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G1 data center Uberlândia: omite Intercept e Bacuri

MG1 cobre o data center em Uberlândia, omite Intercept e Bacuri, liga para Palamone e repete 2 mil empregos sem o empurra da Prefeitura.

13 min read opiniao g1 imprensa rt-one uberlandia fundo-bacuri intercept fernando-palamone transparencia

G1/MG1 cobriu o Intercept e a rescisão Bacuri?

Não. A cobertura do **G1 data center Uberlândia** no [MG1](https://g1.globo.com/mg/triangulo-mineiro/mg1-uberlandia/video/projeto-de-data-center-de-ia-em-uberlandia-enfrenta-incertezas-14785477.ghtml) abriu com *"Projeto de data center de IA em Uberlândia enfrenta incertezas"* — lamento de investidor, tutorial de "condomínio de computadores" e telefone para o CEO. Não citou o [Intercept Brasil (13/07/2026)](https://www.intercept.com.br/2026/07/13/terreno-ligado-master-supervaloriza-anuncio-data-center-minas-gerais/), nem [FII Bacuri](/glossario/fundo-bacuri), nem aluguel de R$ 1 mil, nem Master.

O fato documentado é rescisão, não “incerteza”: a RT-One encerrou de comum acordo com o Bacuri os contratos da Fazenda Bom Jardim e admitiu seleção de nova área em Uberlândia ou em outras localidades (comunicado / Paranaíba). A emissora local da Rede Globo tinha Intercept e rescisão na mesa; preferiu a palavra-esponja “incertezas” e, como fonte principal, o próprio Fernando Palamone.

Isso não é cobertura incompleta. É assessoria de progressismo imobiliário com microfone de telejornal. O sorriso de 2025 e o silêncio sobre a ALMG é outro ângulo; este texto trata do lag G1/MG1 frente ao Intercept e à rescisão Bacuri.


O que o G1/MG1 publicou × o que o Intercept documentou

PautaG1/MG1 (vídeo 2026)Intercept + documentos públicos
TomLamento / “incertezas”Investigação de terreno e fundo
TerrenoDesistência sem dono do chãoFII Bacuri, Fazenda Bom Jardim
ContratoFora do arLocação R$ 1 mil/mês + opção de compra
GestorasForaReag Trust → WNT Capital
MasterForaRadar das gestoras no caso Master
Fonte principalTelefone com PalamoneCartório, balanço, respostas oficiais
EmpregosRepete “2 mil”Não é o centro da apuração

A polaridade emocional mudou em relação ao anúncio sorridente de 2025. A estrutura de omissão, não.

Enquanto o MG1 lamentava “incertezas”, a imprensa setorial — Data Center Dynamics e BNamericas — tratou a rescisão do terreno e o recomeço do projeto. O Intercept documentou Bacuri, Reag, WNT e Master. A televisão local do Triângulo ficou no telefone com o CEO. Quem queria o furo lia fora do G1.


Ligaram para Palamone. Ele fez pouco caso

A “apuração” do MG1 não partiu da documentação do terreno nem da reportagem que colocou a pauta em escala nacional. Partiu de ligar para o CEO.

Palamone trata o caso com a leveza de quem devolve uma ligação chata: pouco caso com Intercept, fundo, gestoras e Master. O que sobra é o óbvio que a empresa já tinha dito — não sabe se arruma outro terreno em Uberlândia ou se o projeto vai para outra cidade — e evita detalhar para “não dar margem a especulação imobiliária”.

O homem que anunciou R$ 6 bilhões e “maior data center da América Latina” na MGC-497 invoca especulação imobiliária para não responder. A TV local aceita o freio de mão como ética profissional. Não é: é o escudo mais barato do manual de crise. O Intercept já mostrou a valorização da área no balanço do Bacuri; a emissora repassa a incerteza como previsão do tempo.

Cabia perguntar: por que a rescisão cita “fatos supervenientes” das administradoras; se o aluguel de R$ 1 mil e a opção de compra existiram; o que ele responde ao Intercept sobre Reag, WNT e Master; se o desmentido da Intel em 2024 pesa na credibilidade; e se “especulação” impede dizer se há seleção de área em Uberlândia. Nenhuma dessas perguntas aparece com dente. O CEO dita o limite; a entrevistadora cumpre.

O vídeo encaixa no molde clássico: pergunta o que o assessorado quer ouvir, traduz evasiva em “incerteza do projeto”, deixa o CEO no ar com “não sei se fico ou se vou” e engole o “não comento”. Isso não é entrevista — é nota em voz alta. Rede Globo. Microfone aberto. Zero adversidade.


O que o vídeo não citou

Uma reportagem séria sobre a “desistência” do terreno responderia, no mínimo: de quem era o chão (FII Bacuri); quem administrava o fundo (Reag Trust e depois WNT Capital); por que a RT-One diz que saiu; qual era o contrato (locação de R$ 1 mil/mês e opção de compra); o que o Intercept publicou dias antes; e o que o MPF investiga no inquérito civil ambiental.

O MG1 não citou o Intercept. Não citou Bacuri, Reag, WNT, Master, aluguel de R$ 1 mil, opção de compra nem a frase da própria empresa sobre as administradoras.

Omitir o Intercept numa pauta que só ganhou escala nacional por causa do Intercept não é economia de tempo. É apagamento editorial. A rescisão sem o contexto do fundo vira melodrama de investimento frustrado. Com o contexto, vira notícia. A Globo escolheu o melodrama.


”Condomínio de computadores”, WhatsApp e PIX

No vídeo, a apresentadora define data center no tom de quem explica o sol para uma plateia que ela subestima: algo como um “condomínio de computadores” que faria os dados do WhatsApp ou do PIX saírem do país e voltarem. Com o data center “novo” em Uberlândia, isso não ocorreria mais.

Data center de hiperescala de IA não é o prédio que “faz o seu PIX chegar mais rápido em Uberlândia”. É infraestrutura de treinamento e inferência de modelos, armazenamento massivo e carga de centenas de megawatts (no anúncio local, 100 a 400 MW). Comparar isso a “condomínio de PCs do WhatsApp” é misturar CDN e roteamento de aplicativo com campus de IA. O público sai achando que entendeu. Sai pior informado do que entrou.

A promessa de que “os dados não saem mais do país” também não segura. Tráfego de mensagens e pagamentos já usa infraestrutura distribuída, pontos de troca de tráfego, redes de operadoras e data centers que já existem no Brasil. Sugerir que a ausência do campus da RT-One na MGC-497 era o motivo de o WhatsApp “ir e voltar do exterior” é conto de fadas. Mesmo com um data center de IA em Uberlândia, roteamento internacional, backups e nuvens estrangeiras não desaparecem porque a prefeitura fez coletiva. A frase serve a um propósito: colocar o vizinho a favor do empreendimento como se estivesse defendendo o próprio PIX.

Explicar mal e, no mesmo fôlego, defender o tipo de empreendimento é o combo clássico da TV de província a serviço do anúncio oficial. Simplifica até virar slogan. Emocionaliza até virar luto. Esconde o conflito até virar “incerteza”. Não é serviço público. É enquadramento a favor do capital anunciado.


Lamentar sem perguntar por quê

O fio emocional do vídeo é o lamento: o investimento milionário de há um ano “dá sinais de que pode não sair do papel no local previsto”; a empresa “aponta dúvidas”.

Dúvidas? A nota da RT-One encerra contratos. No telefone com Palamone, o “apontar dúvidas” vira performance: pouco caso da encrenca investigativa e o cliffhanger de Uberlândia versus outra cidade, com a desculpa da especulação imobiliária.

Ao lamentar a saída sem explicar a teia Bacuri/Reag/WNT/Master, a reportagem inverte o jornalismo de interesse público. A empresa vira vítima de “incertezas”. A cidade vira perdedora de um milagre. O fundo e as gestoras sob investigação viram não-pessoas. A entrevistadora vira megafone do limite que o CEO impôs.

O espectador é empurrado a torcer pela volta do projeto no enquadramento de 2025, sem as razões que a própria operadora citou para sair do terreno: razões que Palamone não quis desenvolver no fone e que a emissora não cobrou.

Lamentar sem investigar é solidariedade seletiva com o capital. Quem mora em Pequis, quem paga conta de luz, quem depende do DMAE, quem acompanhou a audiência pública sem prefeito e sem CEO, esses não receberam o mesmo tom de luto.


Dois mil empregos, de novo

O vídeo relembra o caso com o mesmo pacote da matéria de 9 de julho de 2025 no G1: aporte bilionário, empresa “americana”, até 2 mil empregos.

Este blog já desmontou o número em Data center gera empregos? e em Quantos empregos a RT-One gera de verdade?.

Operação de hiperescala não emprega 2 mil moradores no permanente. Emprega dezenas a poucas centenas de vagas técnicas; a euforia sobra em construção temporária e “indiretos” elásticos. O prefeito repete. A FIEMG repete. A Globo repete a repetição, como se o intervalo de um ano e a rescisão do terreno fossem pretexto para relançar o press release, não para checá-lo.

Repetir falácia depois que o chão do projeto já saiu do contrato não é atualização. É teimosia editorial.


O mesmo roteiro de 2025 a 2026

ElementoG1/Globo 2025MG1/G1 2026 (vídeo)
TomSorriso, progressoLamento, incerteza
Empregos2 mil, sem checagem2 mil, sem checagem
O que é data centerCaixa infantil de dicionárioCondomínio + WhatsApp/PIX
Licença ambientalFora do centroFora do centro
MPF / Aos Fatos / IntelForaFora
Terreno / fundo / MasterForaFora (mesmo depois do Intercept)
Prefeitura lava as mãosForaFora de novo
Interesse do morador”Vai gerar emprego""Que pena se não vier”

Em 2025 a Globo ignorou o que cabia perguntar na ALMG. Em 2026 ignora o que já foi publicado por Intercept e Paranaíba Mais. Piorar o silêncio quando a pauta ficou mais fácil de apurar é escolha.


A Prefeitura empurrou. A Globo fingiu que não viu

Depois do Intercept, a Prefeitura de Uberlândia se manifestou — não para explicar o aluguel de R$ 1 mil nem corrigir o anúncio de “aquisição”, e sim para lavar as mãos.

A Secom disse, em essência, que o Município só age nas competências do Executivo; que composição societária e evolução do empreendimento são esfera privada; e que dúvidas devem ser dirimidas com a RT-One. Análise: Prefeitura lava as mãos e manda perguntar à empresa. Quem anunciou o milagre se recusa a prestar conta do cartório; o prefeito que subiu no palco com Palamone em 2025 aponta o telefone da empresa.

O MG1 não comentou — zero linhas, nem um “procuramos a Prefeitura”. Preferiu o luto do investidor e o tutorial de WhatsApp. Roteiro da emissora: liga para o CEO, engole “especulação imobiliária”, explica condomínio de computadores, repete 2 mil empregos. No mesmo ciclo, a Prefeitura diz que societário não é com ela. A Globo trata as duas pontas como se não se tocassem.

O espectador fica com “a empresa está indecisa” e “a cidade pode perder o progresso”. O empurra oficial some; o lamento fica. Não é falta de tempo: o mesmo microfone que alcança Palamone alcança a Secom. Em 2025, sorriso no anúncio; em 2026, lamento na rescisão — nos dois casos, zero furo sobre o Município quando a fala oficial é “não é comigo”.


Colocar a população a favor

O viés não está só no que se omite. Está no lugar de fala que a matéria oferece ao público.

Ao enquadrar o data center como infraestrutura do seu WhatsApp e do seu PIX, a reportagem identifica o espectador com o empreendimento. Quem questiona água, energia, licença, gerador a diesel ou fundo Bacuri passa a parecer, no subtexto, alguém contra a modernidade digital da própria vida.

Não entram pesquisadores da UFU. Não entram moradores de Chácaras Douradinho e do entorno da MGC-497. Não entra o que foi dito na audiência da Câmara ou na comissão da ALMG. Não entra o desmentido da Intel sobre o CEO.

Entra a cidade como torcida do R$ 6 bilhões e a saída do terreno como derrota coletiva, sem explicar o placar.

Jornalismo enviesado não precisa gritar “viva a RT-One”. Basta escolher a dor errada e o silêncio certo.


O que cabia em 90 segundos

A RT-One rescindiu contratos com o FII Bacuri. A empresa cita fatos envolvendo as administradoras do fundo; o Intercept ligou Reag e WNT a investigações do caso Master. Havia locação de R$ 1 mil/mês e opção de compra; ambas encerradas. Palamone, no telefone, não detalha o novo sítio (alega “especulação imobiliária”) e deixa no ar Uberlândia ou outra cidade. A Prefeitura, depois do Intercept, diz que composição societária é privada e manda dúvidas para a RT-One. O que importa para a cidade — sem briga de camisa — está em Master, terreno e o que cobrar em Uberlândia. Os “2 mil empregos” são promessa disputada. Licença ambiental continua inexistente; o MPF mantém inquérito civil sobre medidas do poder público.

Nada disso exige tese. Exige ler o que já está público, não confundir entrevista com assessoria e não ter medo de estragar o luto do investidor nem o marketing da Prefeitura.

A Rede Globo tem correspondente, gravador, edição, marca e audiência. O que faltou não foi recurso. Foi coragem de contrariar o roteiro de 2025, de tratar Palamone como entrevistado e de tratar a Prefeitura como responsável, não como cenário.


Não foi “um vídeo infeliz”

Isolar o MG1 como “equipe local sem contexto” é generosidade excessiva. O G1 data center Uberlândia e a emissora afiliada operam sob a marca Globo: o mesmo selo que, em 2025, vendeu 2 mil empregos e carbono zero com sorriso e, em 2026, vende incerteza com lamento.

Quando a maior plataforma de telejornalismo do país omite reportagem investigativa nacional, repete número de assessoria sem checagem, ensina errado o objeto da notícia, empurra o público a favor do empreendimento e ainda engole o empurra da Prefeitura sem um segundo de ar, ela não “erra o tom”. Ela define o senso comum local. E o senso comum local passa a achar que criticar o data center é criticar o próprio PIX, e que a Prefeitura só existe no anúncio.

É por isso que este blog existe. Não para competir com a audiência da Globo. Para corrigir o que a Globo deixa de fora.


Perguntas frequentes

O G1/MG1 citou o Intercept na cobertura do data center em Uberlândia?

Não. O vídeo do MG1 sobre “incertezas” do projeto não menciona a reportagem do Intercept Brasil de 13/07/2026 nem os elos Bacuri / Reag / WNT / Master.

A RT-One ainda usa o terreno do Bacuri?

Não. Em jul/2026 a empresa encerrou, de comum acordo, os contratos com o FII Bacuri e passou a selecionar nova área — em Uberlândia ou em outras localidades.

A Prefeitura comentou o caso Bacuri no telejornal?

Não no vídeo do MG1 analisado aqui. Depois do Intercept, a Secom disse que societário e evolução privada do empreendimento não são com o Município e mandou dúvidas à RT-One — o telejornal local não tratou esse empurra.


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Fontes

Publicado por:

E

Equipe Data Center Uberlândia

Monitoramento Ambiental e Socioeconômico

Blog independente que documenta os impactos ambientais e socioeconômicos de data centers em Uberlândia (MG).