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Brasil quer ser polo de IA; Uberlândia vira estação de transmissão

Enquanto a corrida do Brasil por investimentos em data centers acelera, cidades recebem consumo energético sem transparência ou benefício real.

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A corrida de quem não paga o preço

O Brasil está em uma corrida. Não é para fabricar nada, crescer internamente ou resolver qualquer problema local. É para convencer empresas de tecnologia americana — Amazon, Google, Microsoft, Meta — a instalar data centers no território brasileiro. A promessa: matriz elétrica renovável, incentivos fiscais, e silêncio regulatório.

A estratégia está funcionando. O Brasil concentra 48% de toda a capacidade instalada de data centers da América Latina e 71% de toda a infraestrutura em construção. Isso é um sucesso, dizem em Brasília.

Para cidades como Uberlândia, é uma sentença. E ninguém avisa antes.


De 1,7% para 3,6%: quando a conta chega

Em 2024, os data centers representavam 1,7% do consumo total de energia elétrica do Brasil — aproximadamente 8,2 TWh. Até 2029, essa fatia pode crescer para 3,6%. Quase dobra em cinco anos.

Essa energia tem que sair de algum lugar. Tem que passar por alguma cidade. Tem que atravessar alguma rede de transmissão que não foi dimensionada para esse pico. E quando o apagão bate na porta, o engenheiro de Brasília não está lá para explicar.

O RT-One, isolado, exigirá 100 MW inicialmente, expansível para 400 MW. A subestação dedicada custou R$ 160 milhões aos cofres da Cemig — ou seja, aos cofres seus, como consumidor.

Mas não é só o RT-One. Enquanto a câmara de São Paulo acumula pedidos de conexão de gigantes de tecnologia, Uberlândia está silenciosamente nesse mapa de expansão energética. Centro-Oeste, energia barata, caminho mais curto para o Triângulo Mineiro. Perfeito para instalar mais data centers.


A posição estratégica que virou vulnerabilidade

As notícias apontam que o Brasil está em “posição estratégica” para capturar investimentos em IA. Mas estratégico para quem? Não para os municípios que recebem a infraestrutura.

NívelDiscursoRealidade
Federal”Brasil é polo de IA”Isenção fiscal de R$ 7 bilhões em 3 anos
Estadual”Desenvolvimento de Minas”Subestação Cemig de R$ 160 milhões em Uberlândia
Municipal”Uberlândia Empreendedora”Menos de 100 empregos permanentes
BairrosIndiferença planejadaPequis e Monte Hebrom na zona rural do RT-One

O Brasil quer atrair investimento. Os estados querem royalties. Os municípios deixam acontecer. E as famílias que vivem a 5 km do data center descobrem do Facebook que consumirão 239 mil litros de água diariamente — igual ao de uma cidade pequena inteira.


O silêncio do prefeito é o silêncio da estratégia

Paulo Sérgio nunca explicou por que o RT-One é essencial para Uberlândia. Nunca publicou os documentos. Nunca participou da audiência pública onde deveria ter defendido o projeto. Nunca mencionou em nenhum post de Facebook que a cidade virou nó de transmissão de uma corrida global por IA.

Porque não há defesa possível. A defesa é a invisibilidade. E a invisibilidade é exatamente o que a corrida brasileira por data centers exige: cidades que servem à infraestrutura sem questionar, sem cobrar, sem visibilizar.

Enquanto Brasília celebra ser “polo de IA da América Latina”, Uberlândia já é, na prática, estação de transmissão. Energia passa. Água é consumida. Empregos são externos. Impostos são isentos. E o prefeito segue em silêncio.


A conta que ninguém lê

A corrida por data centers no Brasil custará aos cofres públicos mais de R$ 7 bilhões em três anos — apenas em REDATA, apenas em cinco anos de isenção.

Esse dinheiro que deixa de entrar:

  • Não vai para saneamento em Uberlândia
  • Não vai para a UFU expandir engenharia
  • Não vai para educação técnica preparar mão de obra local
  • Não vai para pesquisa de eficiência hídrica em data centers

Vai para quem já é bilionário. E fica invisível no balanço da prefeitura.


O que a “posição estratégica” realmente significa

Para o Brasil: oportunidade de investimento estrangeiro.

Para a Cemig: expandir rede com subsídio público.

Para o RT-One: isenção fiscal e terreno barato.

Para Paulo Sérgio: silêncio como cumplicidade.

Para Uberlândia: estar no mapa de quem não aparece em lugar algum.

A corrida brasileira por data centers já começou. Uberlândia não escolheu entrar. Só descobriu que estava dentro quando o prefeito postou sobre “Uberlândia Empreendedora” sem mencionar uma linha sequer do projeto que mudará o consumo energético da cidade para a próxima década.

Estratégico é a palavra certa. Apenas não significa o que você pensa.


Fonte: Data Center Dynamics Brasil | Seu Dinheiro — A nova corrida da IA

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Publicado por:

E

Equipe Data Center Uberlândia

Monitoramento Ambiental e Socioeconômico

Blog independente que documenta os impactos ambientais e socioeconômicos de data centers em Uberlândia (MG).