Quando “progresso” significa 3,9% da energia nacional dedicada a máquinas que pensam sozinhas
O número é tão grande que virou invisível: até 2029, data centers de inteligência artificial vão consumir 3,9% de toda a energia gerada no Brasil. Passou de 1,7% em 2024.
Para contexto: iluminação pública em todo o Brasil. Semáforos. Postos de gasolina. Farmácias abertas à noite. Tudo isso consumiria menos do que máquinas para processar IA em oito anos.
Uberlândia, que sedia a RT-One, ouve esse número nacional e pensa: “Que oportunidade.”
Os números que a RT-One não quer divulgar
A subestação da Cemig dedicada à RT-One — custou R$ 160 milhões em investimento público — foi dimensionada para 100 MW iniciais, com expansão para 400 MW.
Fatos:
- 100 MW é o consumo de uma cidade de 600 mil pessoas.
- 400 MW superaria o consumo de cidades como Ribeirão Preto e Franca somadas.
- A RT-One nunca publicou as contas de eficiência energética que prometeu.
- O DMAE aprovou 239 mil litros de água por dia, e a engenharia de refrigeração dessa escala é invisível.
O governo federal ofereceu isenção fiscal de 5 anos via Redata. A RT-One não precisa pagar imposto sobre a energia que consome. A Cemig, que construiu a subestação com dinheiro público, sabe disso.
A ironia do “renovável”
A matriz energética do Brasil é 60% renovável. A RT-One promete usar “100% de energia renovável”. Lê-se bem. Parece sustentável.
A verdade: pesquisadores do MIT alertam que data centers de IA vão superar o consumo de iluminação pública em todo o país, independentemente de a energia vir de usinas hidrelétricas ou carvão. A energia renovável não é infinita. Compartilhada entre data centers, cidades, indústrias e agricultura, ela fica escassa — e cara.
Quando a tarifa da Cemig subir — e há evidências de que a RT-One pressiona custos estruturais — a isenção fiscal da RT-One garante que ela não pagará a conta. Quem paga? O cidadão.
Por que o governo subsidia máquinas em vez de pessoas
A REDATA oferece isenção de impostos para data centers porque a indústria de IA é considerada estratégica. Prioridade econômica. As multinacionais que vão operar esses centros não pagam. O Brasil cede a energia pública, a água pública, o espaço territorial — e oferece desconto fiscal além.
Enquanto isso, especialistas universitários clamam por regulação e transparência. Mas regulação é lenta. Isenção fiscal é rápida.
Uberlândia não foi consultada sobre se queria ser o palco dessa prioridade.
O que significa 3,9% da energia nacional
Quando o MIT calcula que data centers vão superar iluminação pública, não é poesia. É um alerta que passa por cálculos: a infraestrutura energética brasileira tem limite. A cada megawatt dedicado a processar IA, há um megawatt que não pode iluminar uma rua, resfriar um hospital ou alimentar uma fábrica.
A prefeitura de Uberlândia nunca pediu para a RT-One publicar:
- Curvas reais de consumo energético (promete 400 MW, quanto realmente vai consumir?)
- Impacto nas tarifas locais (a subestação de R$ 160 milhões vai gerar custos ocultos?)
- Cenários de contingência (e se faltar energia renovável num ano de seca?)
Fechamento
O Brasil cede sua eletricidade a máquinas que pensam sozinhas enquanto oferece isenção fiscal para quem opera essas máquinas. Uberlândia cedeu um terreno de 1 milhão de metros quadrados — e ainda não sabe quanto vai custar em conta de energia quando a RT-One ligar a subestação de 400 MW.
Chamar isso de “progresso” é generoso.
Fontes:
- Consumo de energia de data centers vai dobrar no Brasil e superar iluminação pública, revela MIT — Exame
- Até 2029, Data Centers devem consumir 3,9% da energia no Brasil — Gazeta Mercantil
- Datacenters farão consumo de energia dobrar no Brasil em quatro anos — Canal Solar
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