R$ 6 bilhões que não vira desenvolvimento
O número é grande o bastante para impressionar. R$ 6 bilhões de investimento anunciados para o data center RT-One em Uberlândia. Manchetes. Fotos de assinatura de contrato. Promessas de transformação econômica.
Mas há uma questão que nenhum prefeito quer responder: dos R$ 6 bilhões, quanto fica em Uberlândia?
A aula de matemática que não vira aula pública
Economistas que estudam data centers no Brasil têm números pouco entusiastas. A infraestrutura — prédios, terreno, instalações físicas — representa 35% a 45% do investimento total. O resto, 55% a 65%, vai para ativos de TI: servidores, roteadores, switches, equipamentos importados.
Tradução: de cada R$ 6 bilhões anunciados, entre R$ 2,1 e R$ 2,7 bilhões é infraestrutura (potencialmente local). Os outros R$ 3,3 a 3,9 bilhões são tecnologia com cadeia global de suprimentos — China, EUA, Europa.
Uberlândia não fabrica servidores. Uberlândia não monta roteadores. Uberlândia não vende cabos de rede internacionais.
Então mais da metade do “grande investimento” já sai do estado, muito menos da cidade.
Os empregos que chegam e depois saem
Na construção, sim, há empregos. Centenas deles, por 18-24 meses. Pedreiros, eletricistas, engenheiros de obra.
Aí a construção termina. Metade desses profissionais vai embora. A outra metade fica desempregada.
Depois, na operação, ficam 50-200 postos permanentes. Técnicos especializados em data center — muitos trazidos de fora. Operadores de rede. Engenheiros de infraestrutura. Especialidade que não existe na cidade, que não será ensinada na universidade local, que vai sair quando o operador encerra.
Quem realmente se beneficia? Construtoras (ganho na obra), operadores estrangeiros (ganho na operação), multinacionais que alugam o espaço (lucro em outro país), Cemig (venda de energia), bancos que financiam (juros).
Uberlândia recebe: empregos temporários e imposto sobre lucro multinacional.
O que fica, de verdade
| Origem | Fica em Uberlândia | Sai de Uberlandia |
|---|---|---|
| Construção | Aluguel, comida de operários | Lucro da construtora |
| Salários operação | ~R$ 20-30M/ano | Lucro líquido da RT-One (maior) |
| Impostos | Parcial (sem LP, em limbo) | Lucro repatriado |
| Água consumida | Sai diariamente (239k litros) | — |
| Energia consumida | Alimenta data center | Lucro Cemig |
| Espaço territorial | Ocupado por 30-50 anos | Sem desenvolvimento |
| Impacto ambiental | Fica permanente | Responsabilidade diluída |
Quando “investimento” é transferência de riqueza
Um economista citado por Nexo Jornal resumiu: “O impacto real sobre geração de emprego é limitado. Os complexos consomem recursos e ocupam espaço, com retorno positivo para sociedade sendo muito limitado. Beneficiários reais são proprietários, construtoras e empresas de energia. Não a população local.”
Essa é a verdade que os números de R$ 6 bilhões escondem.
A prefeitura “facilita um acordo entre partes privadas” (nas palavras do próprio prefeito). A empresa vem, investe, constrói, coloca máquinas, gera lucro. Uberlândia fica com:
- Consumo de água permanente
- Pressão na rede elétrica
- Impacto ambiental cumulativo
- Poucos impostos (REDATA oferece isenção de 5 anos)
- Nenhuma contrapartida documentada
- Desenvolvimento que não se vê
A comparação que documenta a ilusão
Um data center de 100 MW gera R$ 1,5 bilhão em PIB (segundo números otimistas do setor). Só que esse PIB não é produção local — é receita centralizada no proprietário do data center, que está fora da cidade. O multiplicador econômico (quanto cada real gera de circulação local) é baixíssimo.
Compare com uma fábrica de eletrônicos, que compra de fornecedores locais, paga salários para operários locais, usa insumos da região. Multiplicador alto.
Um data center é caixa preta: dinheiro entra, lucro sai. Pouco circula localmente.
A água como medida real de troca
Se R$ 6 bilhões é “investimento” em Uberlândia, a água é o que Uberlândia investe no data center.
239 mil litros por dia. 8,7 bilhões de litros por ano. 30 anos de operação = 261 bilhões de litros.
Quanto “investimento hídrico” Uberlândia está colocando na mesa para os R$ 6 bilhões que a empresa coloca? Nenhum, porque água não é insumo que vem de contrato — é bem natural que foi apropriado sem compensação.
Tradução mais clara: Uberlândia investe água grátis. Empresa investe dinheiro com isenção fiscal. E quando alguém pergunta onde fica o desenvolvimento, a resposta é: em outro lugar.
O milagre que não acontece
Em julho, Brazil Economy publicou que Brasil “disputa investimentos em data centers em meio a desafios estruturais”. O paradoxo é perfeito: quanto mais investimento, mais pressionam estruturas já frágeis (água, energia, regulação ambiental).
É como dizer: “Vamos virar polo de data centers enquanto desafiamos nossas estruturas com mais demanda.”
E Uberlândia está no meio dessa “oportunidade”, emprestando água grátis, cedendo espaço, absorvendo impacto, recebendo promessas de desenvolvimento que não chegam.
Quando o “grande investimento” é ilusão de ótica
R$ 6 bilhões é número grande. Impressiona. Vende bem no Facebook do prefeito.
Mas economicamente, é transferência: parte sai em ativos importados, parte fica com operadores estrangeiros, parte vai para bancos em forma de juros, parte desaparece em isenção fiscal.
Uberlândia? Recebe migas de empregos, paga com água que não conseguirá recuperar.
O “grande investimento” é desenvolvimento para empresa, não para cidade.
Fonte: Brazil Economy — Brasil disputa investimentos em data centers em meio a desafios estruturais; Nexo Jornal — Os riscos do plano de expansão de data centers no Brasil
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