Scala AI City em Eldorado do Sul: 5 GW, licenciamento sem EIA e empregos que ninguém detalhou
Em maio de 2024, 97% da área urbana de Eldorado do Sul ficou submersa pelas enchentes do Rio Grande do Sul. Das 39 mil pessoas que viviam na cidade, 32 mil tiveram que abandonar suas casas. Quatro meses depois, em setembro de 2024, o governo gaúcho assinou um protocolo de intenções com a Scala Data Centers para instalar no município o que a empresa chama de "maior cidade de data centers da América Latina".
O terreno escolhido para o projeto fica em cota de altitude acima da área inundada. A população que perdeu tudo reconstruía abaixo.
O que é a Scala AI City
O empreendimento tem como nome de marca Scala AI City. A Scala Data Centers adquiriu uma área de 700 hectares às margens da BR-290, a 32 quilômetros de Porto Alegre, por R$ 38 milhões. O projeto ocupa o equivalente a 540 campos de futebol.
A primeira fase prevê capacidade instalada de 54 MW com investimento inicial de R$ 3 bilhões. A visão de longo prazo, projetada pela própria empresa para um horizonte de 10 a 20 anos, chega a 4,75 GW. Para efeito de comparação, trata-se de uma capacidade equivalente à demanda elétrica média de todo o estado do Rio Grande do Sul — ou ao consumo de cerca de 40 milhões de pessoas, segundo estimativas da época dos primeiros anúncios.
Em 2025, o Ministério de Minas e Energia publicou resolução reservando 5 GW de conexão energética para o projeto. O investimento total projetado, caso a capacidade máxima seja atingida, alcança US$ 300 bilhões, estimativa da própria Scala.
A prefeitura de Eldorado do Sul sancionou, ainda em novembro de 2024, uma lei específica habilitando a construção do empreendimento. Em março de 2026, o governador Eduardo Leite assinou, ao lado de quatro secretários de Estado, o acordo de licenciamento simplificado com a empresa.
O que o licenciamento simplificado significa
O Rio Grande do Sul foi pioneiro no Brasil ao aprovar, em maio de 2025, regras específicas de licenciamento ambiental para data centers. O regime simplificado combina as licenças de instalação e de operação em um único documento e, conforme interpretado pelo governo estadual, dispensa a elaboração do Estudo de Impacto Ambiental.
O EIA é o principal instrumento de análise prévia das consequências ambientais de um empreendimento de grande porte. É ele que exige levantamento de dados hídricos, avaliação de áreas sensíveis, consulta a comunidades afetadas e análise de alternativas. Sem ele, o processo é mais rápido. É também menos transparente.
A Assembleia Legislativa gaúcha criou uma subcomissão para analisar os impactos socioeconômicos e ambientais do megaprojeto. Em março de 2026, o Laboratório de Políticas de Internet e Inovação (LAPIN) apresentou contribuição à subcomissão identificando ausências nos dados divulgados: não há informações públicas sobre consumo de água, detalhamento do sistema de resfriamento, plano de gerenciamento de riscos ou dados de emissões de carbono.
Comunidades indígenas da região ainda aguardavam, em 2026, a convocação para a consulta prévia, livre e informada à qual têm direito. O governo afirmou que a consulta será realizada durante o processo de licenciamento. Não ocorreu antes de a empresa firmar o acordo com o estado.
Agricultores familiares e assentados de reforma agrária da região também não foram ouvidos na fase inicial, segundo a Intercept Brasil.
O revés na Aneel
Em 19 de maio de 2026, a Agência Nacional de Energia Elétrica negou o pedido de tutela antecipada formulado pela Scala para se isentar temporariamente da exigência de garantias financeiras vinculadas ao Contrato de Uso do Sistema de Transmissão.
A Scala havia solicitado que fosse dispensada de apresentar aproximadamente R$ 77 milhões em garantias antes de assinar o contrato de acesso à rede de transmissão nacional. A Aneel manteve a exigência. A decisão não encerrou o processo — a empresa pode seguir pelas vias regulares —, mas adiou e encareceu a etapa de conexão elétrica do projeto.
O vice-presidente da Scala afirmou, em declaração ao portal Guaíba Online, que as obras de urbanização do terreno devem começar em 2027, com as primeiras estruturas sendo erguidas ao longo de 2028 e o início das operações previsto entre o final de 2028 e o começo de 2029. Esse cronograma depende da conclusão dos ritos de licenciamento e da resolução das pendências junto à Aneel.
O número que sempre aparece
A Scala encomendou à Fundação Getulio Vargas um estudo sobre o efeito multiplicador do projeto. Segundo a FGV, cada vaga direta criada no data center tem potencial de estimular 22 vagas indiretas ou induzidas na cadeia econômica regional. No pico das obras, até 12 mil trabalhadores poderão atuar no canteiro.
O que os números não respondem é quantos empregos permanentes o projeto gerará depois que a construção terminar.
A distinção entre empregos de obra e empregos de operação é central para avaliar o que uma cidade efetivamente ganha ao receber um data center de grande porte. Os postos de construção desaparecem com a conclusão das estruturas. Os postos de operação, tipicamente de manutenção de infraestrutura crítica, são significativamente menores e exigem qualificação específica.
A Scala projetou 3 mil empregos diretos e indiretos na primeira fase, sem especificar a proporção entre fase de obras e operação permanente. O multiplicador da FGV foi calculado sobre vagas diretas. Quantas vagas diretas permanentes o projeto vai gerar não consta dos documentos públicos disponíveis.
O precedente que o licenciamento gaúcho constrói
A decisão do Rio Grande do Sul de dispensar o EIA para data centers estabelece um precedente nacional. Nenhum outro estado chegou ao mesmo ponto: o Ceará criou um marco regulatório por porte com três etapas obrigatórias para projetos acima de 100 MW, inclusive o da ByteDance com 200 MW no Pecém. O RS ofereceu licenciamento unificado para uma estrutura projetada em 4,75 GW.
O que a diferença de abordagem revela é que estados competem não apenas por investimentos, mas pela velocidade com que conseguem reduzir as exigências ambientais para obtê-los. Quando a decisão de dispensar o EIA vira vantagem competitiva, o benchmark que prevalece é o menor nível de exigência — não o mais adequado à escala do projeto.
O que isso coloca para Uberlândia observar
Em Uberlândia, o projeto da RT-One permanece cercado por perguntas sobre água, energia e impactos que o processo de licenciamento local ainda não respondeu. A RT-One prevê até 400 MW de capacidade — menor que a primeira fase da Scala AI City, mas de escala comparável ao que passou a ser chamado de “grande porte” no Ceará e “projeto bilionário” no Rio Grande do Sul.
O que o caso de Eldorado do Sul acrescenta ao debate em Uberlândia é a imagem de como o processo pode se desenvolver quando o governo estadual prioriza a velocidade. Há uma subcomissão legislativa exigindo dados que o licenciamento simplificado não obrigou a empresa a apresentar. Há comunidades aguardando consultas que o acordo com o estado não exigiu antes da assinatura. Há uma decisão da Aneel que mostrou que nem todo obstáculo regulatório pode ser contornado por solicitação judicial.
A narrativa do projeto como catalisador de desenvolvimento regional é idêntica à usada em Uberlândia. Os números de investimento são maiores. O nível de detalhamento público dos impactos é o mesmo: insuficiente.
O que ainda falta saber
A Scala AI City é, no papel, o maior projeto de infraestrutura digital já anunciado no Brasil. É também um projeto que, em 2026, não divulgou:
- o consumo de água projetado por megawatt instalado;
- o sistema de resfriamento escolhido e sua demanda hídrica;
- a fonte de abastecimento de água para as operações;
- o número de empregos permanentes separado dos de construção;
- o plano de gerenciamento de resíduos de equipamentos eletrônicos;
- os impactos sobre a infraestrutura de saneamento e mobilidade de Eldorado do Sul.
A subcomissão da ALRS existe. As perguntas foram formalizadas. A empresa ainda não respondeu publicamente.
Eldorado do Sul foi parcialmente destruída por enchentes em 2024. O data center será construído em área protegida pelo relevo. A cidade reconstruída ao lado receberá a infraestrutura elétrica do maior projeto de data centers da América Latina. O que a cidade ganhará além disso ainda não está claro.
Fontes
- Intercept Brasil: Eldorado do Sul abre portas para projeto bilionário de data center que esconde impactos e ignora população
- Brasil de Fato: Data center em terra firme, população embaixo d’água: a ‘cidade das máquinas’ de Eldorado do Sul
- Brasil de Fato: Comissão da Assembleia gaúcha amplia análise sobre megaprojeto de data centers em Eldorado do Sul
- Jornal do Comércio: Projeto bilionário de data center no RS sofre revés na Aneel
- ConvergênciaDigital: Aneel rejeita pedido da Scala e exige garantias financeiras para data center em Eldorado do Sul
- Repórter Brasil: Data centers no RS podem gastar mais energia que metrópole
- LAPIN: Contribuição à Subcomissão da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul que analisa os impactos socioambientais da instalação de data centers