Selo Diamante em Uberlândia: 97,1% de transparência. Menos o data center.
Uberlândia tem Selo Diamante de transparência (97,1% no PNTP, ciclo 2025 — Prefeitura / Atricon) — e o data center RT-One fica de fora do discurso e dos dados públicos.
Em 24/02/2026 o prefeito Paulo Sérgio (PP) celebrou no Facebook o troféu pelo segundo ano: maior índice entre prefeituras de Minas. No dia anterior, 23/02, ele participara em BH da coletiva com FIEMG, Cemig e RT-One que anunciou o projeto de R$ 6 bilhões. A coletiva não entrou no post do Diamante. Nem no dia 23. Nem no dia 24.
O que o Selo Diamante (PNTP) mede — e o que o RT-One omite
O Selo Diamante vem do Programa Nacional de Transparência Pública (PNTP), coordenado pela Atricon com os Tribunais de Contas. Na prática, a nota alta — acima de 95% — premia o portal que publica, de forma pesquisável, o que a matriz exige: relação e inteiro teor de contratos e aditivos, obras com status e cronograma, despesas, licitações e canais de participação.
Ninguém discute aqui o 97,1% do checklist administrativo. O problema é outro: o maior projeto anunciado na cidade — o RT-One — não entra nessa narrativa. O selo mede o portal. O data center exige outro tipo de conta: EIA/RIMA, outorga, termos com a empresa, status Redata. Isso não aparece no troféu. (O mecanismo LAI + sigilo comercial / NDA é o fio do artigo sobre processo e confidentiality; aqui o contraste é nota PNTP × ausência no portal.)
Se aplicarmos os critérios que o PNTP valoriza ao que a cidade divulgou sobre o RT-One, o resultado seria outro:
| Critério do selo (PNTP) | Aplicado ao data center |
|---|---|
| Dados sobre obras | Sem EIA/RIMA, sem cronograma público detalhado |
| Contratos abertos (íntegra / aditivos) | Termos do acordo com a RT-One nunca foram publicados |
| Despesas / renúncias | Isenção fiscal via Redata sem valores municipais divulgados |
| Participação / acesso à informação | Audiência pública sem a presença do Executivo |
Daria 0%. Ou menos, se possível. O Diamante celebra o formulário. O RT-One testa se transparência inclui o que realmente muda a cidade.
RT-One fora do Portal da Transparência
Entre 23 de fevereiro (anúncio do data center) e hoje, o Facebook do prefeito ignorou o projeto RT-One. No Portal da Transparência, o padrão se repete: o que o Diamante premia como “aberto” não inclui o dossiê do empreendimento. Continua sem publicação clara de:
- Como a subestação de R$ 160 milhões da Cemig será custeada e por quem.
- O consumo de 239 mil litros de água por dia — e o conflito, na ALMG, com documentos que apontam até 1,7 milhão L/dia — frente à outorga ainda não pedida no IGAM.
- Por que o projeto avança sem licença ambiental e sem EIA/RIMA.
- Quantos empregos permanentes serão gerados e para quem.
- Quais contrapartidas foram exigidas em troca da isenção fiscal de 5 anos.
Enquanto isso, no feed: selfies em Portugal, lançamento de programa de empreendedorismo, obras de creche — e helicóptero no TikTok, data center fora do discurso. O padrão de liderança em IA invisível é o mesmo: troféu no feed, RT-One fora da conversa. Tudo muito transparente. Só o data center que não.
”Confiar para crescer”: investimento sem preço público
A frase está no post do Selo Diamante. O prefeito argumenta que uma cidade transparente atrai mais investimentos.
O problema é que o maior investimento já anunciado em Uberlândia chegou sem transparência. A cidade atraiu R$ 6 bilhões. Mas ninguém sabe — e quem paga a conta ainda não viu a fatura completa:
- Quanto desse valor é dinheiro que deixa de entrar nos cofres públicos via isenção fiscal.
- Qual o custo real da infraestrutura que a Cemig vai bancar — e repassar à tarifa.
- Qual o impacto ambiental de um complexo de 1 milhão de metros quadrados na zona rural do Pequis.
Atrair investimento é bom. Atrair sem saber o preço é aposta. E aposta com dinheiro público, sem divulgar as regras, não combina com Selo Diamante.
A pergunta que o post não responde
O prefeito encerra o post do Selo Diamante com um convite: “Quer conferir de perto? É só pesquisar ‘Portal da Transparência Uberlândia’.”
Fica a sugestão de busca complementar: “RT-One contrato Prefeitura Uberlândia”.
Se encontrar, avise. O prefeito provavelmente também está procurando.
Atualização (jul/2026): 97,1% ainda sem data center no portal
Em julho de 2026, cinco meses depois do Selo Diamante, o prefeito concedeu entrevista à Jovem Pan Uberlândia. Nela:
- Continuou minimizando consumo de água (“menos de 400 casas”)
- Continuou promessa vaga (“água abundante de qualidade”)
- Revelou ter “três empresas que não podem divulgar”
- Chamou críticos de “esquerdista radical”
- Evitou mencionar que a RT-One havia rescindido o contrato com o fundo Bacuri
O Selo Diamante (97,1% de transparência) abrangia fevereiro de 2026. Se fosse atualizado hoje com a base “Quantos dados públicos existem sobre o data center?”, a resposta permaneceria: nenhum contrato, nenhuma isenção detalhada, nenhuma resposta sobre “três empresas secretas”.
A transparência que o prefeito celebra segue não incluindo a maior decisão de sua gestão.
Perguntas frequentes
O que é o Selo Diamante de transparência em Uberlândia?
É a faixa mais alta do Programa Nacional de Transparência Pública (PNTP), da Atricon com Tribunais de Contas. Uberlândia divulgou 97,1% — nota que premia portal pesquisável (contratos, obras, despesas, participação), não o dossiê de um empreendimento específico.
O data center RT-One aparece no Portal da Transparência?
Não de forma clara. Contratos com a empresa, EIA/RIMA, outorga e valores da isenção Redata não foram publicados no padrão que o Diamante celebra no checklist administrativo.
O Selo Diamante cobre o anúncio do RT-One?
Não. O selo mede o portal; o anúncio do data center (23/02/2026) ficou fora do post de celebração (24/02) e fora da narrativa de “transparência de verdade”.
Fonte: Facebook — Paulo Sérgio | Prefeitura — Selo Diamante / 97,1% PNTP | Atricon — instituições mineiras certificadas no PNTP 2025
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