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Globo data center Uberlândia: sorri e ignora a ALMG

Apresentador da Globo sorri ao anunciar data center da RT-One em Uberlândia. O mesmo veículo ignorou a audiência da ALMG em 02/07/2026.

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A Globo noticiou a audiência da ALMG sobre o data center?

Não. Em 09/07/2025 a cobertura **Globo data center Uberlândia** sorriu ao anunciar o campus da RT-One (aporte bilionário, "empresa americana", 2 mil empregos). Em 02/07/2026 a Comissão de Meio Ambiente da ALMG debateu licença, água e energia do mesmo projeto — empresa e prefeitura ausentes — e a Globo **não** noticiou a comissão ([cobertura da audiência](/blog/almg-comissao-meio-ambiente-data-center-julio-2026)).

O sorriso funcionou em 2025; em 2026 a câmera se desligou. (Lag G1/MG1 frente ao Intercept/Bacuri: texto separado.)


O que a ALMG debateu e a Globo não levou ao ar

Na audiência de 02/07/2026, a Comissão de Meio Ambiente da ALMG — coberta pelo próprio site da Assembleia, Diário de Uberlândia, O Tempo e Panorama — tratou licenciamento, água, pressão energética e vácuo regulatório do campus de IA. Bella Gonçalves e demais parlamentares ouviram pesquisadores e moradores; o secretário estadual sugeriu grupo de trabalho na Semad. Empresa e Executivo municipal não compareceram. O IGAM, na mesma pauta, apontou ausência de outorga (síntese no blog).

A rede que celebrara “2 mil empregos” e “carbono zero” no G1/Integração não mandou repórter, câmera nem nota de acompanhamento. Progresso com sorriso rende manchete; licenciamento sem licença, na prática, não.


”O que é um Data Center?” — a matéria explicou o dicionário, não o projeto

O texto da G1 inclui, com a delicadeza de uma enciclopédia infantil, uma caixa explicativa: “O que é um Data Center?”. Define: “instalação física projetada para abrigar sistemas computacionais de processamento, armazenamento e gerenciamento de dados.”

A jornalista explicou o que é um data center. Não explicou o que é o data center da RT-One. Não perguntou por que ele avança sem licença ambiental. Não perguntou por que não há EIA/RIMA. Não perguntou quem paga a subestação de R$ 160 milhões da Cemig. Não perguntou de onde sai a energia limpa quando os geradores a diesel de backup entram em operação.

Definiu o dicionário. Esqueceu a reportagem.


Dois mil empregos: o número que nasceu pronto

A matéria repete, sem questionar, a cifra mágica: “cerca de 2 mil empregos permanentes, diretos e indiretos nos primeiros três anos”. O apresentador sorriu ao ler.

O problema é que os números da RT-One não sobrevivem a uma verificação básica. Um data center de hiperescala emprega, em média, entre 50 e 200 pessoas em operação permanente — não dois mil. O próprio blog já documentou que o projeto da RT-One em Uberlândia gera menos de 100 empregos permanentes, com maioria de mão de obra especializada importada.

A categoria “indiretos” faz o resto do trabalho retórico. Todo mundo é emprego indireto se você contar largo o suficiente: o freteiro que entrega peça, a faxineira do escritório, o vendedor de café na esquina. Com essa matemática, qualquer obra gera “milhares de empregos”. A Globo não pediu o detalhamento. Repassou o número como se fosse fato.


”Empresa norte-americana” registrada em São Paulo

A matéria classifica a RT-One como “empresa norte-americana fundada por brasileiros”. A realidade é mais prosaica. A RT-One foi registrada em São Paulo em dezembro de 2024 — há menos de dois anos. Não tem operações comprovadas em data centers. Não tem clientes públicos conhecidos. Nenhum projeto concluído.

O CEO, Fernando Palamone, foi apresentado em 2024 como COO da Intel em Brasília. A Intel, em nota oficial ao Aos Fatos, declarou: “Ele não é COO da Intel Corporation e nunca foi.” A Globo não mencionou o desmentido público da Intel. Talvez porque estrague o sorriso.

A própria matéria carrega um sintoma de descuido: “que deidos”, lê-se no texto, num trecho sobre Palamone. Um erro de digitação que sobreviveu à edição e à revisão. Quando o copy não passa pelo copydesk, a reportagem também não passou pela checagem.


Carbono zero com diesel no tanque

A matéria repete sem ironia a promessa de “operação com carbono zero, utilizando fontes de energia limpa e renovável”. O apresentador sorriu de novo.

Um data center de 400 MW não opera sem backup. Quando a rede falha — e falha — os geradores entram em ação. A RT-One prevê geradores a diesel de backup para garantir uptime. Diesel não é energia limpa. Diesel não é renovável. Diesel não é carbono zero.

A certificação internacional de sustentabilidade é uma “meta”, segundo a própria matéria. Meta é o verbo “tender” da Fiemg: soa bem, não compromete nada. A Globo tratou a promessa como fato consumado. Não é. É greenwashing — a mesma lógica da matriz renovável como desculpa —, e cabia à reportagem dizer isso.


O que a Globo disse e o que a Globo não disse

A Globo disseA Globo não disse
”2 mil empregos”Menos de 100 permanentes, maioria externa
”Empresa norte-americana”Registrada em SP em dezembro de 2024
”Carbono zero”Geradores a diesel de backup
”Primeira do Sudeste”Sem EIA/RIMA, sem licença ambiental
”CEO brasileiro Fernando Palamone”Intel desmentiu vinculação publicamente
”Aporte bilionário”Isenção fiscal de 5 anos via Redata
Sorriso aberto em 09/07/2025Silêncio em 02/07/2026 na comissão da ALMG

A coluna da direita é o trabalho que a Globo não fez. A coluna da esquerda é o trabalho que a assessoria de imprensa da RT-One fez por ela.


O sorriso seletivo

A cobertura Globo data center Uberlândia que explicou o dicionário não explicou a licença. Contou dois mil empregos e omitiu os menos de cem permanentes. Sorriu em julho de 2025 e calou em julho de 2026, quando a ALMG reuniu quem a matéria de anúncio nunca citou. O Executivo local segue o mesmo roteiro de prioridade: helicóptero no TikTok, cadeira vazia na audiência. A escolha editorial é tão transparente quanto os contratos da RT-One — ou seja, não é.


Perguntas frequentes

A Globo cobriu a audiência da ALMG sobre o data center da RT-One?

Não há cobertura da rede Globo/G1 da comissão de 02/07/2026 comparável ao destaque do anúncio sorridente de 2025. A audiência foi registrada pela própria ALMG e por veículos locais (Diário de Uberlândia, O Tempo, Panorama).

A RT-One e a prefeitura compareceram à ALMG?

Não. Na audiência de meio ambiente, empresa e Executivo municipal faltaram; o IGAM apontou ausência de outorga de água na pauta.

Os “2 mil empregos” da matéria da Globo batem com a operação de um data center?

Não como emprego permanente típico de hiperescala. O blog documenta operação na ordem de menos de 100 permanentes no recorte local; “indiretos” dilatam o número de assessoria.


Fontes: G1 — anúncio 09/07/2025 (2 mil empregos / carbono zero) | ALMG — Licenciamento para centro de dados em IA é defendido em audiência (02/07/2026) | ALMG — Meio Ambiente questiona projeto de data center em Uberlândia

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Equipe Data Center Uberlândia

Monitoramento Ambiental e Socioeconômico

Blog independente que documenta os impactos ambientais e socioeconômicos de data centers em Uberlândia (MG).