R$ 76 milhões no balanço. R$ 1 mil no aluguel.
Em 13 de julho de 2026, o Intercept Brasil publicou que o terreno do data center da RT-One em Uberlândia está no nome do Fundo de Investimento Imobiliário Bacuri — administrado por gestoras investigadas no caso do Banco Master — e que a área, avaliada em R$ 76 milhões nas demonstrações do fundo, foi arrendada à RT-One por R$ 1 mil por mês.
Projeto anunciado a R$ 6 bilhões. Terreno de quase 1 km². Retorno anual do arrendamento: cerca de 0,7% sobre o valor fiscal da escritura — e menos de 0,02% se o balanço de R$ 76 milhões for o parâmetro. Para um fundo imobiliário, o contraste não é detalhe. É o centro da operação.
Quem é dono do chão onde o data center “nasce”
Segundo a certidão no 2º Ofício de Registro de Imóveis de Uberlândia, a área de cerca de 960 mil m² (96 hectares) pertence ao fundo Bacuri. Dados da CVM apontam a WNT Capital (São Paulo) como administradora atual. Até agosto de 2025, a administradora era a Reag Trust Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A. (Reag Trust DTVM).
O contrato de arrendamento, assinado em dezembro de 2025 entre RT-One e Bacuri, está no inquérito civil do MPF que apura medidas ambientais do poder público em relação ao empreendimento — procedimento iniciado em setembro de 2025.
Na narrativa oficial, o data center é “investimento em IA”. No cartório e no inquérito, o chão tem dono, gestor e preço. E o preço muda de acordo com o documento.
Três números, um terreno
| Fonte | Valor atribuído |
|---|---|
| Escritura (fins fiscais) | R$ 1,78 milhão |
| Compra em 2019 (notas do fundo) | R$ 14 milhões |
| Avaliação no balanço 2025 (WNT) | R$ 76 milhões |
| Arrendamento à RT-One | R$ 1 mil/mês por 15 anos |
A valorização de R$ 14 milhões para R$ 76 milhões não veio acompanhada, no documento analisado pelos auditores, de laudos que sustentassem o salto. O relatório de auditores independentes afirma que a WNT não forneceu os laudos de avaliação, o que impediu evidências “apropriadas e suficientes” de que os resultados do Bacuri estivessem “livres de distorções materiais”.
A WNT atribui a precificação à Horbia Partners Consultoria — a mesma empresa que, segundo o Intercept, precificou para a Reag títulos do extinto Besc em episódio que já colocava Reag e WNT sob o radar da CVM, antes do escândalo Master ganhar escala nacional.
A suspeita que se repete, nas investigações descritas na reportagem, é de reavaliação artificial de ativos: o ativo sobe no papel; o fundo infla o patrimônio; o ciclo fecha em cadeias de investimentos e CDBs. Sobre o terreno de Uberlândia, o Intercept não conclui crime. Documenta a mesma personagem de avaliação, a mesma omissão de laudos e a mesma lógica de números que não se conversam.
R$ 1 mil por mês para quase 1 km²
O arrendamento: R$ 1 mil mensais, prazo de 15 anos, área de 96 hectares. Remuneração de R$ 12 mil ao ano.
Sobre R$ 1,78 milhão da escritura, isso dá cerca de 0,7% ao ano. O IFIX — índice de fundos imobiliários na B3 — entregou no ano passado rendimento médio na casa de 1% ao mês. Em outras palavras: o que o Bacuri aceita em um ano com o “maior data center de IA” da região é inferior ao que o mercado de FIIs costuma entregar em um único mês.
Comparação local, também do Intercept: um terreno de 20 mil m² — quase cinquenta vezes menor — anunciado em Uberlândia por R$ 50 mil por mês.
O advogado Stefano Ribeiro Ferri, especializado em direito imobiliário, resumiu o absurdo com frieza técnica: retorno muito baixo para um fundo cuja função é gerar renda ou valorização aos cotistas. O professor Paulo Carnaúba (Insper), especialista em fraudes financeiras, foi além: um arrendamento só faz sentido se cobrir, no mínimo, o retorno sobre o investimento do fundo — o que o contrato com a RT-One “passa longe” de fazer. A discrepância, disse, sugere “simulação para ocultar outro negócio”.
Isso não é acusação deste blog. É a leitura de especialistas citados na investigação, diante de números públicos do fundo e do contrato.
O fundo, o cotista invisível e as 90 parcelas
Até dezembro de 2025, o portfólio do Bacuri se resumia ao terreno do data center e a um galpão, também em Uberlândia. O único cotista era outro fundo de investimento não identificado. O Bacuri, porém, estava em vias de adquirir 28 outros imóveis, com a primeira de 90 parcelas já paga em janeiro do ano anterior.
Ferri observa: poucos imóveis ou compra parcelada não são, por si sós, ilegais. O ponto sensível é a racionalidade econômica — capacidade financeira, política de investimento, avaliação dos ativos, transparência com cotistas e ausência de conflito de interesses. “A estrutura não é ilegal por si só, mas é incomum o suficiente para exigir escrutínio documental e regulatório mais rigoroso.”
O professor Carnaúba lembra um buraco regulatório: até outubro do ano passado, administradores de fundos como WNT e Reag não tinham obrigação de informar ao Banco Central quem eram os cotistas. “A partir do momento que a banda podre do mercado sabe que não há fiscalização e que a autoridade de fiscalização não está preocupada, ela implanta uma [fraude] atrás da outra. Foi o que aconteceu com o Master.”
Enquanto o fundo reavalia o chão a R$ 76 milhões e aluga a R$ 1 mil, a prefeitura de Uberlândia segue sem publicar termos do acordo com a RT-One. O cidadão paga a conta da narrativa de “investimento histórico”. O extrato do aluguel cabe em um café.
Ligação com o Master — e o que o Bacuri ainda não é
O Intercept separa com cuidado o que está documentado sobre as gestoras e o que ainda não atinge o fundo do terreno:
| Peça | O que a reportagem registra |
|---|---|
| Reag Trust DTVM | Administradora do Bacuri até ago/2025; liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em janeiro passado |
| Reag Investimentos (guarda-chuva Reag Holding) | Alvo, em ago/2025, de megaoperação do MP-SP contra fraudes bilionárias no setor de combustíveis com envolvimento do PCC |
| Caso Master | Investigações recentes apontam que a Reag Trust teria estruturado e administrado fundos suspeitos de movimentação atípica, inflar resultados e ocultar riscos, com indícios de fraude e lavagem; na avaliação do BC, gestora e fundos ligados a ela foram usados para desviar valores do Master |
| Bacuri no Master | Até a publicação da reportagem, o Bacuri não havia sido citado nessas investigações |
| WNT Capital | Atual administradora do Bacuri; alvo da PF na 2ª fase da operação Compliance Zero (organização criminosa, fraude em instituição financeira, manipulação do mercado de capitais e lavagem de dinheiro) |
Fiscalização falha do Banco Central e da CVM, segundo Carnaúba, abriu a porta para fundos virarem ferramenta de esquema. Isso não prova que o terreno de Uberlândia seja o elo do Master. Prova que o chão do data center passou — e ainda passa — por administradoras no centro de investigações bilionárias.
Daniel Vorcaro, Master e o data center: o que liga (e o que não liga)
Buscas e posts em redes sociais colam o nome de Daniel Vorcaro — controlador do Banco Master, preso no escândalo — ao data center de Uberlândia. A pergunta é legítima. A resposta precisa ser precisa.
O que a reportagem do Intercept liga:
- O terreno do projeto RT-One está no FII Bacuri.
- O Bacuri foi administrado pela Reag Trust e depois pela WNT Capital.
- Reag Trust e WNT figuram em investigações ligadas ao caso Master e a operações da PF (incluindo Compliance Zero, no caso da WNT).
- A mesma lógica de reavaliação de ativos e o papel da Horbia Partners reaparecem em outros ativos sob suspeita no ecossistema das gestoras.
O que a reportagem não afirma:
- Que Vorcaro seja proprietário do terreno ou da RT-One.
- Que o Bacuri conste, até 13/07/2026, como fundo citado nas peças do Master.
- Que o aluguel de R$ 1 mil prove, sozinho, o esquema do banco.
Em resumo: o elo documentado é terreno → fundo Bacuri → gestoras no radar do Master. Não é “Vorcaro comprou o data center”. Quem quiser o mapa completo da rede — com o que se pode e o que não se pode concluir — leia o artigo dedicado: Daniel Vorcaro, Master e o data center em Uberlândia.
RT-One: quem aluga o terreno “de R$ 6 bilhões”
A locatária não é uma operadora com décadas de campus em operação. A RT-One anunciou data centers em Uberlândia e Maringá só no ano passado. A Core-One — ligada ao CEO e à gestão dos projetos no país — está registrada no endereço de um consultório odontológico em São Paulo, segundo o Intercept.
O CEO Fernando Palamone já foi desmentido pela Intel e, de acordo com a reportagem do Aos Fatos, a multinacional processa o executivo e a RT-One por se apresentarem como parceiros sem vínculo real.
Resumo da cadeia que o Intercept amarra:
- Terreno em fundo que passou por Reag Trust e WNT — ambas no radar de operações da PF
- Avaliação sem laudos suficientes para a auditoria
- Consultoria de precificação recorrente em ativos sob suspeita
- Arrendamento irrisório a empresa sem histórico operacional comprovado
- Projeto de R$ 6 bi sem licença ambiental e com inquérito no MPF
Cada peça sozinha já seria ruído. Empilhadas, formam o padrão que este site documenta desde o anúncio: promessa bilionária, documentação opaca, custo social e ambiental na conta da cidade.
O que disseram — e o que silenciaram
O Intercept ouviu as partes. O resultado cabe em duas colunas: nota genérica e silêncio.
WNT Capital
Procurada, a WNT afirmou que a operação com o terreno “não teve continuidade”. Declarou ainda que não é gestora do fundo investigado pela CVM desde 2020, que acompanha os desdobramentos do caso e que “não possui qualquer relação com a Reag”.
Ou seja: a atual administradora do Bacuri, segundo a CVM, se distancia da Reag e da operação — enquanto o contrato de arrendamento de dezembro de 2025 e os números do balanço 2025 seguem no centro da reportagem.
RT-One
Questionada sobre o aluguel e as investigações sobre as gestoras do Bacuri, a RT-One respondeu que a iniciativa “envolve estruturas contratuais privadas, compostas por diferentes instrumentos jurídicos e operacionais, conforme é usual em projetos de infraestrutura e empreendimentos imobiliários de grande porte”.
A empresa disse que “não comenta detalhes de contratos privados” nem “quaisquer informações protegidas por obrigações de confidencialidade entre as partes”, e que “todas as suas operações seguem rigorosamente os instrumentos legais aplicáveis e os procedimentos regulatórios pertinentes”.
Sobre a reportagem do Aos Fatos, a RT-One alegou “alegações incorretas” e afirmou ter adotado as “medidas cabíveis”.
Tradução prática para Uberlândia: R$ 6 bilhões no anúncio público; R$ 1 mil no aluguel; zero detalhe contratual na resposta.
Quem não respondeu
Reag, Horbia Partners e a prefeitura de Uberlândia não responderam aos questionamentos do Intercept. O espaço, diz a reportagem, segue aberto.
O que o fundo pediu à prefeitura
Como proprietário, o Bacuri solicitou estudos técnicos para implantação do data center. Secretarias e o DMAE analisaram rede de energia, iluminação e demais condicionantes urbanas. Ou seja: o poder público municipal já tramita o empreendimento a partir de pedidos do fundo — não de um debate público transparente sobre água, energia e contrapartidas.
O MPF olha as medidas ambientais. O Intercept olhou o cartório, o balanço e o aluguel. A prefeitura, procurada sobre o tema, não respondeu. Uberlândia, até agora, olhou sobretudo o PowerPoint.
O que a reportagem não fecha — e o que a cidade não pode fechar sozinha
Investigação jornalística não é sentença. O Intercept descreve indícios, omissões de laudo, conexões societárias e pareceres de especialistas — e registra, com clareza, que o Bacuri não havia sido citado nas investigações do Master até a publicação. Cabem à CVM, à Polícia Federal, ao Ministério Público e, no que for ambiental e urbanístico, ao MPF e aos órgãos de licenciamento.
O que não cabe é tratar o anúncio de R$ 6 bilhões como fato consumado enquanto:
- o terreno sobe de R$ 14 mi para R$ 76 mi sem laudo na auditoria;
- o aluguel de quase 1 km² custa menos que um aluguel de sala comercial de bairro;
- a WNT diz que a operação “não teve continuidade” e a RT-One se esconde atrás de “contratos privados”;
- a operadora do projeto carrega o histórico Intel;
- Reag, Horbia e prefeitura não respondem;
- contratos e isenções com o município permanecem fora do portal.
Fechamento
Data center de inteligência artificial. Fundo imobiliário. Reag liquidada pelo BC. WNT na Compliance Zero. Consultoria de títulos podres. Auditoria sem laudo. Aluguel de R$ 1 mil. Prefeitura em silêncio.
Se isso for o “maior investimento da história de Uberlândia”, a cidade precisa do extrato completo — não só do anúncio em BH e da nota de “estruturas contratuais privadas”.
Perguntas frequentes
O terreno do data center RT-One tem ligação com o Banco Master?
Sim, de forma indireta e documentada pelo Intercept: o terreno está no FII Bacuri, administrado por gestoras (Reag Trust e depois WNT Capital) investigadas no escândalo Master / operações da PF. Até 13/07/2026, o próprio Bacuri não havia sido citado nas investigações do Master.
Daniel Vorcaro é dono do data center de Uberlândia?
Não há essa afirmação na reportagem do Intercept. Vorcaro controlava o Banco Master. O elo com Uberlândia passa pelas gestoras do fundo dono do terreno, não por escritura em nome de Vorcaro. Detalhes: mapa da rede Vorcaro × DC.
Quanto a RT-One paga de aluguel pelo terreno?
R$ 1 mil por mês, por 15 anos, sobre cerca de 96 hectares, segundo contrato de dezembro de 2025 que consta do inquérito civil do MPF (reportagem Intercept).
Por que o terreno vale R$ 76 milhões no balanço e R$ 1,78 milhão na escritura?
São fontes diferentes: valor fiscal na certidão vs. avaliação no balanço 2025 do Bacuri (compra 2019 a R$ 14 mi). Auditores independentes disseram que a WNT não forneceu laudos suficientes para sustentar a avaliação.
Quem é o FII Bacuri?
Fundo de investimento imobiliário dono do terreno do projeto em Uberlândia. Ver glossário Fundo Bacuri.
A prefeitura de Uberlândia se pronunciou?
Procurada pelo Intercept, a prefeitura não respondeu. Reag e Horbia Partners também não.
Fonte principal: Preço de terreno ligado ao Master supervaloriza após anúncio de data center em Minas Gerais — The Intercept Brasil (13/07/2026)
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