A Fazenda Bom Jardim reúne três narrativas
Uma ocupação no domingo (30 de agosto) na MGC-497 reuniu mais de 500 famílias na Fazenda Bom Jardim, terreno de 96,76 hectares que integra o patrimônio do Fundo de Investimento Imobiliário Bacuri. O Movimento Terra, Trabalho e Liberdade (MTL) acampou ali; a Polícia Militar cercou a área; o governador Mateus Simões compareceu. E o prefeito Paulo Sérgio Ferreira? Defendeu o direito à propriedade privada. O curioso é que a propriedade em questão está longe de ser simples. E suas prioridades, também.
”Terra privada”, diz Paulo Sérgio — mas qual a história do dono?
O prefeito afirmou que “a terra não é deles” e acionou a PM. Legítimo. O problema é que a “propriedade privada” que Paulo Sérgio defende tem dono com histórico controvertido.
A Fazenda Bom Jardim faz parte do patrimônio do Fundo Bacuri, administrado pela WNT Capital. O fundo comprou o terreno por R$ 14 milhões em 2019. No final de 2025, o mesmo terreno valia aproximadamente R$ 76 milhões nas demonstrações financeiras — uma valorização de mais de 400% em seis anos.
O relatório de auditoria do fundo apontava ausência de laudos que justificassem a reavaliação e matrículas desatualizadas. Isso impediu verificação independente dos números. A precificação ficou sob responsabilidade da Horbia Partners Consultoria, também citada em investigações da CVM contra outras entidades ligadas à Reag Trust (então gestora do Bacuri).
Qual a ironia? Paulo Sérgio defendeu a propriedade, mas nunca questionou a suspeita de fraude financeira que envolve o mesmo terreno — tópico coberto pela matéria do Intercept de 13 de julho, que ligava a valorização ao anúncio do data center RT-One. Quando o escândalo veio à tona, a Prefeitura encolheu o ombro: “questões societárias devem ser dirimidas com a RT-One”.

“Produtivo”, declara o prefeito — mas o que exatamente produzia?
Paulo Sérgio negou que a Fazenda Bom Jardim fosse improdutiva. E tinha razão — o terreno era produtivo. Só não em agricultura. Entre 2019 e 2025, o imóvel produziu suspeita, especulação e, aparentemente, uma reavaliação de ativo que nenhum laudo independente pôde verificar.
A data center RT-One pretendia arrendar 96 hectares do terreno por apenas R$ 1 mil mensais — um aluguel tecnicamente chamado de “técnico” pela empresa, o que significa: valor nominal, sem refletir realidade de mercado. Quando a situação do Bacuri eclodiu em julho, a RT-One rescindiu os contratos. A empresa comunicou estar “selecionando nova área em Uberlândia e outras localidades”.
Naquele domingo, o terreno estava ocupado. A “produtividade” que Paulo Sérgio mencionou pode estar em campos de capim de cobertura, conforme o governador Mateus Simões observou na visitação. Mas a verdadeira “produção” — aquela que moveu polícia, bloqueou rodovia e fez prefeito defender a propriedade — foi sempre a especulação imobiliária vinculada ao projeto do data center. Remova o data center de cena. O que justifica a prioridade?

“Movimento político”, acusa Paulo Sérgio — como se famílias INCRA fossem ficção
O prefeito classificou a ocupação como “movimento político ligado ao período eleitoral”. Uma forma elegante de desqualificar o protesto. Mas o MTL informou que 301 das famílias presentes possuem cadastro no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) em Minas Gerais. Há documentação de elegibilidade; não é ficção.
Parte do grupo veio do Acampamento MTL Bob Vive, no Assentamento Dom José Mauro. Os demais são de comunidades e bairros de Uberlândia. O MTL pediu permanência até assentamento definitivo, cadastramento dos ocupantes, vistoria imediata das propriedades e identificação de outras áreas para assentamento.

Em contraste, Paulo Sérgio citou programas habitacionais municipais — Cheque Moradia, regularização fundiária — como se a ocupação fosse ignorância de quem não conhece políticas públicas. Não é. Regularização fundiária municipal trata lotes urbanos; assentamento rural, com 301 famílias INCRA-cadastradas, é competência federal. O prefeito confundiu escopo.
O irônico é que Paulo Sérgio nunca se mobilizou com a mesma urgência quando o data center estava em pauta. Faltou à audiência pública de março de 2026 na Câmara. Celebrou “transparência” em fevereiro mas nada mencionou sobre o maior projeto anunciado da cidade. Viajou a Portugal em maio, reunindo-se com a Câmara de Lisboa, enquanto Uberlândia aguardava definições sobre licenças ambientais e contrapartidas do empreendimento.
Prioridades nítidas
A ocupação de domingo revelou hierarquia clara. Quando 301 famílias INCRA-cadastradas ocupam um terreno para reforma agrária, o aparato é acionado: polícia, bloqueio de rodovia, presença de governador e prefeito. Quando o mesmo terreno está sob suspeita de fraude financeira e integra patrimônio de fundo investigado pela CVM, o prefeito empurra a questão para a esfera privada.
Quando um data center promete R$ 6 bilhões de investimento e 2 mil empregos, o prefeito anuncia em fevereiro mas falta à audiência pública em março. Quando contratos suspeitos emergem em julho, diz que não compete ao município analisar “composição societária”.
Defender propriedade privada é legítimo. Mas Paulo Sérgio defendeu uma propriedade cujos donos — administração Bacuri, gestora WNT — não têm transparência, cuja valorização não tem justificativa, e que deixou de receber o data center justamente pelo histórico do fundo.
As 301 famílias têm cadastro INCRA e sabem o que querem. Paulo Sérgio, não explicou qual era a prioridade dele.
Atualização (1º de setembro): despejo sem ordem judicial vira tema de campanha
Menos de 48 horas após a ocupação, o Batalhão de Choque da Polícia Militar retirou as famílias da Fazenda Bom Jardim na terça-feira (1º de setembro), dando um ultimato de 20 minutos para a saída. Segundo o MTL, a ação ocorreu sem mandado judicial; advogados presentes classificaram o episódio como grave violação de direitos humanos.
O caso extrapolou Uberlândia e virou tema da campanha ao governo de Minas Gerais. Os pré-candidatos Alexandre Kalil e Patrus Ananias criticaram a condução de Mateus Simões — Ananias afirmou que o governador “falhou em prevenir o conflito e agora quer trocar a Justiça pelo espetáculo” —, enquanto o PL cobrou “ordem” na retirada. A deputada estadual Bella Gonçalves, a mesma que convocou a audiência pública da ALMG sobre o data center RT-One meses antes, protocolou representação contra Simões por suposto uso eleitoral da operação policial.
Paulo Sérgio, que classificou a ocupação como “movimento político”, não se pronunciou publicamente sobre a ausência de ordem judicial no despejo nem sobre a disputa eleitoral que o caso passou a alimentar.
Fonte: Paranaíba Mais — Ocupação na MGC-497 mobiliza polícia e governo em Uberlândia, 30 de agosto de 2026. Atualização: Brasil de Fato — PM despeja famílias de ocupação de terreno ligado ao caso Master em MG e Metropoles — Ocupação de fazenda em Uberlândia vira tema da campanha e PL cobra Simões, 1º de setembro de 2026.
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