Uberlândia “lidera” a corrida de IA — e o que sobra é consumo de energia: o RT-One parte de 100 MW com expansão a 400 MW.
Na 1ª Revisão Quadrimestral ONS/CCEE/EPE (abr/2026), a carga de data centers no SIN saltava de 304 → 3.457 MW médios até 2030 (~11×). A 2ª revisão (ago/2026) elevou a projeção a cerca de 315 → 5.653 MW médios — ainda projeção de planejamento, não consumo medido. Prefeitura e FIEMG vendem “primeiro do Sudeste”; a planilha de MW e empregos reais fica em segundo plano. Este texto trata só da corrida energética — não do silêncio do prefeito, nem do hub vs inovação, nem da fatura completa do cidadão.
Liderança anunciada, consumo de energia projetado
A história que a prefeitura e a FIEMG contam é limpa: Uberlândia atrai o maior data center de IA da América Latina, 2 mil empregos permanentes, energia renovável, infraestrutura de classe mundial. Diário do Comércio e CPG ecoam “capital da IA” e “liderar a corrida”. A energia aparece como orgulho de capacidade Cemig — não como custo da corrida.
A história que os dados de energia contam é outra.
O RT-One parte de 100 MW com expansão anunciada a 400 MW. Na audiência da ALMG (2/7/2026), a vereadora Amanda Gondim apontou que a demanda de 400 MW se aproxima do volume disponível hoje para abastecer a cidade. O consumo de eletricidade do projeto equivale a 1,6 milhão de residências na conta de referência local. Enquanto o planejamento elétrico revisa para cima a carga de data centers (1ª rev. ~11×; 2ª rev. ainda maior), Uberlândia já se posicionou para receber uma fatia disso — sem publicar contrato de contrapartida energética.
Uberlândia está liderando, sim: a corrida cujo prêmio é carga elétrica.
”Primeiro do Sudeste”: 100 a 400 MW sem estudo na rede
Ser “primeiro” em uma corrida é bom quando você sabe aonde ela leva. Quando os sinais de trânsito indicam um penhasco, ser primeiro significa bater na parede antes dos outros.
A expansão dos data centers no Brasil já é descrita como um “teste de estresse para o setor elétrico”. A trajetória da 1ª revisão (~11× em quatro anos) já era agressiva; a 2ª revisão (ago/2026) só aumentou a pressão projetada. As subestações e a transmissão não acompanham slogan de “liderança”. As fontes renováveis, apesar de abundantes na matriz, precisam de investimento em rede — a subestação dedicada da Cemig de R$ 160 milhões é o primeiro capítulo local dessa conta.
E Uberlândia? A cidade que deveria estar debatendo como preparar a rede para 100–400 MW está comemorando ser a primeira a recebê-los. Sem licença prévia, sem estudo público de impacto na rede elétrica local.
A prefeitura fala de liderança tecnológica. O que ela deveria discutir é o consumo de energia real — capacidade, transmissão e pico — não slogan de corrida.
Empregos reais vs megawatts anunciados
Liderança em IA, no discurso, vem embalada em emprego. Na operação, o que escala é a potência — não o quadro permanente.
A prefeitura anunciou cerca de 2 mil empregos permanentes. Na ALMG e em coberturas como o Brasil de Fato, os alertas se repetem: a maioria das vagas tende a concentrar-se na construção; a operação de data center exige equipes reduzidas. A leitura local dos números permanentes fica bem abaixo da promessa. Megawatts sobem de 100 para 400; o emprego estável não acompanha a mesma curva.
Contratos de energia com a RT-One? Não publicados. Isenção via Redata enquanto a cidade celebra “primeiro do Sudeste”. Plano público para integrar 400 MW na rede sem estresse? Não apresentado.
Isso é liderança na corrida de consumo. O que falta é preço energético honestamente colocado na mesa.
O custo energético de estar na frente
Uberlândia está correndo para a frente. Mas o que ninguém discute é o custo energético de liderar um problema que o Brasil ainda está aprendendo a administrar.
Enquanto outras cidades estudam como integrar data centers sem quebrar a rede, Uberlândia já acelerou. A prefeitura aposta que ser “primeiro” é ganhar. Na conta de megawatts, pode ser apenas uma forma diferente de perder.
Perguntas frequentes
Quanto energia o RT-One consome em Uberlândia?
Projeção anunciada: 100 MW iniciais, expansão a 400 MW. Na ALMG (02/07/2026), 400 MW foi aproximado ao volume disponível hoje para abastecer a cidade.
O que significa o crescimento de 11 vezes até 2030?
Projeção da 1ª Revisão Quadrimestral ONS/CCEE/EPE (abr/2026): ~304 → 3.457 MW médios. A 2ª revisão (ago/2026) elevou o horizonte a ~5.653 MW médios em 2030 — estresse de rede e transmissão, não só “liderança” de marketing.
Quantos empregos permanentes o RT-One gera?
A narrativa FIEMG/prefeitura fala em milhares; o acompanhamento do blog aponta menos de 100 permanentes na operação tipicamente citada — construção ≠ emprego estável local.
Este artigo cobre silêncio, hub ou fatura do cidadão?
Não. Aqui é energia / MW. Silêncio: liderança IA invisível. Hub vs infra: motor sem inteligência local. Conta completa: quem paga a conta.
Fontes:
- FIEMG e Prefeitura de Uberlândia reforçam parceria para viabilizar primeiro Data Center de IA do Sudeste
- ALMG — Licenciamento para centro de dados em IA é defendido em audiência
- Brasil de Fato — sem regulação, avanço de data centers em MG
- Movimento Econômico — 1ª RQC: 11× até 2030 (304 → 3.457 MW médios)
- MegaWhat — 2ª RQC: data centers sobem a 5.653 MW médios em 2030
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