Data center gera empregos? O que os números revelam sobre Uberlândia
A promessa de 2 mil empregos permanentes virou um dos principais argumentos para defender a instalação do data center da RT-One em Uberlândia. A Prefeitura repetiu o número. A FIEMG repetiu. A imprensa local repetiu. Mas quando pesquisadores da UFU e dados internacionais entram na conversa, a conta não fecha.
Este artigo examina o que se sabe sobre geração de empregos em data centers, compara a promessa oficial com benchmarks do setor e levanta as perguntas que Uberlândia deveria fazer antes de aceitar o discurso de prosperidade automática.
O que a RT-One prometeu
Segundo comunicados oficiais da Prefeitura de Uberlândia, o projeto da RT-One deve gerar cerca de 2 mil empregos permanentes, entre diretos e indiretos, já nos primeiros três anos de operação, além de centenas de vagas temporárias na fase de construção.
O número foi replicado pela FIEMG, pelo G1 e por veículos locais como o Regionalzão. A narrativa é clara: o data center trará desenvolvimento econômico, diversificação produtiva e oportunidades para trabalhadores de Uberlândia.
Mas 2 mil empregos permanentes é um número verificável? Ou é uma projeção otimista sem base técnica?
O que a indústria mostra: 1 emprego por MW
O economista Lourenço Galvão Diniz Faria, consultor em transições energéticas e pesquisador associado a UFU, publicou uma análise crítica no portal Comunica UFU. Segundo Faria, a conta padrão do setor é simples:
“Em geral, a conta é de um funcionário permanente por megawatt (MW). O data center de Uberlândia terá capacidade energética contratada de 100 MW, o que resultaria em 100 funcionários permanentes.”
Se o benchmark de 1 emprego/MW se aplica, a promessa de 2 mil empregos permanentes está inflada em 20 vezes.
O Wall Street Journal publicou, em fevereiro de 2025, uma reportagem intitulada “The AI Data-Center Boom Is a Bust for Job Creation”. A conclusão: data centers de IA precisam de poucos trabalhadores em espaços muito grandes. A automação, o monitoramento remoto e a padronização de operações reduzem drasticamente a necessidade de mão de obra local.
Empregos diretos vs. indiretos: onde está a inflação
A promessa de 2 mil empregos inclui “diretos e indiretos”. Essa distinção é importante.
Empregos diretos são os funcionários contratados pela própria RT-One para operar o data center: engenheiros de sistemas, técnicos de manutenção, equipe de segurança, administração.
Empregos indiretos são estimativas de vagas que podem surgir em fornecedores, prestadores de serviço, comércio local e outras atividades econômicas estimuladas pelo empreendimento.
O problema é que empregos indiretos são cálculos projetados, não garantias contratuais. Dependem de metodologia, premissas e multiplicadores que podem variar enormemente. Se a RT-One usar um multiplicador agressivo, o número infla. Se os fornecedores vierem de fora de Uberlândia, o benefício local diminui.
A Prefeitura não divulgou a metodologia usada para chegar a 2 mil. Quantos são diretos? Quantos são indiretos? Qual multiplicador foi aplicado? Sem essas respostas, o número é opaco.
Empregos temporários: a fase de construção
Além dos empregos permanentes, a RT-One menciona centenas de vagas temporárias na fase de construção. Aqui, a questao e diferente.
Obras de grande porte geram empregos, isso é fato. Mas pesquisadores da UFU alertam que:
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A forca de trabalho especializada pode vir de fora. Se Uberlândia não tem mão de obra qualificada em construção de data centers, os empreiteiros trazem equipes de outras cidades.
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Empregos de obra são temporários por definição. Quando a construção termina, os trabalhadores ficam desempregados ou migram para outro canteiro.
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O impacto local depende de politicas de contratação. Sem clausulas que priorizem trabalhadores de Uberlândia, o benefício pode ser mínimo.
A Engemon, construtora contratada pela RT-One, não divulgou quantas vagas serão locais nem qual será o cronograma de contratações.
O que Uberlândia deveria cobrar
Se o argumento de geração de empregos é central para justificar o projeto, a cidade tem o direito de exigir transparência. As perguntas mínimas são:
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Quantos empregos diretos permanentes estão previstos? Número absoluto, não faixa.
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Qual é a metodologia de cálculo dos empregos indiretos? Multiplicador usado, premissas, fonte.
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Quantos empregos de construção serão preenchidos por moradores de Uberlândia? Meta ou compromisso formal.
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Quais cargos permanentes exigem qualificação específica? E onde esses profissionais serão recrutados.
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Haverá programa de capacitação local? Parceria com UFU, SENAI, escolas técnicas.
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Os números serão auditados periodicamente? Relatório público anual de empregos gerados.
Sem essas respostas, a promessa de 2 mil empregos é um número de marketing, não um compromisso verificável.
Comparação: outros data centers no mundo
O ceticismo sobre geração de empregos em data centers não é exclusividade de Uberlândia. Estudos internacionais mostram padrões semelhantes:
- Google, na Georgia (EUA): investimento de US$ 750 milhões, 100 empregos permanentes.
- Microsoft, na Irlanda: investimento de US$ 1 bilhão, 150 empregos permanentes.
- Meta, no Texas (EUA): investimento de US$ 800 milhões, 100 empregos permanentes.
A proporção é consistente: investimentos bilionários geram dezenas ou centenas de empregos permanentes, não milhares. A intensidade de capital é alta; a intensidade de trabalho é baixa.
Se a RT-One seguir o padrão, os 100 MW iniciais devem gerar algo entre 50 e 150 empregos permanentes diretos. Não 2 mil.
RT-One: promessa de 20-30 empregos por MW
Em entrevista ao Aos Fatos, a RT-One chegou a afirmar que seus data centers iriam empregar de 20 a 30 pessoas por megawatt. Se verdade, 100 MW gerariam entre 2.000 e 3.000 empregos diretos.
O problema: essa promessa supera em até 30 vezes a média observada internacionalmente. A própria reportagem do Aos Fatos destaca que o número “supera, e muito, a média observada desses empreendimentos”.
Nenhum data center no mundo opera com 20-30 funcionários por MW. A conta não fecha nem com otimismo extremo.
A mesma reportagem revelou que a RT-One foi processada pela Intel em 2024 por falsificar uma parceria com a multinacional. O CEO da empresa, Fernando Palamone, teria se apresentado como COO e vice-presidente da Intel — cargo que nunca ocupou, segundo a própria Intel confirmou ao Aos Fatos.
A RT-One tentou derrubar a reportagem do Aos Fatos na Justiça, mas não conseguiu. A matéria permanece no ar.
Esses fatos não invalidam automaticamente o projeto. Mas levantam uma pergunta óbvia: se a empresa inflou credenciais e parcerias, por que os números de emprego seriam diferentes?
O risco do discurso de prosperidade automática
Quando um projeto é vendido como sinônimo de progresso, o debate público enfraquece. A cidade aceita condições sem questionar porque acredita que os benefícios são garantidos.
O problema é que data centers são empreendimentos de alta intensidade de capital e baixa intensidade de trabalho. Eles consomem muita energia, muita água, muito espaço — e geram poucos empregos em relação ao tamanho.
Isso não significa que não devam existir. Significa que os benefícios prometidos precisam ser verificados, não apenas repetidos.
Uberlândia pode receber um data center e exigir transparência. Pode apoiar inovação e cobrar dados públicos. Pode comemorar investimento e questionar números inflados.
As duas coisas não são excludentes.
Conclusão: a conta precisa fechar
A promessa de 2 mil empregos permanentes é o principal argumento social do projeto da RT-One em Uberlândia. Mas quando confrontada com benchmarks do setor, pesquisas da UFU e reportagens internacionais, a conta não fecha.
O padrão da indústria aponta para 1 emprego permanente por MW. Com 100 MW iniciais, o esperado seria algo entre 50 e 150 empregos diretos. Não 2 mil.
Isso não invalida o projeto. Mas exige que Uberlândia cobre:
- Metodologia clara para os números divulgados.
- Distincao entre empregos diretos e indiretos.
- Compromissos formais de contratação local.
- Relatórios públicos periódicos.
Se o data center e bom para a cidade, seus números devem resistir ao escrutínio. Se não resistirem, a cidade precisa saber antes — não depois.
Perguntas frequentes sobre empregos em data centers
Data center gera muitos empregos?
Não necessariamente. Data centers são empreendimentos de alta intensidade de capital e baixa intensidade de trabalho. O padrão do setor é de aproximadamente 1 emprego permanente por megawatt de capacidade. Um data center de 100 MW tende a gerar entre 50 e 150 empregos diretos permanentes.
Quantos empregos a RT-One prometeu em Uberlândia?
A Prefeitura de Uberlândia divulgou que o projeto deve gerar cerca de 2 mil empregos permanentes, entre diretos e indiretos, nos primeiros três anos de operação. O número inclui também centenas de vagas temporárias na fase de construção.
Por que pesquisadores questionam o número de 2 mil empregos?
Segundo o economista Lourenço Galvão Diniz Faria, da UFU, o benchmark do setor é de 1 emprego por MW. Com 100 MW de capacidade inicial, o data center de Uberlândia geraria cerca de 100 empregos permanentes diretos, não 2 mil. O Wall Street Journal também publicou que o boom de data centers de IA é um “fracasso na criação de empregos”.
Qual a diferença entre empregos diretos e indiretos?
Empregos diretos são os funcionários contratados pela própria empresa para operar o data center. Empregos indiretos são estimativas de vagas que podem surgir em fornecedores, comércio local e outras atividades econômicas. Empregos indiretos dependem de metodologia e multiplicadores que nem sempre são transparentes.
Empregos de construção são permanentes?
Não. Empregos de construção são temporários e duram apenas durante a fase de obras. Além disso, parte da mão de obra especializada pode vir de outras cidades se não houver trabalhadores qualificados localmente.
O que Uberlândia deveria cobrar da RT-One?
A cidade deveria exigir: número exato de empregos diretos permanentes, metodologia de cálculo dos empregos indiretos, compromisso de contratação local, programas de capacitação e relatórios públicos periódicos para verificar os números prometidos.