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Data center em minas de carvão desativadas: a aposta de Criciúma na transição digital

A SATC, com financiamento da FAPESC, pesquisa instalar data centers nas minas de carvão desativadas de Criciúma. O senador Esperidião Amin propôs emenda ao REDATA para reduzir 20% das obrigações de empreendimentos instalados na região carbonífera do Sul.

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As minas de carvão desativadas do Sul de Santa Catarina acumulam décadas de passivos ambientais. Rios contaminados, solos comprometidos, subterrâneos com temperatura constante e estrutura herdada de outra era econômica. Em Criciúma, a SATC — Associação Beneficente da Indústria Carbonífera de Santa Catarina — encontrou nesse cenário o argumento para uma reconversão: transformar as galerias subterrâneas em abrigo para data centers.

A pesquisa não é uma promessa corporativa. É um projeto financiado pela FAPESC, a fundação estadual de amparo à pesquisa de Santa Catarina, aprovado com nota 79,0 no edital público e intitulado oficialmente como Transformação de Passivos Minerários em Ativos Digitais: Avaliação da Viabilidade Técnica da Implantação de Data Centers a Partir de Infraestruturas Legadas da Mineração de Carvão no Contexto da Transição Energética Justa. O nome carrega toda a ambição — e todo o paradoxo — do projeto.

O que a SATC está testando

Fernando Zancan, diretor executivo da SATC, declarou que a instituição estuda a instalação de data centers em minas desativadas desde 2025. A ideia surgiu a partir de um precedente italiano: um data center instalado abaixo de uma mina, aproveitando as baixas temperaturas subterrâneas para reduzir o consumo de energia no resfriamento dos equipamentos.

A lógica técnica tem fundamento. Data centers convencionais gastam entre 30% e 40% de sua energia elétrica em sistemas de resfriamento. Ambientes subterrâneos mantêm temperatura constante — geralmente entre 14°C e 18°C — sem exigir compressores ou torres de resfriamento a plena carga. Em teoria, isso reduz tanto o consumo de energia quanto o de água.

A pesquisa da SATC busca responder se a infraestrutura legada das minas de Criciúma é compatível com as exigências técnicas de um data center: fornecimento estável de energia, conectividade de fibra óptica, controle de umidade, segurança estrutural e capacidade de acesso físico para manutenção. A umidade elevada, característica dos ambientes subterrâneos, é um dos principais pontos sob avaliação.

Em 2025, a ANM — Agência Nacional de Mineração — encaminhou ofício ao governo federal incentivando a abertura de uma discussão regulatória específica sobre o aproveitamento de minas desativadas para esse tipo de uso. O passo indica que o debate deixou o âmbito acadêmico e chegou ao campo normativo.

A emenda que coloca o carvão dentro do REDATA

Enquanto a pesquisa técnica avança, a disputa política em torno dos incentivos federais ganhou um capítulo específico para a região carbonífera.

O REDATA — Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter — é o principal instrumento federal de atração de data centers para o Brasil. Para se enquadrar, as empresas precisam cumprir obrigações de oferta de serviços ao mercado interno, de investimento em pesquisa, desenvolvimento e inovação, e de uso de energia limpa ou renovável.

O senador Esperidião Amin (PP/SC) apresentou emenda ao projeto para incluir as regiões produtoras de carvão do Sul do Brasil entre as localidades com condições diferenciadas de acesso ao regime. Pelo texto da emenda, data centers instalados nessas áreas teriam direito a uma redução de 20% nas obrigações exigidas pelo REDATA — tanto nas metas de oferta ao mercado interno quanto nos compromissos de pesquisa, desenvolvimento e inovação.

O argumento político é o da compensação histórica: Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná atravessam um processo de transição energética forçada, com a redução progressiva das termoelétricas a carvão na matriz elétrica nacional. A emenda enquadra os data centers como alternativa econômica legítima para territórios que dependem da mineração há décadas.

A proposta aguardava votação no Senado enquanto a emenda circulava para análise. A aprovação ou rejeição da cláusula definirá se a aposta de Criciúma tem sustentação federal ou permanece restrita à iniciativa local.

O paradoxo da transição energética justa

O título do projeto da SATC menciona explicitamente a “transição energética justa”. O adjetivo carrega peso político: reconhece que a descarbonização tem custos desiguais e que as regiões mineradoras precisam de alternativas concretas.

O problema é que data centers também são intensivos em energia. Um empreendimento de porte médio, com capacidade de 50 MW, consome o equivalente ao de aproximadamente 200 mil residências brasileiras. Se a energia para esse data center vier das termoelétricas a carvão ainda ativas na região — e o próprio texto da emenda ao REDATA abre essa possibilidade ao mencionar o “uso de resíduos do carvão como fonte termelétrica” —, a “transição” significa, na prática, substituir a extração de carvão pelo consumo contínuo de carvão, apenas com outro nome na fachada.

O REDATA, em sua formulação original, exige energia limpa ou renovável como condição de adesão. A emenda de Amin propõe reduzir essa exigência para a região carbonífera em 20%. Isso cria uma lacuna: o incentivo público federal poderia financiar data centers que, ao menos parcialmente, operem com a mesma fonte de energia que o setor diz estar deixando para trás.

Não há, nos documentos públicos disponíveis, uma projeção detalhada do mix energético previsto para o projeto da SATC. Nem uma estimativa de quantos empregos permanentes seriam gerados pela reconversão das minas. Nem um cronograma de licenciamento ambiental para uma instalação subterrânea desse tipo — um modelo sem precedente regulatório no Brasil.

O que isso levanta para além de Criciúma

O debate em torno das obrigações do REDATA toca um ponto que permanece sem resposta clara em outros projetos do país.

Em Uberlândia, o projeto da RT-One segue cercado por perguntas sobre quais benefícios fiscais serão efetivamente concedidos e quais contrapartidas reais o município receberá. O REDATA prevê obrigações de oferta de serviços ao mercado interno e investimentos em pesquisa — mas os detalhes de como cada empresa adere ao regime, e o que entrega em troca, raramente chegam ao público com clareza.

O precedente de Criciúma é relevante não pelo projeto subterrâneo em si, mas pela negociação em torno das obrigações. Se emendas regionais conseguem reduzir os critérios de acesso ao REDATA em 20%, o regime que deveria garantir contrapartidas mínimas pode se tornar mais poroso do que parece.

As perguntas que a pesquisa não responde

A iniciativa da SATC é genuína como pesquisa. O financiamento da FAPESC, o edital público, a pontuação formal e o título explícito mostram que não se trata de anúncio sem substância.

Mas a pesquisa técnica é diferente de um projeto aprovado, licenciado e em operação. O que falta saber:

  • As minas de Criciúma têm estrutura geológica compatível com a carga de servidores e com o tráfego de manutenção contínua?
  • A umidade subterrânea pode ser controlada a custo competitivo com data centers convencionais?
  • Qual órgão ambiental licenciaria uma instalação desse tipo em Santa Catarina, e por qual regime?
  • Qual é a fonte de energia prevista para o empreendimento?
  • A emenda de Amin ao REDATA foi aprovada ou rejeitada?
  • Quantos empregos permanentes — e não apenas temporários de obra — seriam gerados?

Essas perguntas não tornam o projeto inviável. Tornam o entusiasmo prematuro.

A região carbonífera precisa de novas alternativas econômicas. Mas converter passivos ambientais em ativos digitais exige mais do que um título promissor e uma emenda legislativa com desconto. Exige respostas que a pesquisa da SATC ainda está tentando formular.


Fontes

Publicado por:

E

Equipe Data Center Uberlândia

Monitoramento Ambiental e Socioeconômico

Blog independente que documenta os impactos ambientais e socioeconômicos de data centers em Uberlândia (MG).