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CNN Brasil data center RT-One: R$ 15 bi sem perguntas

CNN Brasil cobriu o data center da RT-One com números inflados e zero perguntas. Silêncio também sobre a audiência da ALMG em 02/07/2026.

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CNN Brasil cobriu a RT-One — e esqueceu de perguntar

Sim. Em julho de 2025 a CNN Brasil cobriu o data center da RT-One repetindo o anúncio corporativo de R$ 15 bilhões (REPORTED pela empresa — três campi, não só Uberlândia), "empresa americana" e "responsabilidade ambiental" — e zero perguntas que aborrecessem o CEO. Em 02/07/2026, a Comissão de Meio Ambiente da ALMG realizou audiência pública sobre o mesmo projeto; a CNN não noticiou. Anúncio sem auditoria na matéria; silêncio na audiência. A Globo pelo menos sorriu na primeira cobertura — a CNN Brasil tratou as duas datas com a mesma indiferença sobre a RT-One.


R$ 6 bi vs R$ 15 bi: a inflação milagrosa

A Globo informou R$ 6 bilhões para o campus de Uberlândia (ANNOUNCEMENT local). A matéria informa R$ 15 bilhões para três data centers — Uberlândia, Maringá e um “terceiro local em fase de avaliação” (ANNOUNCEMENT corporativo, não caixa auditado). Nenhuma das duas explica de onde sai o número. Nenhuma pede fonte. Nenhuma questiona a diferença de escala.

A RT-One foi registrada em São Paulo em dezembro de 2024. Não tem operações comprovadas. Não tem clientes públicos conhecidos. Não tem projeto concluído. Anuncia, no entanto, R$ 15 bilhões em investimento como se fosse uma empresa com histórico. O texto repassa o número sem ponderar que empresas com menos de dois anos de existência e zero campi construídos raramente dispõem de R$ 15 bilhões em caixa.

A pergunta óbvia — “de onde vem esse dinheiro?” — não foi feita. Preferiu-se informar que “os aportes financeiros serão feitos de forma gradual”. Tradução do burocratês corporativo: o dinheiro ainda não está aqui. Mas a manchete já está.


”Empresa americana de tecnologia com atuação global”

A frase aparece na abertura. O veículo não explica o que significa “atuação global” para uma empresa registrada em dezembro de 2024 em São Paulo, sem operações comprovadas, com dois projetos anunciados e nenhum em funcionamento.

O CEO, Fernando Palamone, foi apresentado em 2024 como COO da Intel em Brasília. A Intel, em nota ao Aos Fatos, declarou que ele não é COO da Intel Corporation e nunca ocupou esse cargo. A matéria não menciona o desmentido público da Intel. Talvez porque “empresa americana com CEO desmentido pela Intel” não tenha o mesmo charme de manchete.


”Responsabilidade ambiental”: o greenwashing que a CNN não contrastou

A citação é de Palamone — “conciliar expansão com responsabilidade ambiental deixou de ser apenas uma possibilidade” — e a matéria a reproduz sem ironia. O executivo discursa sobre “preservar os recursos naturais e o bem-estar das comunidades locais” — exatamente as comunidades dos bairros Pequis e Monte Hebrom que nunca foram consultadas sobre o campus da RT-One de 1 milhão de metros quadrados na vizinhança.

A “responsabilidade ambiental” do discurso esbarra em fatos que a cobertura não mencionou:

  • O projeto avança sem licença ambiental. Sem EIA/RIMA, sem LP, sem LI, sem LO.
  • A operação prevê geradores a diesel de backup. Diesel não preserva recurso natural nenhum.
  • O consumo de água: a prefeitura/DMAE trabalha com 239 mil litros por dia; na audiência da ALMG, a vereadora Amanda Gondim apontou documentos atribuídos à empresa com demanda de até 1,7 milhão de litros/dia (Brasil de Fato / ALMG). A CNN não contrastou nenhum dos dois números — nem o conflito entre eles.
  • Na mesma audiência, o IGAM (Marcelo da Fonseca) informou ausência de pedido de outorga e áreas de conflito hídrico próximas a Uberlândia. Zero linha na cobertura.

Publicou-se o discurso. Não o contraste. Greenwashing relevado como informação. O desmentido da Intel ao CEO — documentado pelo Aos Fatos — também ficou de fora: não é fact-check do veículo; é o tipo de contexto que jornalismo independente já tinha colocado na mesa.


”60% dos dados brasileiros processados fora do país”

A estatística vem do CEO. A CNN não cita fonte, não contextualiza, não verifica. 60% dos dados processados fora. 95% da IA processada no exterior. Números redondos, redondíssimos, que servem a qualquer tese e provam qualquer coisa.

Mesmo que os números fossem corretos — e não há como confirmar sem fonte — eles não respondem à pergunta que a CNN não fez: por que uma empresa sem histórico operacional, com CEO desmentido pela Intel e sem licença ambiental seria a resposta a esse déficit? O Brasil pode ter déficit de processamento de IA e, ao mesmo tempo, escolher mal quem vai preenchê-lo. As duas coisas não se excluem.


”São Paulo e Rio estão saturados”

A frase de Palamone é categórica. A matéria a reproduz sem questionar. A saturação de São Paulo e Rio não explica por que Uberlândia foi escolhida em vez de qualquer outra cidade com “energia, universidades e mão de obra qualificada” — descrição que cabe a Campinas, São Carlos, Florianópolis, Porto Alegre e dezenas de outras.

A explicação real não está na saturação do Sudeste. Está na isenção fiscal de 5 anos via Redata, na subestação dedicada da Cemig de R$ 160 milhões e num licenciamento ambiental que tramita em limbo. Uberlândia foi escolhida não apesar da regulação frouxa, mas por causa dela. A conexão não foi feita.


A tabela que a CNN não publicou

A CNN disseA CNN não disse
”R$ 15 bilhões em investimento”Empresa sem histórico operacional, registrada em 2024
”Empresa americana com atuação global”Desmentido público da Intel ao CEO
”Responsabilidade ambiental”Sem EIA/RIMA, sem licença; IGAM sem outorga
”Energia renovável”Geradores a diesel de backup
”Bem-estar das comunidades locais”Pequis e Monte Hebrom nunca consultados; 239 mil vs até 1,7 mi L/dia
”60% dos dados processados fora”Estatística sem fonte citada
Matéria em julho de 2025Silêncio em 02/07/2026; Palamone e Paulo Sérgio não confirmaram presença

A coluna da direita é o trabalho jornalístico. A coluna da esquerda é o trabalho de assessoria. A CNN confundiu os dois.


ALMG 02/07: o silêncio que a CNN não cobriu

A CNN que dedicou parágrafos à “responsabilidade ambiental” do data center não dedicou uma linha à audiência da ALMG em 2 de julho de 2026. A CNN que ouviu Palamone discursar sobre “bem-estar das comunidades locais” não ouviu o conflito de números da água, o IGAM sem outorga nem o padrão de ausências dos convidados oficiais. O convite prévio a Palamone e Paulo Sérgio já cobrava presença — a CNN não cobriu o convite nem o resultado.

Jornalismo não é brincadeira. Reproduzir o discurso de um CEO sem contrastar com fatos documentados é serviço de assessoria. A diferença entre os dois é que a assessoria é paga pela empresa. A CNN, ao que tudo indica, fez de graça. (ou será que não?)


Perguntas frequentes

A CNN cobriu a audiência da ALMG sobre o data center?

Não. A audiência de 02/07/2026 na Comissão de Meio Ambiente não gerou cobertura na CNN — o mesmo silêncio da Globo naquela data. Detalhe das ausências: convidados que não confirmaram.

Por que R$ 6 bilhões e R$ 15 bilhões aparecem juntos?

A Globo citou R$ 6 bi para Uberlândia (ANNOUNCEMENT local); a CNN, R$ 15 bi para três data centers (ANNOUNCEMENT corporativo). Nenhuma das duas publicou fonte auditável nem pediu ao CEO de onde vem o dinheiro.

A CNN mencionou o desmentido da Intel ao CEO?

Não. A Intel, em nota ao Aos Fatos, afirmou que Fernando Palamone não é COO e nunca ocupou esse cargo. A matéria da CNN não contrastou esse fato. Síntese: RT-One × Intel. O padrão nacional da reportagem: corrida de data centers e identidades falsas.


Fontes: CNN Brasil — Com alta demanda, empresa investirá R$ 15 bi em data centers de IA; Aos Fatos — corrida de data centers / identidades falsas; Brasil de Fato — ALMG, 239 mil vs 1,7 mi e IGAM; ALMG — licenciamento para centro de dados em IA

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Publicado por:

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Equipe Data Center Uberlândia

Monitoramento Ambiental e Socioeconômico

Blog independente que documenta os impactos ambientais e socioeconômicos de data centers em Uberlândia (MG).