Prefeitura anunciou R$ 6 bi — depois empurrou Bacuri à “esfera privada”
A Prefeitura de Uberlândia anunciou o data center RT-One (R$ 6 bi) e, após o Intercept (13/07/2026) sobre o fundo Bacuri, a Secom empurrou contratos e composição societária para a "esfera privada" — dúvidas com a RT-One. Em 2025, palco com Paulo Sérgio e Fernando Palamone, "aquisição" de ~1 milhão m² na MGC-497 e 2 mil empregos. Em fev/2026, nota de “projeto avançando” nas etapas municipais. Em jul/2026, pós-Intercept, a Secom limita o Município às competências do Executivo e manda o cidadão à empresa. Anunciou o milagre; o extrato, privatizou.
Fontes: Intercept 13/07/2026 · Prefeitura — projeto avança (23/02/2026) · Secom (manifestação pós-Intercept, jul/2026) · Atualizado: 12/08/2026
Linha do tempo Secom / “esfera privada”
| Data | Ato | Framing |
|---|---|---|
| 2025 | Anúncio oficial RT-One (R$ 6 bi, 2 mil empregos, “aquisição” ~1 mi m²) | Projeto da cidade / vitrine |
| 23/02/2026 | Nota Prefeitura: etapas municipais “avançando”; Semad ainda necessária | Status sob competências do Executivo |
| 13/07/2026 | Intercept: Bacuri, aluguel R$ 1 mil, gestoras Master | Pressão pública / cartório |
| jul/2026 | Secom: composição societária e evolução = esfera privada; dúvidas → RT-One | Empurra extrato à empresa |
| jul/2026 | RT-One rescinde Bacuri; local indefinido | Hub rescisão |
A frase da Secom: “esfera privada”, dúvidas com a RT-One
Depois dos questionamentos motivados pelo Intercept, o Executivo de Uberlândia afirmou que não tem competência para analisar a composição societária do empreendimento nem a evolução dele no âmbito privado.
A Secom ainda disse que o status do projeto “em relação às competências exclusivas do Poder Executivo municipal” já tinha sido divulgado, e apontou uma nota de fevereiro de 2026. Naquele texto, o Município contava que o projeto avançava nas etapas municipais e que a RT-One ainda precisaria de licenças estaduais, entre elas a ambiental na Semad, por ser área rural.
Sobre contratos e estrutura privada, a frase que define o jogo:
“composições societárias e a evolução do empreendimento estão na esfera privada, não são de competência e responsabilidade do Município analisar e, portanto, quaisquer dúvidas relacionadas neste sentido devem ser dirimidas diretamente com a empresa.”
Isso não é silêncio puro. É silêncio com assessoria. Pior: o Município que vendeu o data center como projeto da cidade pede que o cidadão cobre a empresa.
Palco, Intercept, toalha: o cidadão no meio
Primeiro o palco. Quem apresenta o data center no Centro Administrativo? A Prefeitura. Quem fala em 2 mil empregos e R$ 6 bilhões? A Prefeitura. Quem transforma “aquisição” de 1 milhão de m² em conquista da gestão? A Prefeitura de novo. O ritual já está catalogado: declarações do prefeito, selo diamante e omissão, audiência sem ninguém do Executivo.
Depois o Intercept. O cartório mostra o FII Bacuri. Reag Trust, depois WNT Capital. Arrendamento de R$ 1 mil/mês (REPORTED Intercept). Avaliação de R$ 76 milhões no balanço 2025 (REPORTED Intercept / fundo — auditores sem laudos “apropriados e suficientes”). Compra 2019 R$ 14 mi; escritura fiscal R$ 1,78 mi (REPORTED). Inquérito civil do MPF desde setembro de 2025 sobre medidas ambientais do poder público. Documento, não fofoca de LinkedIn.
Por fim a toalha. A Prefeitura: “não é nossa competência.” Manda para a RT-One. A RT-One já tinha dito ao Intercept que não comenta contratos privados. Depois rescindiu o terreno com o Bacuri e abriu seleção em “outras localidades”.
Cidadão no meio. Prefeitura empurra. Empresa fecha a porta. Extrato? Não tem.
Competência para anunciar, “não é nossa” para prestar conta
O truque é estreitar a palavra “competência” até caber num link de fevereiro.
Licença ambiental estadual é da Semad. O Município não administra o FII Bacuri. Ninguém pediu que a Secom fizesse due diligence da CVM. Isso ninguém discute.
O que se pediu é outra coisa. Se a Prefeitura anuncia o empreendimento, celebra o terreno, repete 2 mil empregos e trata o data center como marco da gestão, ela tem responsabilidade política de responder quando o chão que festejou vira reportagem nacional sobre fundo, aluguel irrisório e gestoras sob investigação.
“Não analisamos composição societária” não apaga o resto. O MPF investiga medidas ambientais do poder público em relação ao data center: o Executivo municipal está no radar do inquérito, não num camarote. O DMAE, braço municipal, emitiu parecer de 2,77 L/s de água.
Em fevereiro a própria Prefeitura disse que o projeto “avançava” nas etapas municipais. E os termos do que a cidade acordou com a RT-One, se acordou algo formal, nunca foram publicados.
Competência seletiva: serve para o holofote de 2025. Some quando o holofote vira farol de cartório.
Anunciaram “aquisição”; cartório e MPF mostraram aluguel de R$ 1 mil
Em 2025 a administração falou em aquisição de área superior a 1 milhão de m² na região Oeste. Em 2026 o Intercept e o MPF mostram arrendamento de 96 hectares a R$ 1 mil por mês. A RT-One, no comunicado de rescisão, insiste que atuou “exclusivamente como locatária”.
Ou a Prefeitura anunciou errado, ou anunciou o que a assessoria da empresa queria ouvir. Nos dois casos, “pergunte à RT-One” é saída de emergência depois do acidente, não doutrina jurídica.
Quem sobe no palco com o CEO assume o risco político do que o CEO esconde. Não dá para ficar só com a foto e devolver a conta na Secom.
Em 23 de fevereiro de 2026 a Prefeitura publicou que o data center avançava nas etapas municipais e que faltavam licenças estaduais. Dias depois, coletiva com FIEMG e Cemig, prefeito minimizando água (“menos que 300 casas”).
Em julho a RT-One encerra o contrato com o Bacuri e abre seleção de área em Uberlândia ou em outras localidades. A Prefeitura, pressionada pelo Intercept, responde com o link de fevereiro e o empurra para a empresa.
O status “já divulgado” descreve um projeto num terreno que a operadora, no papel, não usa mais. A Secom aponta o arquivo morto. A cidade pergunta onde está o R$ 6 bi. Silêncio com URL.
MPF trata medidas ambientais; Secom privatiza a pergunta
O inquérito civil de setembro de 2025 não trata de fofoca societária. Trata de medidas ambientais do poder público em relação ao data center: água, energia, licenciamento, omissão, precaução.
Quando a Prefeitura diz que a evolução do empreendimento é privada e que dúvidas vão para a RT-One, tenta privatizar até o que o MPF abriu como questão pública. O Município pode não gerir o FII Bacuri. Não pode fingir que o data center era um evento de shopping em que alguém alugou o salão e depois cancelou.
Enquanto o inquérito corre, “não é nossa competência” soa menos a Direito Administrativo e mais a assessoria de crise.
| Quem | O que faz |
|---|---|
| Prefeitura (2025) | Anuncia, celebra, vende emprego e “aquisição” |
| Prefeitura (2026, pós-Intercept) | “Esfera privada. Perguntem à RT-One.” |
| RT-One (ao Intercept) | “Contratos privados. Não comentamos.” |
| RT-One (comunicado) | Rescinde o Bacuri; local indefinido |
| Cidadão | Foto do Centro Administrativo e zero extrato |
O prefeito coleciona post de transparência — e Diamante que esconde o data center — e some quando o tema é o maior anúncio da gestão. A resposta de agora encaixa: falar alto na entrada, sussurrar na saída e, quando a pergunta fica feia, apontar para a empresa.
MG1 também omitiu o lava-mãos da Prefeitura
Enquanto a Secom empurrava a bola para a RT-One, o telejornal local da Rede Globo fazia o que sabe fazer com essa pauta: sumir do ângulo que incomoda.
O MG1 achou tempo para ligar a Palamone, lamentar a “incerteza” e repetir 2 mil empregos. Não achou tempo para dizer que a Prefeitura de Uberlândia — a mesma que subiu no palco com o CEO em 2025 — agora manda o cidadão perguntar à RT-One.
A emissora que sorriu no anúncio e lamentou a rescisão sem citar Intercept completa o ciclo: omite também o recuo do Município. Prefeitura lava as mãos. Globo lava as mãos de noticiar o lava-mãos. O espectador fica com o drama do investimento “que pode não sair” e com zero notícia sobre quem se recusa a prestar conta do anúncio que fez.
Quando o poder público de Uberlândia se esconde atrás da “competência exclusiva” e a maior rede do país finge que isso não é notícia, o empurra deixa de ser só administrativo. Vira consenso de vitrine.
Depois do anúncio: o que ainda é dever municipal
A Secom estreita “competência” até caber só o que não dói. Há outro teste, mais simples: quem vendeu o sonho ainda responde pelo risco político do que anunciou?
| Quem vendeu o sonho (2025) | Quem ficou com o risco (2026) |
|---|---|
| Prefeitura no Centro Administrativo | Cidadão sem extrato |
| R$ 6 bi + 2 mil empregos na vitrine | RT-One: “perguntem à empresa” / contratos privados |
| ”Aquisição” de 1 mi m² | Cartório/MPF: aluguel R$ 1 mil; depois rescisão Bacuri |
| Status “avançando” (fev/2026) | Local indefinido; “outras localidades” no comunicado |
Critério residual — o que a Prefeitura de Uberlândia ainda deve prestar conta, mesmo sem gerir o FII Bacuri / RT-One:
- O que assinou, prometeu ou protocolou com a RT-One (termos, prazos, contrapartidas locais).
- Correção do anúncio de “aquisição” frente ao arrendamento e à rescisão Bacuri.
- Status real das etapas municipais depois que a MGC-497 saiu do plano da operadora.
- Se Uberlândia ainda disputa o projeto ou virou candidata entre outras — sem fumaça de “já divulgado” de fevereiro.
- Medidas ambientais do poder público que o MPF já trata como questão pública — água (DMAE), zoneamento, omissão.
Não precisava inventar due diligence de CVM. Bastava esse mínimo. Enquanto isso não acontece: competência para anunciar, incompetência para prestar conta.
Perguntas frequentes
Por que a Prefeitura empurra Bacuri para a RT-One?
Após o Intercept (13/07/2026), a Secom (jul/2026) disse que societário e evolução privada não são competência do Município e mandou dúvidas à RT-One — quem anunciou o R$ 6 bi (2025) e “avançando” (23/02/2026) lava as mãos no extrato.
O que é o fundo Bacuri?
FII dono registral do terreno da fase 1 na MGC-497, arrendado à RT-One (~R$ 1 mil/mês). Em jul/2026 os contratos foram encerrados de comum acordo.
Anunciar R$ 6 bi cria dever de transparência?
Cívicamente, sim: água (DMAE), zoneamento e audiência seguem na esfera pública. “Esfera privada” não apaga o anúncio de 2025 nem o MPF.
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Fontes
- Manifestação da Prefeitura de Uberlândia / Secom (após questionamentos motivados pelo Intercept): atuação limitada às competências do Executivo; composição societária e evolução do empreendimento na esfera privada; dúvidas à RT-One; remissão à divulgação de fevereiro de 2026 sobre etapas municipais e licenças estaduais (Semad)
- Facebook — Paulo Sérgio (contraste com posts de transparência / anúncio)
- Intercept Brasil — terreno ligado ao Master (13/07/2026)
- Prefeitura — projeto avança (23/02/2026)
- Comunicado oficial RT-One de rescisão com o Bacuri (jul/2026) — análise