Resposta direta
Em 18/03/2026, o Instituto Trata Brasil (com a consultoria GO Associados) colocou Uberlândia na 21ª posição entre os 100 municípios mais populosos do país no Ranking do Saneamento — queda de 10 posições em relação a 2025 (11ª). É o pior resultado da série histórica da cidade no estudo. No mesmo período em que a Prefeitura anunciava o data center da RT-One (239 mil litros/dia aprovados pelo DMAE na fase 1), a cidade investia cerca de R$ 69,89 por habitante em saneamento, frente aos R$ 225/hab. recomendados pelo Plansab.
A pergunta prática não é “Uberlândia tem água?”. É: capacidade nominal das ETAs cobre novos grandes consumidores sem deslocar investimento e prioridade da população? O ranking mede outra coisa — cobertura, tratamento, perdas e investimento — e aí o quadro piorou.
O Ranking 2026 em números
O levantamento usa dados de 2024 do Sinisa (Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico). Indicadores principais cobertos pelo estudo: abastecimento de água, esgotamento sanitário, tratamento de esgoto, perdas na distribuição e investimento per capita.
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Posição 2026 | 21ª |
| Posição 2025 | 11ª |
| Queda | 10 posições |
| Investimento médio per capita (2020–2024) | R$ 69,89/hab. |
| Recomendado (Plansab) | R$ 225/hab. |
| Investimento acumulado 2020–2024 | R$ 263,82 milhões |
Fontes: G1 Triângulo (18/03/2026) e release do Trata Brasil.
Queda em série — não é um “ano ruim”
A retração não é pontual:
- 2023: de 2ª para 3ª
- 2024: para 5ª
- 2025: de 5ª para 11ª (−6)
- 2026: de 11ª para 21ª (−10)
Uberlândia já foi 1ª do Brasil no ranking de 2013 e, em 18 anos de publicação do Trata Brasil, ficou 10 vezes entre as três melhores. Em 2026, entre mineiras, ficou atrás de Uberaba (11ª) e Montes Claros (14ª).
O que melhorou (e o que não)
Apesar da queda de posição, alguns indicadores de cobertura subiram ligeiramente frente a 2025, segundo o G1:
| Indicador | 2026 (dados 2024) | Nota |
|---|---|---|
| Atendimento total de água | 98,05% | leve alta vs. 97,73% |
| Atendimento total de esgoto | 97,01% | leve alta vs. 96,46% |
| Tratamento total de esgoto | 80,47% | estável (~80%) |
| Perdas na distribuição | 21,64% | +0,41 p.p. |
Ou seja: cobertura alta não impediu a queda. O ranking penaliza sobretudo investimento per capita e dinâmicas de expansão — e o aporte médio por habitante caiu 24,5% em relação ao ciclo anterior (R$ 92,62 → R$ 69,89).
Capacidade do DMAE × métricas do Trata Brasil
São duas conversas que a Prefeitura costuma misturar.
- Capacidade hídrica / produção de água tratada — o DMAE afirma, no parecer da RT-One, que 2,77 L/s “não trará impacto na produção” e que o empreendimento “não entraria no rol das dez primeiras consumidoras”. Detalhamos as lacunas desse parecer em Parecer do DMAE sobre RT-One.
- Desempenho de saneamento no ranking — mede se a cidade investe o suficiente para universalizar, reduzir perdas e tratar esgoto em ritmo competitivo com outras grandes cidades.
Uma ETA com margem teórica de vazão não cancela investimento per capita baixo nem perdas em 21%. Para o cidadão de área irregular ou de bairro com pressão baixa, a pergunta relevante é prioridade de rede e de obra — não só o percentual da capacidade nominal.
O próprio DMAE respondeu ao ranking dizendo que a metodologia “privilegia grandes investimentos em estrutura e expansão” e não refletiria a qualidade do serviço em cidade com sistema “consolidado”. É uma defesa legítima de narrativa operacional. Não apaga o fato: investimento ficou ~69% abaixo do Plansab, e a posição histórica piorou quatro anos seguidos.
A contradição com o data center
O consumo declarado da RT-One na fase 1 — 239 mil litros/dia (2,77 L/s) — está documentado no hub 239 mil litros: o mínimo aprovado. O ponto aqui não é disputar o head term da água, e sim o contexto de prioridade:
- Queda de 10 posições no ranking de saneamento
- Investimento ~1/3 do recomendado pelo Plansab
- Densidade de demanda hídrica crescente (crescimento urbano + novos grandes consumidores)
- Local do campus indefinido desde jul/2026 (terreno Bacuri/Pequis fora dos planos; nova área em seleção em Uberlândia e outras localidades) — a pressão hídrica muda de lugar, não some
Segundo o vereador Dr. Igino (PT), na audiência pública de março/2026:
“100 mil pessoas moram em áreas irregulares, sem acesso a água, energia e saneamento básico.”
Aprovar (ou manter aberto) o caminho para um grande consumidor sem plano público de contingência e de priorização em seca é decisão política — não “detalhe técnico” do parecer.
O que deveria vir antes de novos grandes consumidores
Antes de amarrar margem hídrica a data centers, a cidade deveria publicar e cumprir:
- Universalização efetiva (incluindo áreas irregulares, com metodologia transparente)
- Trajetória de investimento rumo a R$ 225/hab. ou justificativa formal do gap
- Meta de perdas com cronograma (21,64% ainda é melhor que a média nacional citada pelo DMAE, mas não é “resolvido”)
- Reserva explícita para crescimento populacional e cenários de seca
- Protocolo de prioridade em crise: população × indústria × data centers
Perguntas para o DMAE e a Prefeitura
- Qual o plano plurianual para fechar o gap Plansab (R$ 69,89 → R$ 225/hab.)?
- Em seca severa, quem tem prioridade de abastecimento: rede residencial ou grandes consumidores industriais/TI?
- O parecer da RT-One será refeito se o campus mudar de endereço ou escalar para 400 MW?
- Como o DMAE contabiliza áreas irregulares no “atendimento”, dado o próprio alerta da autarquia sobre mudança metodológica do Trata Brasil?
- Qual a margem de segurança das ETAs sob pico + seca + múltiplos projetos anunciados?
Conclusão
Uberlândia caiu 10 posições no Ranking do Saneamento 2026 e registrou o pior resultado da série histórica, com investimento per capita bem abaixo do Plansab. Isso não prova, sozinho, que “falta água na torneira amanhã”. Prova que a cidade não está priorizando o investimento que o próprio marco nacional considera necessário — e, ao mesmo tempo, quer absorver grandes consumidores de água. Capacidade de ETA e qualidade de saneamento são debates distintos; misturá-los serve à propaganda, não ao planejamento.
Fontes: G1 — Ranking Trata Brasil 2026 · G1 — investimento ~R$ 70/hab. · Release Trata Brasil 2026 (PDF)
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