Resposta direta
O DMAE emitiu parecer de viabilidade hídrica para abastecer a RT-One na rede pública: 2,77 L/s (239 mil litros/dia) na fase 1 — número reportado pela Convergência Digital (27/02/2026) a partir da Prefeitura/DMAE. A tese do parecer: o pedido "não trará impacto na produção de água tratada" e o empreendimento "não entraria no rol das dez primeiras consumidoras". URL pública do PDF/parecer no portal DMAE/transparência: não localizada neste corpus (pedido EXTERNAL_ACTION).
Fonte (número 239k): Convergência Digital · Data: 27/02/2026 · Órgão: DMAE/Prefeitura (via reportagem)
O parecer responde a um cenário estreito (fase 1 + rede municipal). Não responde expansão a 400 MW, captação subterrânea, impacto cumulativo de outros data centers, seca prolongada nem mudança de sítio após a saída do terreno Bacuri (jul/2026).
O número 239 mil L/dia e o enquadramento político do “mínimo” estão no hub Água RT-One: 239 mil litros. Este texto é o deep-dive do documento DMAE — o que ele cobre e o que deixa de fora.
O que o DMAE aprovou
Conclusões centrais do parecer técnico (conforme divulgação pública do caso):
- Pedido “não trará impacto na produção de água tratada”
- RT-One “não entraria no rol das dez primeiras consumidoras”
- Viabilidade técnica para atender 2,77 L/s
O que o prefeito traduziu
Paulo Sérgio (PP), em 23/02/2026:
“Consumirá menos do que um conjunto habitacional de 300 casas.”
A frase de campanha não é o parecer. O parecer fala em vazão e produção; o prefeito fala em analogia residencial sem publicar a memória de cálculo (consumo médio por domicílio, simultaneidade, período).
Análise crítica: o que o parecer omite
1. Considera apenas a fase 1
2,77 L/s amarra-se à fase 1 (~100 MW). O projeto anunciado admite expansão modular para ~400 MW. Se a refrigeração escalar de forma aproximadamente linear, o envelope sobe — e o parecer não fecha esse cenário. Sem aditivo explícito, a cidade aprova a porta e deixa a casa sem planta.
2. Não inclui captação subterrânea
O DMAE analisa água de rede. Se houver poço / Aquífero Guarani / geoexchange — hipótese aberta pelo próprio histórico da empresa em Maringá — a competência migra para o IGAM. Ver Aquífero Guarani e RT-One. Parecer municipal não autoriza nem veda poço.
3. Não considera impacto cumulativo
Negociações com outros players (ex.: narrativa de Alibaba Cloud e outras multinacionais) foram mencionadas por autoridades locais em 2025–2026. O parecer da RT-One não modela N data centers simultâneos. Cada parecer isolado pode ser “pequeno”; a soma não.
4. Não incorpora crescimento populacional nem irregularidade
Uberlândia cresce e mantém bolsões sem rede formal. O próprio DMAE, ao responder o Ranking Trata Brasil 2026, lembrou que indicadores de rede formal podem subrepresentar áreas irregulares. Um parecer de grande consumidor deveria dialogar com essa fila — não só com a vazão residual teórica.
5. Não analisa cenários de seca / prioridade
Em crise hídrica, quem é racionado primeiro? Sem protocolo publicado, “viabilidade” em ano médio não é garantia em ano crítico.
6. Local do campus ficou indefinido
Desde jul/2026, o terreno Bacuri (Pequis / MGC-497) está fora dos planos; a empresa seleciona nova área em Uberlândia e outras localidades. Um parecer amarrado a um ponto de entrega / setor de rede envelhece quando o sítio muda. A pergunta correta passa a ser: o DMAE reemitirá parecer para o novo endereço — ou o documento antigo circula como se fosse atemporal?
Capacidade das ETAs — o que os números dizem (e não dizem)
| ETA | Capacidade aproximada (referência pública local) |
|---|---|
| Sucupira | ~800 L/s |
| Bom Jardim | ~1.000 L/s |
| Capim Branco | ~800–2.200 L/s (faixa operacional / expansão) |
| Total nominal | ~2.600–4.000 L/s |
- RT-One fase 1: 2,77 L/s → fração pequena da capacidade nominal (~0,07–0,1%)
- Extrapolação linear grosseira a 400 MW: da ordem de ~11 L/s — ainda “pequena” no papel
Por que isso não encerra o debate:
- Capacidade nominal ≠ capacidade firme em estiagem
- Picos diários e setoriais comprimem margem
- Perdas (~21,6% no ciclo do ranking 2026) são água produzida que não chega ao uso útil
- Pressão de rede em bairros periféricos é fenômeno local, não média municipal
- Outros grandes consumidores já ocupam a lista das “dez primeiras”
Em resumo: fração percentual baixa ≠ impacto político e operacional nulo.
Ranking Trata Brasil: o contexto que o parecer ignora
No Ranking do Saneamento 2026, Uberlândia caiu de 11ª para 21ª — pior resultado da série histórica — com investimento médio de R$ 69,89/hab. frente a R$ 225/hab. do Plansab. Cobertura de água (~98%) e esgoto (~97%) é alta; tratamento de esgoto (~80%) e investimento são o calcanhar. Análise completa: Ranking de saneamento 2026.
Um parecer de viabilidade que só olha “cabe na ETA?” sem olhar “a cidade está investindo o suficiente na rede que vai servir o data center e o resto?” é engenharia incompleta.
Na resposta ao ranking, o DMAE citou capacidade hídrica para atender até 3 milhões de pessoas e redes extensas (água/esgoto). Mesmo aceitando a tese de sistema “consolidado”, isso reforça a pergunta: se há tanta folga narrativa, por que o investimento per capita despencou e a posição no ranking piorou quatro anos seguidos?
O que um parecer completo deveria incluir
- Cenários — ano médio, seca, pico, falha de ETA
- Expansão 400 MW — vazões teto e gatilhos de novo parecer
- Cumulativo — outros data centers e indústrias em pipeline
- Demografia — 10/20/30 anos + áreas a regularizar
- Priorização — protocolo público de racionamento
- Endereço — validade geográfica; reemissão se o sítio mudar
- Fronteira DMAE/IGAM — declaração explícita sobre poços
Perguntas objetivas ao DMAE
- O parecer considera a expansão para 400 MW?
- Qual a validade geográfica (ponto de entrega) do documento?
- Será refeito se a RT-One mudar de terreno?
- Qual a margem de segurança atual do sistema em estiagem?
- Em crise, quem tem prioridade: residencial ou grandes consumidores?
- Há modelagem cumulativa com outros data centers anunciados?
Conclusão
O parecer do DMAE é parcialmente útil e estruturalmente incompleto. Aprova um envelope estreito de rede para fase 1 e alimenta o discurso de que “não há impacto”. Omite expansão, subterrânea, cumulativo, seca, irregularidade e — depois de jul/2026 — a própria incerteza de localização. Uberlândia precisa de análise hídrica de projeto, não de carimbo para slide de anúncio.
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