O chão do “maior data center da América Latina” saiu do contrato
FATO (jul/2026): a RT-One encerrou, de comum acordo com o FII Bacuri, os contratos do terreno da fase 1 (Fazenda Bom Jardim / MGC-497). Não é cancelamento do projeto no Brasil — status: local indefinido (Uberlândia ou outras localidades). Fontes de status: comunicado RT-One; Paranaíba Mais; BNamericas; DCD. Páginas em rt-one.com sobre terreno/compra podem estar desatualizadas após a rescisão — cruzar sempre com o comunicado.
| Campo | Conteúdo |
|---|---|
| Pergunta | A RT-One cancelou o data center / pode deixar Uberlândia? |
| Resposta | Não cancelou o projeto; saiu do terreno Bacuri e busca novo sítio (UDI ou outras) |
| Fato | Comum acordo; fatos supervenientes das administradoras; só locatária |
| Fonte | Comunicado RT-One (jul/2026) + Paranaíba Mais / BNamericas / DCD; Intercept (13/07/2026) = investigação Bacuri, não status |
| Data | Jul/2026 |
| Status | Local indefinido — não “projeto cancelado”; site corporativo pode estar stale |
A RT-One publicou o comunicado oficial: Comunicado sobre o encerramento dos contratos referentes a terreno em Uberlândia (MG). Em resumo: encerrou, de comum acordo com o FII Bacuri, as relações contratuais do terreno “originalmente destinado a abrigar um de seus projetos de data center”.
O local da cerimônia com prefeito, vice e parceiros deixou de fazer parte dos planos. Não é cancelamento do investimento no Brasil — a empresa “reafirma seu compromisso com a expansão de sua infraestrutura de data centers no Brasil”. É outra coisa, mais prosaica e mais grave para a narrativa municipal: o sítio da MGC-497 morreu no papel, e a seleção de nova área avalia “alternativas em Uberlândia e em outras localidades”.
A linha do tempo completa registra o capítulo. Abaixo, o texto integral e o que ele esconde.
O comunicado oficial (texto integral)
Comunicado sobre o encerramento dos contratos referentes a terreno em Uberlândia (MG)
A RT-One informa que encerrou, de comum acordo com o Fundo de Investimento Imobiliário Bacuri, as relações contratuais referentes ao terreno de Uberlândia (MG), originalmente destinado a abrigar um de seus projetos de data center. A decisão, tomada diante dos fatos supervenientes envolvendo as administradoras do fundo, não representa reconhecimento de irregularidade por qualquer das partes.
A empresa reitera que atuou exclusivamente como locatária do imóvel: não participa da gestão do fundo, não define o valor de seus ativos e não possui qualquer vínculo com a consultoria responsável pela precificação dos ativos do fundo. À época da contratação, não havia investigação pública conhecida envolvendo a então administradora do fundo.
A RT-One iniciou o processo de seleção da nova área para o projeto, avaliando alternativas em Uberlândia e em outras localidades que atendam aos requisitos. A definição será oportunamente anunciada, e a companhia reafirma seu compromisso com a expansão de sua infraestrutura de data centers no Brasil.
A companhia destaca, ainda, que seus projetos seguem sendo conduzidos em conformidade com a legislação e os procedimentos regulatórios aplicáveis, e que mantém seus processos de avaliação de riscos e de contrapartes em todas as suas relações comerciais, permanecendo à disposição das autoridades competentes para quaisquer esclarecimentos.
A cobertura do Paranaíba Mais (Danilo Caixeta) reproduziu e contextualizou a nota; o Intercept, dias antes, havia documentado o elo cartorial e a valorização do terreno.
O que a empresa admitiu, ponto a ponto
| Trecho do comunicado oficial | O que significa na prática |
|---|---|
| Encerrou, de comum acordo com o FII Bacuri, as relações contratuais do terreno | Ruptura bilateral; o chão da fase 1 sai do projeto |
| Terreno “originalmente destinado” a um data center da RT-One | Confirma que aquele endereço era o sítio do anúncio |
| Decisão “diante dos fatos supervenientes envolvendo as administradoras do fundo” | A própria empresa liga a saída ao ruído sobre as gestoras |
| ”Não representa reconhecimento de irregularidade por qualquer das partes” | Nexo causal político/reputacional sem admissão jurídica de ilícito |
| Atuou “exclusivamente como locatária” | Não era dona do chão; alinha com o aluguel documentado no MPF/Intercept |
| Não participa da gestão do fundo; não define valor dos ativos; sem vínculo com a consultoria de precificação | Descola da avaliação de R$ 76 mi e da Horbia Partners |
| ”À época da contratação, não havia investigação pública conhecida envolvendo a então administradora” | Tenta isolar a due diligence de 2025 do escândalo posterior |
| Seleção de nova área: Uberlândia e outras localidades; definição “oportunamente anunciada” | Local indefinido; Uberlândia deixa de ser a única candidata |
| Compromisso com expansão de data centers no Brasil | Não é “projeto cancelado” no discurso oficial |
| Conformidade legal, avaliação de riscos e contrapartes; à disposição das autoridades | Linguagem de compliance de crise |
A frase-chave não é o lamento sobre “incertezas” da TV local. É o nexo que a empresa, pela primeira vez, assume em público: os fatos envolvendo as administradoras do fundo pesaram na ruptura.
O terreno que a prefeitura festejou
A área da fase 1 é a Fazenda Bom Jardim, na rodovia MGC-497, zona rural oeste — a mesma região dos bairros Pequis e Monte Hebrom. No cartório do 2º Ofício de Registro de Imóveis de Uberlândia, o dono do chão é o FII Bacuri, não a RT-One e não o município.
Em 9 de setembro de 2025, a prefeitura celebrou a “aquisição” do terreno com prefeito Paulo Sérgio (PP), vice Vanderley Pelizer, secretário Fabiano Alves e parceiros industriais. O discurso público falou em marco histórico. Os documentos posteriores falaram em locação e opção de compra.
Em dezembro de 2025, segundo o contrato que entrou no inquérito civil do MPF, a RT-One arrendou cerca de 96 hectares por R$ 1 mil por mês por 15 anos. Análise detalhada: Terreno Bacuri, Master e aluguel de R$ 1 mil.
Em 13 de julho de 2026, o Intercept Brasil mostrou a cadeia completa:
- Gestão do Bacuri: Reag Trust DTVM até ago/2025 → WNT Capital depois
- Ambas as gestoras no radar de investigações ligadas ao caso Banco Master / operações da PF
- Avaliação no balanço 2025: R$ 76 milhões (compra 2019: R$ 14 mi; escritura: R$ 1,78 mi)
- Bacuri ainda não citado nas investigações do Master até a data da matéria
Poucos dias depois, a RT-One formaliza a saída. O “progresso” da cerimônia de setembro vira histórico de contrato encerrado.
Locatária, R$ 1 mil e a precificação que “não é dela”
O comunicado oficial repete: a RT-One atuou “exclusivamente como locatária”. Isso casa com o contrato de locação de cerca de 96 hectares a R$ 1 mil por mês (15 anos, dez/2025) que entrou no inquérito do MPF e na reportagem do Intercept. Em respostas a questionamentos (reproduzidas pelo Paranaíba Mais), a empresa ainda disse que o aluguel tinha finalidade técnica/estudos e que havia opção de compra em renegociação desde abril — instrumentos que, com o “encerramento das relações contratuais”, saem da mesa junto com o chão.
Sobre a valorização da Fazenda Bom Jardim (R$ 14 mi em 2019 → R$ 76 mi no balanço 2025), o comunicado é cirúrgico: a empresa “não define o valor de seus ativos” e “não possui qualquer vínculo com a consultoria responsável pela precificação”. Em outras palavras, o salto do balanço existe; a responsabilidade, na versão da operadora, não é dela. O fundo e a precificação (Horbia Partners, segundo o Intercept) ficam com a conta narrativa da avaliação. A RT-One fica com a conta política de ter assinado no mesmo chão.
O parágrafo sobre “à época da contratação não havia investigação pública conhecida” é o escudo de due diligence. Cabe ao leitor cruzar com o calendário: o Bacuri passou da Reag Trust (liquidação BC) para a WNT; as gestoras entraram no radar do caso Master e da PF; a rescisão veio “diante dos fatos supervenientes”. O comunicado não detalha quais fatos. Só que pesaram.
O que a rescisão não é
Não é sentença criminal contra o Bacuri, a Reag, a WNT ou a RT-One. O próprio comunicado diz que a decisão “não representa reconhecimento de irregularidade por qualquer das partes”. Não é prova de que “Vorcaro é dono do data center” (regra editorial: Vorcaro = rede/Master; Bacuri = cartório; RT-One = operadora). Não encerra, sozinha, o inquérito civil do MPF sobre impactos ambientais: o procedimento já tinha o contrato de arrendamento nos autos, e trocar de sítio não apaga anúncio, água, energia e silêncio municipal. E não garante que Uberlândia “ganhou” ou “perdeu” o projeto.
Dizer “projeto cancelado” é impreciso. Dizer “local indefinido; seleção em Uberlândia e em outras localidades” é o que o comunicado admite.
O que isso muda para a cidade
1. A narrativa do marco municipal esfarela
A prefeitura vendeu o terreno da MGC-497 como certeza. Cemig, DMAE, coletiva na FIEMG, promessa de 2 mil empregos, subestação, isenção Redata — tudo orbitava um endereço que a própria operadora desautorizou.
2. Licenciamento e pareceres viram fase encerrada (daquele sítio)
Parecer de água do DMAE, viabilidade regional da Cemig e cronograma de obras de maio/2026 sem LP/LI/LO referiam-se ao desenho da fase 1. Qualquer novo sítio reabre — ou deveria reabrir — a pergunta regulatória do zero. Não há atalho honesto: trocar de terreno e manter o marketing do mesmo projeto é contabilidade política, não engenharia ambiental.
3. Transparência municipal continua em falta
Os termos do acordo com a prefeitura nunca foram publicados. Agora que o chão mudou, a pergunta dobra: o que a cidade assinou, com quem, e o que sobra se o data center for para Patos de Minas, Uberaba ou qualquer outro município?
4. O silêncio seletivo da grande imprensa
Enquanto o Intercept e o Paranaíba Mais documentavam fundo, Master e rescisão, o MG1/G1 tratou a saída como “incerteza” genérica — ligando para Fernando Palamone, que fez pouco caso da encrenca, deixou no ar Uberlândia ou outra cidade e se recusou a detalhar para “não gerar especulação imobiliária”. Sem Bacuri, sem WNT, sem opção de compra, sem Intercept. A crítica está em: MG1 lamenta a saída, liga pro CEO e esquece o Intercept.
O que ainda não sabemos
- Quais cidades de Minas estão na “nova seleção de áreas”
- Se há novo contrato assinado com outro fundo, empresa ou pessoa física
- Se a prefeitura de Uberlândia foi informada antes da nota pública
- O que acontece com promessas de emprego, água e energia se o sítio mudar
- Se o MPF amplia o recorte do inquérito para a nova hipótese locacional
- Se a WNT e o Bacuri publicarão versão própria da rescisão
Até lá, o status honesto do diretório RT-One Uberlândia é: investimento reafirmado no Brasil; chão da fase 1 fora; destino indefinido.
Cronologia mínima da ruptura
| Data | Evento |
|---|---|
| 08/07/2025 | Anúncio oficial em Uberlândia |
| 09/09/2025 | Cerimônia do terreno (Fazenda Bom Jardim / Bacuri) |
| Dez/2025 | Locação R$ 1 mil/mês + opção de compra (documentos no MPF / Intercept) |
| Abr/2026 | RT-One: opção de compra já em renegociação |
| 13/07/2026 | Intercept: terreno × Master / valorização / aluguel |
| Jul/2026 | Comunicado oficial RT-One: encerramento de comum acordo com o Bacuri; nova área em seleção |
Perguntas frequentes
A RT-One cancelou o data center?
Não na formulação da empresa. Cancelou a relação contratual com o terreno do Bacuri e abriu seleção de novas áreas. O investimento no Brasil foi reafirmado.
Uberlândia perdeu o projeto?
Ainda não é possível afirmar. A empresa diz que avalia alternativas na cidade e em outras localidades de Minas. Uberlândia não é mais a única candidata.
Por que a empresa saiu do Bacuri?
No comunicado oficial: decisão “tomada diante dos fatos supervenientes envolvendo as administradoras do fundo”, sem reconhecimento de irregularidade, de comum acordo com o Bacuri. O contexto público é a repercussão sobre Reag/WNT e o caso Master (Intercept).
A RT-One era dona do terreno?
Não, segundo o comunicado: atuou “exclusivamente como locatária”. Não participa da gestão do fundo nem da precificação dos ativos.
O aluguel de R$ 1 mil era real?
Sim, segundo o contrato de dezembro de 2025 no inquérito do MPF e a reportagem do Intercept. O comunicado oficial confirma o papel de locatária; detalhes do valor e da opção de compra vieram de documentos e de respostas a imprensa (Paranaíba Mais).
O prefeito / a Prefeitura se pronunciaram?
Sobre o terreno Bacuri e o Intercept, a Prefeitura se manifestou via Secom: competências só do Executivo; societário e evolução do empreendimento são privados; dúvidas com a RT-One. Análise do empurra: Prefeitura lava as mãos. Os termos do que a cidade acordou com a empresa, se existirem, continuam sem publicação.
E depois em julho?
Quando a rescisão já era conhecida, o prefeito concedeu entrevista à Jovem Pan Uberlândia. Ao ser perguntado sobre o projeto, respondeu:
“Divulgou uma nota falando que talvez deixaria Uberlândia… Nós temos três empresas que nós não podemos divulgar pra vim pra Uberlândia, não é só a RT one.”
Minimização evidente:
- “talvez deixaria” — quando o contrato já havia sido rescindido (jul/2026)
- “não é só a RT one” — mas nenhuma das “três secretas” se comprometeu publicamente
- “não podemos divulgar” — sem datas, sem nomes, sem confirmação
O prefeito transformou a rescisão (fracasso) em “oportunidade” (promessa vaga). Tática que vinha funcionando desde fevereiro: anunciar, não detalhar, deixar dúvida.
Leia também:
Fontes
- Comunicado oficial RT-One: Comunicado sobre o encerramento dos contratos referentes a terreno em Uberlândia (MG) (texto integral acima) — Data: jul/2026
- Paranaíba Mais — cobertura da rescisão (Danilo Caixeta)
- BNamericas — desiste de terreno / recomeça do zero
- Data Center Dynamics — encerra contrato de terreno
- Intercept Brasil — terreno ligado ao Master (13/07/2026) — investigação Bacuri/Master, não fonte de status pós-rescisão
- Site corporativo rt-one.com: pode estar desatualizado pós-jul/2026 — sempre cruzar com o comunicado
- Análise do blog: Bacuri, Master e aluguel de R$ 1 mil
- Linha do tempo completa
- Glossário Fundo Bacuri · MPF inquérito civil · Ficha do projeto