A nuvem verde que arde quando observada
O Brasil acaba de chegar a 1 gigawatt de capacidade de centros de dados comissionada. Ministérios comemoram. Agências de fomento ao investimento promovem o país como “polo global de data centers verdes”. Empresas bilionárias aterrisam anunciando hub sustentável da IA. A propaganda é clara: o Brasil é a solução para a corrida digital e ambiental, graças à sua matriz energética renovável e seus recursos naturais abundantes.
Enquanto isso, em Uberlândia, a cidade arde.
A primeira fissura no discurso verde aparece quando você observa os números de consumo energético. Os data centers vão aumentar seu consumo de energia em 11 vezes até 2030, segundo órgãos do setor elétrico. De 304 MW médios em 2026, saltarão para 3.457 MW médios em 2030. Em termos de percentual de demanda nacional, a participação dos data centers deve mais que dobrar até 2029, chegando a 3,9% de todo o consumo elétrico do país.
Lindo relatório. Matriz renovável sendo consumida progressivamente por máquinas que treinam modelos de IA para escrever emails automaticamente.
O paradoxo hidrodigital: a nuvem que bebe
Mas há algo ainda mais incômodo que energia: água.
Especialistas alertam que, enquanto o consumo energético dos data centers é conhecido e amplamente discutido, o impacto hídrico dessas estruturas não recebe a mesma atenção, e é igualmente preocupante. A água é a estratégia principal de resfriamento para a maioria desses empreendimentos.
O Brasil exporta serviços digitais, sim. Mas também exporta volumes significativos de água e energia embutidos na operação contínua desses centros. É a “água virtual” da economia digital: invisível no código, visível na seca da torneira.
A ironia ambiental é cristalina: regiões que já padecem por escassez hídrica agora atraem data centers com promessas de investimento e empregos. Um empreendimento em Caucaia, na região metropolitana de Fortaleza, prevê potência entre 210 e 300 MW — consumo superior ao de 99% dos municípios brasileiros — em uma região marcada pela escassez hídrica. Uberlândia segue o mesmo roteiro.
O vazio legal do data center verde
Existe um terceiro elemento no quebra-cabeça que desmente a propaganda: o regulatório.
Data centers no Brasil estão sendo licenciados sob a rubrica de “baixo impacto”, contornando a exigência de Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e Relatório de Impacto Ambiental (RIMA). Não existe tipologia específica nos marcos legais para esses empreendimentos, permitindo que infraestruturas de consumo hídrico e energético equivalente ao de cidades inteiras entrem pelo licenciamento simplificado.
A ausência não é de lei, mas de aplicação. A legislação ambiental brasileira já existe e é suficiente. O problema é que empresas e gestores públicos tratam a “nuvem” como se fosse imaterial, quando na verdade consome recursos naturais intensamente. O Judiciário deveria exigir que o porte real do empreendimento determine o escrutínio ambiental necessário, invertendo o ônus probatório sobre quem opera a infraestrutura.
No Brasil, ninguém cobra isso. Em Uberlândia, ainda menos.
Uberlândia: quando a promessa encontra a seca
A RT-One é o espelho dessa contradição. O consumo de 239 mil litros de água por dia foi aprovado pelo DMAE numa região já sob pressão hídrica. A subestação de R$ 160 milhões será bancada pela Cemig — isto é, pelos usuários finais de energia que verão suas tarifas subirem. O data center opera sem EIA/RIMA, sem licença ambiental expedida, em limbo municipal e estadual.
E enquanto isso, o Brasil continua seu discurso de polo sustentável, ministérios fazem PowerPoint, investidores aplaudem. Uberlândia recebe o projeto como “progresso”. A prefeitura não publica os contratos, os impactos, as contrapartidas. A água segue sendo consumida. A energia segue sendo pressionada.
O prefeito posta sobre “Uberlândia Empreendedora” e não menciona a RT-One. Viaja para Lisboa. Visita creches em bairros que serão afetados pela operação do data center. A contradição é tão óbvia que beira o desonesto.
O que arde, afinal
O Brasil se vende como solução verde para a corrida digital global. Mas a solução verde depende de água cada vez mais escassa, de energia que já é disputada, de regulação ambiental que passa batido por falta de vontade política local.
Uberlândia não é exceção. É exemplo perfeito.
Quando a “nuvem verde” desembarcar em cidades brasileiras com seus consumos colossais de água e energia, descobriremos que verde é apenas a cor do marketing. O custo real é hídrico, energético, ambiental. E quem paga não são os investidores em São Paulo ou os executivos em São José dos Campos. Paga quem vive aqui, na seca, com a torneira fraca e a conta de luz subindo.
Fonte: Movimento Econômico — Data Centers vão aumentar o consumo de energia em 11 vezes até 2030; Connected Smart Cities — Especialistas alertam para alto consumo de água por data centers; Consultor Jurídico — A nuvem não paira acima da lei
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