Uma deputada no STF. Um prefeito em silêncio.
A deputada federal Dandara publicou no Facebook que entrou no Supremo Tribunal Federal para pedir investigação rigorosa sobre a relação entre o terreno supervalorizado onde será instalado o data center em Uberlândia e o escândalo do BolsoMaster. A mensagem é direta: a imagem e o futuro da cidade não podem ficar manchados pelo que ela chama de maior escândalo do mercado financeiro da história recente.
Dois dias antes, o Intercept Brasil documentava o chão do projeto no Fundo Bacuri, gestoras no radar do Master e um arrendamento de R$ 1 mil por mês. Enquanto Brasília acende o farol, a prefeitura de Uberlândia — que não respondeu ao Intercept — continua apagada.
”Terreno supervalorizado” não é opinião de rede social
Dandara fala em terreno supervalorizado e em estratégia parecida com a que Daniel Vorcaro usava para valorizar carteiras e vender papéis. A precaução editorial deste blog é outra: não fundir Vorcaro, Bacuri e RT-One numa só frase de meme.
O que está documentado — e detalhado em Terreno Bacuri × RT-One × Master e em Daniel Vorcaro e o data center — é o mapa institucional:
| Peça | Fato documentado |
|---|---|
| Dono do terreno | FII Bacuri (cartório de Uberlândia) |
| Gestão | Reag Trust até ago/2025; WNT Capital desde então |
| Compra (2019) | R$ 14 milhões |
| Escritura fiscal | R$ 1,78 milhão |
| Balanço 2025 | R$ 76 milhões — auditores sem laudos “apropriados e suficientes” |
| Arrendamento à RT-One | R$ 1 mil/mês, 15 anos (dez/2025) |
| Bacuri citado no Master | Não, até 13/07/2026 |
O elo é terreno → fundo → gestoras sob investigação. Não é escritura em nome de Vorcaro. Ainda assim, a pergunta que Dandara leva ao STF é legítima: por que o maior anúncio da cidade assenta sobre números que não se conversam e sobre administradoras no radar do BC e da PF?
”Imagem falsa de saúde financeira” — o que o papel diz
No vídeo, a deputada afirma que a mesma lógica de valorização artificial de carteiras agora serve para supervalorizar o terreno e fabricar saúde financeira de empresas ligadas ao Master.
O Intercept não condena o terreno como peça do esquema. Documenta a mesma personagem de precificação (Horbia Partners), a omissão de laudos perante a auditoria e a irracionalidade do aluguel: quase 1 km² por R$ 1 mil mensais — cerca de 0,7% ao ano sobre o valor da escritura, e uma fração irrisória se o balanço de R$ 76 milhões for o parâmetro.
Especialistas citados na reportagem falam em retorno que “passa longe” do mínimo esperado de um fundo imobiliário e em hipótese de simulação de negócio. Isso não é sentença. É o tipo de contraste que, em Brasília, vira pedido de investigação — e, em Uberlândia, ainda não vira nota da prefeitura.
Sem regulamentação: água, energia, ruído e calor
Dandara fecha o diagnóstico com o vazio normativo: tudo avança sem regulamentação nacional que proteja água, energia e impactos de ruído e calor sobre a população. Aqui o mandato federal encontra o que o blog já mapeia mesmo sem o Master:
- Água: 239 mil litros por dia aprovados pelo DMAE — com parecer sob crítica.
- Energia: subestação dedicada da Cemig de R$ 160 milhões; carga anunciada de 100 MW, com expansão para 400 MW.
- Calor e vizinhança: risco de ilha de calor junto a Pequis e Monte Hebrom.
- Licença: projeto sem EIA/RIMA, em limbo municipal/estadual; MPF com inquérito civil desde set/2025 — e o contrato Bacuri×RT-One nos autos.
O “papel do mandato” que a deputada invoca — fiscalizar e defender o povo — contrasta com o papel que o Executivo municipal escolheu: anunciar o projeto em BH e sumir do Facebook, da audiência pública e das perguntas da imprensa.
Quem fiscaliza de fato e quem posa de transparente
Enquanto Dandara fala em STF, o prefeito Paulo Sérgio (PP) coleciona omissões documentadas:
- Celebra Selo Diamante de transparência no dia seguinte ao anúncio do data center — sem uma linha sobre o projeto.
- Falta à audiência pública de março de 2026; a prefeitura não manda ninguém.
- Posa em Lisboa e ignora o campus de R$ 6 bi em casa.
- Contratos, isenções via Redata e contrapartidas nunca publicados.
| Ato | Dandara | Prefeitura de Uberlândia |
|---|---|---|
| Pedido de apuração do terreno × Master | STF | Silêncio |
| Resposta ao Intercept | Não é a interlocutora | Sem resposta |
| Debate público local | Pressão federal | Ausência na audiência |
| Transparência de contratos | Cobra fiscalização | Portas fechadas |
Fiscalizar o povo é discurso fácil. Fiscalizar o chão onde o data center quer nascer exige cartório, balanço e, agora, petição no STF.
A cidade não pode ficar só com a legenda
Dandara tem razão em uma coisa que o blog repete desde o anúncio: a verdade sobre o projeto não cabe no PowerPoint da FIEMG nem no silêncio do gabinete. Tem fundo, tem gestora, tem aluguel de café e tem R$ 6 bilhões de narrativa.
Tem também o que ainda não está provado: que o Bacuri seja peça citada do Master, que Vorcaro seja dono do data center, que o aluguel sozinho prove o esquema. Investigação existe para isso. Marketing de “investimento histórico”, não.
Se a imagem da cidade não pode ficar manchada, o primeiro passo é parar de limpar a sujeira com o pano da omissão.
Fonte: Facebook — Dandara (vídeo)
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