Quando a “corrida” pela IA inclui identidades falsas e impactos invisíveis
O Aos Fatos, agência de checagem de fatos ligada à Universidade de São Paulo, publicou uma investigação devastadora sobre a corrida de data centers no Brasil: empresas do setor usam identidades falsas em apresentações públicas, ignoram completamente impacto ambiental, e contam com isenções fiscais do governo para operar sem regulação.
A reportagem não menciona a RT-One especificamente. Mas Uberlândia — que sedia o projeto — reconhece cada detalhe.
O padrão nacional que Uberlândia ignora
Segundo investigadores da Aos Fatos, a corrida por data centers no Brasil segue um script previsível:
- Promessas de investimento gigantesco (R$ 6 bilhões no caso da RT-One)
- Oferecimento de incentivos fiscais via REDATA (isenção de 5 anos)
- Silêncio estratégico sobre impacto ambiental (nenhum EIA/RIMA publicado)
- Ausência de regulação robusta (data centers não têm legislação estadual específica)
- Identidades e narrativas falsas (não investigado localmente, mas a RT-One também mentiu sobre parcerias com a Intel)
A maioria desses passos aconteceu em Uberlândia de forma idêntica.
O uso de identidades falsas chega a Uberlândia
Aos Fatos descobriu que empresas de data centers apresentam-se sob nomes falsos ou usam dados de contatos inexistentes em audiências públicas. A RT-One em Uberlândia não foi investigada nesse artigo — mas em outro, a mesma agência mostrou que Fernando Palamone, CEO da RT-One, foi desmentido pela Intel sobre uma suposta parceria.
Palamone afirmou que a Intel seria cliente. A Intel negou. Aos Fatos publicou, em português, a desmentida.
A prefeitura de Uberlândia nunca questionou Palamone depois disso.
Impacto ambiental: o que não é dito
A investigação do Aos Fatos aponta que especialistas universitários alertam sobre o consumo de água e energia, mas prefeituras “pressionadas por promessas de investimento e desenvolvimento econômico fecham os olhos para impactos ambientais negativos”.
Isto é exatamente Uberlândia:
O que foi dito:
- R$ 6 bilhões de investimento
- Menos de 100 empregos permanentes
- 239 mil litros de água por dia (número minimizado)
- Energia 100% renovável (promessa não verificada)
O que não foi dito:
- Impacto na tarifa de energia local quando a subestação de R$ 160 milhões entrar em operação
- Estudos de viabilidade hídrica em contexto de seca recorrente no Triângulo Mineiro
- Impacto no cerrado e na biodiversidade local
- Números reais de empregos permanentes vs. temporários
- Onde a água virá quando o Aquífero Guarani estiver mais seco
Por que “regulação” virou uma palavra invisível
Aos Fatos entrevistou especialistas que afirmam não existir regulação estadual robusta para orientar a instalação de data centers. Cada prefeitura fica responsável por aprovar ou rejeitar — mas sem critérios técnicos, sem parâmetros de impacto ambiental, sem modelos comparativos com outras cidades.
Uberlândia aprovou a RT-One sem:
- Licenciamento ambiental completo (EIA/RIMA)
- Licenças de Prévia, Instalação e Operação (LP/LI/LO)
- Transparência de contratos ou isenções
- Debates públicos estruturados (a audiência de 26/03/2026 na Câmara foi ausente do prefeito)
Regulação é lenta. Incentivo fiscal é rápido.
O silêncio da imprensa local
Ao Fatos publicou sua investigação em nível nacional. Agências de checagem não têm equipes em Uberlândia. A imprensa local cobriu a RT-One como “oportunidade” sem questionar as falhas de transparência que a reportagem nacional expõe.
Quando uma agência de verificação de fatos estatal encontra “uso de identidades falsas” e “impacto ambiental ignorado” em data centers brasileiros, a primeira reação de uma prefeitura responsável seria: rever o projeto localmente.
Uberlândia não fez isso.
O que deveria ter acontecido depois da investigação do Aos Fatos
- A prefeitura pediria para a RT-One publicar contratos, dados de eficiência energética e estudos hídricos
- A Câmara municipal solicitaria ao Ministério Público que analisasse a compatibilidade do projeto com regulações estaduais
- A imprensa local entrevistaria especialistas da UNESP e USP sobre os achados
- O prefeito compareceria a audiência pública e responderia perguntas sobre identidades falsas no setor
Nenhum disso aconteceu.
Fechamento
A Aos Fatos descobriu um padrão nacional: identidades falsas, impacto ambiental ignorado, prefeituras seduzidas por promessas. A RT-One se encaixa perfeitamente nesse padrão — e Uberlândia nunca leu o manual que deveria tê-la advertido.
Fontes:
- Corrida dos data centers no Brasil ignora impacto ambiental e tem até uso de identidades falsas — Aos Fatos
- Especialistas alertam para alto consumo de água por data centers em meio a incentivos do governo — Jornal da Unesp
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