Aos Fatos: corrida de data centers com identidades falsas
A investigação do Aos Fatos mostra: a corrida de data centers no Brasil combina identidades falsas em apresentações públicas, silêncio sobre impacto ambiental e isenções fiscais sem regulação robusta. A reportagem nomeia a RT-One (Uberlândia e Maringá) e documenta o desmentido da Intel ao CEO — e a prefeitura local não fez diligência pública depois da checagem.
O padrão nacional que Uberlândia replica
Segundo a reportagem, a corrida por data centers no Brasil segue um script previsível:
- Promessas de investimento gigantesco (R$ 6 bilhões no caso da RT-One)
- Oferecimento de incentivos fiscais via REDATA (isenção de 5 anos)
- Silêncio estratégico sobre impacto ambiental (sem EIA/RIMA)
- Ausência de regulação robusta (data centers não têm legislação estadual específica)
- Identidades e narrativas falsas (na própria checagem: Palamone/COO Intel desmentido; parceria Intel negada)
A maioria desses passos aconteceu em Uberlândia de forma idêntica.
Identidade falsa e Intel: o elo local com a RT-One
No mesmo artigo nacional, a investigação documenta a RT-One em Uberlândia e Maringá e o episódio Intel: Fernando Palamone foi desmentido pela multinacional. Não é “padrão genérico” sem nome local — é o caso nomeado.
O que está no registro público (REPORTED pela Intel à checagem): Palamone chegou a ser apresentado como COO e VP da Intel em Brasília; a assessoria da Intel declarou que as informações do LinkedIn “superestimam e alteram seu cargo” e que ele não é COO da Intel Corporation e nunca ocupou esse cargo. Há ainda a narrativa de parceria/cliente Intel — igualmente desmentida. Isso não autoriza inventar novas fraudes: autoriza perguntar se a prefeitura fez diligência mínima depois da checagem.
A prefeitura de Uberlândia nunca questionou Palamone depois disso. O MPF abriu inquérito civil em set/2025 sobre medidas ambientais — o contrato Bacuri×RT-One entrou nos autos — mas o desmentido da Intel não virou pauta pública municipal.
Impacto ambiental: o que a corrida não diz
A investigação aponta que especialistas universitários alertam sobre o consumo de água e energia, mas prefeituras “pressionadas por promessas de investimento e desenvolvimento econômico fecham os olhos para impactos ambientais negativos”.
Isto é exatamente Uberlândia:
O que foi anunciado (REPORTED):
- R$ 6 bilhões de investimento (Uberlândia)
- “~2 mil permanentes” (Prefeitura/FIEMG) — contestado pelo benchmark UFU ~1 emprego/MW
- 239 mil litros de água por dia (número DMAE minimizado no discurso oficial)
- Energia renovável / “IA verde” (promessa de marketing, sem auditoria pública)
O que não foi dito:
- Impacto na tarifa de energia local quando a subestação de R$ 160 milhões entrar em operação
- Estudos de viabilidade hídrica em contexto de seca recorrente no Triângulo Mineiro
- Impacto no cerrado e na biodiversidade local
- Distinção obra temporária vs. empregos permanentes locais
- Onde a água virá quando o Aquífero Guarani estiver mais seco
Por que “regulação” virou uma palavra invisível
Aos Fatos entrevistou especialistas que afirmam não existir regulação estadual robusta para orientar a instalação de data centers. Cada prefeitura fica responsável por aprovar ou rejeitar — mas sem critérios técnicos, sem parâmetros de impacto ambiental, sem modelos comparativos com outras cidades.
Uberlândia aprovou a RT-One sem:
- Licenciamento ambiental completo (EIA/RIMA)
- Licenças de Prévia, Instalação e Operação (LP/LI/LO)
- Transparência de contratos ou isenções
- Debates públicos estruturados (a audiência de 26/03/2026 na Câmara foi ausente do prefeito)
Regulação é lenta. Incentivo fiscal é rápido.
O silêncio da imprensa local após a checagem
A investigação saiu em nível nacional. Agências de checagem não têm equipes em Uberlândia. A CNN repetiu o anúncio sem as perguntas da ALMG; a imprensa local cobriu a RT-One como “oportunidade” sem questionar as falhas de transparência que a reportagem nacional expõe.
Quando uma agência de verificação de fatos encontra “uso de identidades falsas” e “impacto ambiental ignorado” em data centers brasileiros, a primeira reação de uma prefeitura responsável seria: rever o projeto localmente.
Uberlândia não fez isso.
Diligência que Uberlândia pulou depois da checagem
Checklist mínimo — sem acusação nova, só o que o registro público já pedia:
- Cargo e Intel: pedir à RT-One esclarecimento escrito sobre o título de COO e qualquer menção a parceria Intel após o desmentido
- Contratos e água: publicar contratos municipais, dados de eficiência energética e estudos hídricos (239 mil L/dia no DMAE)
- MPF / meio ambiente: a Câmara poderia cobrar do MP compatibilidade do projeto com regras estaduais — o inquérito ambiental existe; o silêncio municipal sobre identidade, não
- Imprensa local: confrontar o padrão nacional (identidades falsas + impacto ignorado) com o anúncio local de “oportunidade”
- Prefeito na audiência: comparecer e responder — em março, a cadeira ficou vazia
Nenhum desses passos virou procedimento público documentado.
O padrão nacional cabe em Uberlândia
A reportagem descobriu um padrão nacional: identidades falsas, impacto ambiental ignorado, prefeituras seduzidas por promessas. A RT-One se encaixa perfeitamente nesse padrão — e Uberlândia nunca leu o manual que deveria tê-la advertido.
Perguntas frequentes
O Aos Fatos citou a RT-One na matéria sobre identidades falsas?
Sim. A reportagem nomeia a RT-One (Uberlândia e Maringá), o CEO Fernando Palamone e o desmentido da Intel — além do padrão setorial em outras cidades. Síntese local: Palamone desmentido pela Intel.
O que a Intel disse sobre Fernando Palamone?
Em nota ao Aos Fatos: ele não é COO da Intel Corporation e nunca ocupou esse cargo; o LinkedIn “superestima” cargo e responsabilidades. Há ainda narrativa de parceria/cliente Intel igualmente desmentida — sem inventar fraudes novas além do registro público.
Que diligência Uberlândia pulou depois da checagem nacional?
Cobrar esclarecimento escrito sobre cargo/Intel; publicar contratos e estudos hídricos; confrontar o padrão nacional na imprensa local; e o prefeito comparecer às audiências — em março, a cadeira ficou vazia.
Fontes:
- Corrida dos data centers no Brasil ignora impacto ambiental e tem até uso de identidades falsas — Aos Fatos
- Especialistas alertam para alto consumo de água por data centers em meio a incentivos do governo — Jornal da Unesp
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