para os outros.
A regulação que não existe
Especialistas apontam que a regulação ambiental dos data centers apresenta lacunas importantes. Em muitos casos, não há exigências governamentais específicas sobre transparência, eficiência energética ou redução de emissões no setor.
Em Uberlândia: zero regulação além de DMAE aprovando 239 mil litros e nenhuma auditoria pública após. Tudo “verde”, tudo invisível.
O RT-One foi aprovado sem EIA/RIMA, sem Licença Prévia, sem Licença de Instalação publicada. Apenas aprovação municipal que nunca foi transparente.
Mas está tudo bem porque a energia é renovável.
O custo invisível da vida digital
Instituto Humanitas Unisinos publicou: “Os data centers aceleram o esgotamento do planeta”. Não porque usem energia suja, mas porque:
- Consomem trilhões de litros de água (renovável não serve para isso)
- Geram resíduos eletrônicos em volume crescente
- Concentram infraestrutura criando pontos de risco
- Atraem mineração de terras raras para fabricação de chips (destruição ambiental massiva)
Tudo isso é invisível quando você foca em matriz renovável.
Matriz renovável é bonita. É verdadeira. É essencial. Mas é incompleta como argumento de sustentabilidade de data centers. É como dizer que um carro é sustentável porque tem pneu de borracha reciclada, ignorando consumo de gasolina, emissões de CO2 e impacto da mineração de lítio.
O greenwashing de Brasília chega em Uberlândia
A estratégia federal é clara:
- Ofereça isenção fiscal (REDATA): 7 bilhões em três anos
- Destaque a matriz renovável: 90% de energia verde, é sustentável
- Silêncio sobre água, resíduos e concentração: Não é assunto federal
- Deixe municípios decidirem: Pressão política, falta informação, ninguém questiona
- Celebre como sucesso: “Brasil é polo de IA”
Paulo Sérgio saiu dessa estratégia perfeito: nunca publicou documento, nunca enfrentou questão de água, nunca explicou por que Uberlândia precisa disso, e quando tiver coragem de falar, dirá que “a energia é renovável” como se isso respondesse tudo.
Greenwashing perfeito vindo de Brasília, executado em Uberlândia.
O impasse que ninguém quer ver
Data centers precisam estar em algum lugar. Se vão estar no Brasil (e vão, porque isenção fiscal atrai), é melhor que seja com matriz renovável do que carvão, certo?
Verdade. Mas isso não significa que qualquer projeto, em qualquer lugar, consumindo qualquer quantidade de água, sem regulação, sem transparência, é automaticamente “bom” só porque a eletricidade é verde.
Uberlândia poderia ter dito: “Tudo bem, data center aqui. Mas com condições: publicar contratos, plano de crise hídrica, auditoria de eficiência, investimento em P&D local garantido.”
Não disse. Deixou acontecer. E agora celebra “desenvolvimento” enquanto a água diminui.
O verde que ninguém vê
Paulo Sérgio não postou sobre crise hídrica no Triângulo Mineiro. Não postou sobre consumo de água do RT-One. Não postou sobre impacto da subestação Cemig. Não postou sobre regulação ambiental.
Postou sobre “Uberlândia Empreendedora”. Postou sobre “Selo Diamante” de transparência. Postou sobre visitações a creches.
Quando a conversa virar greenwashing global, energia renovável e sustentabilidade, ele dirá: “Olhe, a energia é verde.” E ninguém vai contestar porque a cor é bonita.
Mas a água não é bonita quando está faltando.
O que a cor verde esconde
Renovável significa energia limpa. Ótimo. Mas não significa:
- Água infinita
- Impactos locais desaparecem
- Falta de regulação vira problema federal
- Prefeitura pode esconder tudo
Uberlândia caiu no argumento. Porque era mais fácil. Porque vinha de Brasília. Porque ninguém questionou. E porque o prefeito, que posta sobre transparência, escolheu o maior silêncio da história da cidade.
Deixa verde virar invisível.
Fonte: Desinformante — Atração de data centers ao Brasil provoca preocupação ambiental | Instituto Humanitas Unisinos — Os data centers aceleram o esgotamento do planeta
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