Rio AI City anuncia 3 GW no Parque Olímpico e prefeitura não tem dados sobre energia ou água
A Prefeitura do Rio de Janeiro está promovendo o Rio AI City como o maior polo de data centers da América Latina. O projeto está instalado no Parque Olímpico, em Barra da Tijuca, Zona Oeste da cidade. A empresa âncora é a Elea Data Centers, que já opera o RJO1 no local e está construindo o RJO2, com entrega prevista para 2026. A capacidade planejada é de 1,5 GW na primeira fase e de 3,2 GW ao final do projeto, por volta de 2032. O investimento total projetado é de US$ 65 bilhões.
Ao mesmo tempo, pesquisadores e organizações que enviaram pedidos pela Lei de Acesso à Informação (LAI) ao Município receberam uma resposta que concentra o problema em uma frase: a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima (SMAC) informou que os dados sobre consumo de energia, uso de água e impactos ambientais dos data centers na cidade “não existem em seus sistemas” e que produzi-los “exigiria trabalho adicional”.
O projeto e seus parceiros
A estrutura institucional do Rio AI City inclui um memorando de entendimento assinado com cinco órgãos federais: o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o BNDES, a Eletrobras e a Finep. O apoio governamental é explícito e formal.
A Elea Data Centers pertence ao fundo internacional I Squared Capital. A empresa descreve o Rio AI City como “projeto pioneiro, concebido para alimentar de forma sustentável o futuro da IA e da computação em nuvem na América Latina”. A infraestrutura será alimentada, segundo a empresa, por 100% de energia renovável certificada e com sistemas de resfriamento que não utilizam água — um argumento de sustentabilidade que antecede qualquer dado público verificável sobre o funcionamento real das instalações.
A localização no Parque Olímpico é apresentada como vantagem operacional: a infraestrutura de rede elétrica construída para os Jogos de 2016, com disponibilidade declarada de 99,8%, está disponível. O acesso a cabos submarinos e a proximidade de rodovias completam a justificativa de escolha do terreno.
A promessa de empregos sem separação
A Elea e a Prefeitura do Rio projetam a geração de mais de 10.000 empregos qualificados associados ao Rio AI City. O número inclui postos de trabalho esperados ao longo de um desenvolvimento que se estende até 2032.
O anúncio não separa empregos de construção de empregos permanentes de operação. Essa distinção é central no setor: data centers são estruturas altamente automatizadas, intensivas em tecnologia e com quadros operacionais reduzidos depois que a fase de obras termina. Um complexo de 3,2 GW pode exigir milhares de trabalhadores durante a construção e manter uma fração desse total na operação permanente.
Distribuir 10.000 postos ao longo de uma década, sem separar categorias, é uma forma de apresentação que maximiza o impacto percebido no anúncio. Qual será o total de vagas permanentes após a conclusão do projeto não está respondido nos documentos públicos disponíveis.
A transparência que a LAI revelou não existir
Quando a SMAC responde que os dados sobre consumo de energia, uso de água e impactos ambientais “não existem em seus sistemas”, isso não é uma limitação técnica de cadastro. É a confirmação de que o poder público municipal aprova, incentiva e promove um polo tecnológico de escala sem precedentes no Parque Olímpico sem ter organizado internamente os dados básicos que permitiriam avaliar o que essa escala implica para o território.
A 3,2 GW, o Rio AI City consumiria mais energia do que a carga média da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, estimada em cerca de 1,8 GW. Nenhum indicativo de que esse dado foi considerado em alguma instância municipal antes da assinatura dos acordos institucionais consta da resposta à LAI.
A Elea afirma que os sistemas de resfriamento não utilizam água. Mesmo que isso seja verdadeiro para o RJO1 em operação, o crescimento para 3,2 GW envolverá diferentes fases construtivas e tecnologias de resfriamento que podem variar. Sem monitoramento independente publicado, a afirmação permanece como promessa — do mesmo tipo que consta dos anúncios de projetos similares em outras cidades brasileiras.
O argumento do legado olímpico
A escolha do Parque Olímpico carrega um raciocínio implícito de eficiência territorial: usar a infraestrutura já construída para os Jogos de 2016 evita a abertura de novas áreas. É um argumento real.
O que esse raciocínio não aborda é o balanço do legado olímpico em si. Os Jogos de 2016 deixaram registros documentados de obras abandonadas, instalações degradadas e remoções de comunidades que precederam os jogos e nunca foram integralmente compensadas. O Parque Olímpico foi concebido com promessas de uso público posterior que não se concretizaram na escala prevista.
Agora, o mesmo local é apresentado como plataforma para um novo ciclo de investimento de escala equivalente ou superior. A infraestrutura existe — isso é factual. Mas o padrão de opacidade sobre impactos, documentado pela LAI, repete a dinâmica anterior: o projeto avança, os questionamentos chegam depois.
Os territórios ao redor do projeto
O RioOnWatch, organização de mídia comunitária especializada no acompanhamento de políticas urbanas no Rio de Janeiro, identificou que as regiões afetadas pela expansão de data centers na cidade incluem territórios que “cronicamente enfrentam falta d’água, problemas de energia elétrica, saneamento precário e mobilidade limitada”.
O Complexo da Pedreira, o Chapadão, o Morro da Lagartixa, o Tuiuti e o Caju estão entre os locais mencionados na análise. São áreas que convivem com a precariedade das mesmas redes que o Rio AI City vai demandar em volumes expressivos.
A organização também citou dados da Bloomberg sobre o impacto tarifário da concentração de data centers em outros países: em áreas próximas a clusters de alta atividade, o custo da eletricidade chegou a ser 267% maior ao longo de cinco anos. Irlanda e Holanda suspenderam a instalação de novos data centers em determinadas regiões em resposta ao impacto sobre as redes locais. Nos Estados Unidos, mais de 100 municípios adotaram algum tipo de restrição ou moratória para novos empreendimentos do setor.
O que Rio de Janeiro aposta e o que não respondeu
A aposta do Rio é coerente com a lógica que orienta as disputas nacionais por investimento em data centers: localização, conectividade, infraestrutura elétrica disponível, energia renovável e apoio institucional de múltiplos órgãos federais. O Rio AI City reúne todos esses elementos.
O que a cidade não respondeu, até o momento, é o lado do balanço que a LAI tentou revelar: quanto de energia será consumido por fase, qual será a demanda hídrica real dos sistemas de resfriamento, quais mecanismos garantem que os impactos sobre as redes locais não serão transferidos para os consumidores residenciais, e como os 10.000 empregos prometidos serão distribuídos entre construção e operação permanente.
Quando a SMAC responde que os dados não existem, o Rio de Janeiro não está sendo diferente de outros municípios brasileiros. Está confirmando um padrão: a corrida por atrair esses projetos construiu um arcabouço de promoção sem construir, em paralelo, um arcabouço de monitoramento.
O roteiro do anúncio em cidades diferentes
Em escala muito menor, o projeto da RT-One em Uberlândia avança com estrutura narrativa semelhante: investimento anunciado, empregos prometidos, energia renovável e ausência de dados públicos verificáveis sobre consumo hídrico e impacto na rede elétrica local. Nenhum dos dois projetos — Rio AI City e RT-One — disponibilizou, de forma pública e rastreável, dados de consumo de água por fase de operação. Nenhum dos dois separou postos permanentes de postos temporários no anúncio de empregos.
A diferença de escala é real: 3,2 GW contra 400 MW, US$ 65 bilhões contra R$ 6 bilhões, um fundo internacional com múltiplos parceiros federais contra uma empresa de projeto ainda sem operação comprovada. Mas a lacuna de transparência sobre os impactos locais é o mesmo capítulo, em cidades e magnitudes diferentes.
No Rio, o legado olímpico serve ao mesmo propósito que o desenvolvimento regional serve em Uberlândia: uma moldura de legitimação que antecede qualquer prestação de contas. O Parque Olímpico existe. Os MoUs foram assinados. A secretaria municipal de meio ambiente não tem os dados.
Fontes
- RioOnWatch: Data Centers, IA e os Custos Sociais para o Rio de Janeiro
- Prefeitura do Rio de Janeiro: Rio AI City: início do projeto para o maior hub de data centers da América Latina
- Elea Data Centers: Rio AI City
- Mundo Conectado: Rio AI City: saiba como US$ 65 bilhões vão transformar o Rio no gigante dos data centers
- Telesíntese: Rio AI City cria ecossistema único de IA na América Latina