Perspectiva: o Brasil consome litro por litro enquanto Uberlândia diz que é manutenção
Especialistas alertam: até 2029, os data centers no Brasil vão consumir 30 bilhões de litros de água — um aumento de 1.400% em relação a 2022. Não é ficção científica. É projeção baseada em estudos da Universidade de São Paulo e avalizada por pesquisadores de institutos de pós-graduação.
A RT-One, enquanto isso, pede aprovação para consumir 239 mil litros de água por dia em Uberlândia — número que a prefeitura e a Câmara Municipal trataram como se fosse a conta de um condomínio. Não é coincidência. É estratégia: enquanto a conversa nacional é sobre centenas de bilhões de litros, o número local fica bem pequenino, fácil de ignorar.
O “detalhe” de 239 mil litros por dia
A RT-One solicitou ao DMAE (Departamento Municipal de Água e Esgoto) uma vazão de 2,77 litros por segundo. Lê-se como manutenção. Reproduz-se como compromisso sem consequência.
Fatos: esse consumo é legítimo e aprovado. E está documentado desde fevereiro de 2026. Nenhuma crítica aqui reclama que o número existe — mas que ele coexiste com uma narrativa nacional de escassez hídrica e simplesmente é tratado como se pertencesse a outro planeta.
Contexto: um data center típico consome 3 a 5 milhões de litros por dia. A RT-One, segundo seus próprios dados de eficiência (WUE = 0,05 L/kWh), quer operar com 239 mil. A diferença é tão brutal que merece desconfiança ou reconhecimento de que alguém está operando na ficção.
A contradição que ninguém menciona em voz alta
O Brasil inteiro discute crise hídrica. A imprensa das universidades publica alertas constantes sobre data centers e escassez. O Triângulo Mineiro, onde Uberlândia fica, convive com risco estrutural de seca. E a aprovação de 239 mil litros por dia passa como um detalhe administrativo.
Cientistas do Instituto Humanitas Unisinos advertem que data centers competem por água em regiões que já enfrentam estresse hídrico agravado por mudanças climáticas. A RT-One em Uberlândia não refuta isso. Apenas não responde.
Comparação útil:
| Consumidor | Litros por dia | Referência |
|---|---|---|
| Data center típico | 3–5 milhões | Padrão internacional |
| RT-One (promessa) | 239 mil | Aprovado pelo DMAE |
| Uma cidade de 30 mil pessoas | ~800 mil | Consumo diário urbano típico |
| Triângulo Mineiro (população total) | ~2,8 bilhões | Consumo municipal agregado |
A RT-One quer 8,6% do consumo de uma pequena cidade. Promete eficiência que desafia física. Ninguém pergunta por quê.
Por que a narrativa mudou
Até 2024, a indústria de data centers prometia sustentabilidade via energia renovável. Hoje, especialistas alertam que o contraste entre a energia verde e o consumo hídrico é enganoso. Uma máquina alimentada por painéis solares consome água exatamente como uma alimentada por carvão.
A RT-One sabe disso. Por isso enfatiza seu número como se fosse uma vitória de engenharia — e deixa para o DMAE o problema de onde essa água vai sair quando o Aquífero Guarani estiver mais seco ainda.
O que falta na conversa
Nenhum estudo do impacto combinado: RT-One + expansão de data centers em São Paulo e Goiás + secas recorrentes = queda estrutural de abastecimento. A prefeitura nunca encomendou uma análise así. A Câmara nunca solicitou. O MPF, que abriu inquérito civil, também não publicou achados sobre hidráulica.
Enquanto isso, o Brasil todo se pergunta se consegue água para 2029. Uberlândia aprova 239 mil litros por dia para uma máquina sem rosto e segue dormindo.
Fontes:
- Especialistas alertam para alto consumo de água por data centers — Jornal da Unesp
- Cientistas alertam para o impacto hídrico dos data centers — Instituto Humanitas Unisinos
- Expansão de data centers, incentivos fiscais e impactos sobre o direito à água no Brasil — ClimaInfo
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