Gentio do Ouro tem cerca de 11 mil habitantes, fica na região da Chapada Diamantina, no sertão baiano, e já convive com 28 empreendimentos eólicos ativos em seu entorno. Em agosto de 2026, uma investigação do Intercept Brasil e do Mongabay revelou que a Serena, empresa brasileira de energia renovável, protocolou 12 pedidos de autorização para instalar data centers no município — com capacidade combinada de até 270 MW — sem que qualquer um deles tenha passado por licenciamento ambiental convencional. Nenhum dos moradores entrevistados pelas duas redações havia ouvido falar nos projetos.
A energia que sobra e o município que não sabe
A lógica da Serena em Gentio do Ouro segue uma rota que começa nos parques eólicos. A empresa opera geradores na região e, como ocorre em boa parte do Nordeste, parte da energia produzida é cortada do sistema pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) por exceder a capacidade da rede — o fenômeno conhecido como curtailment. Instalar data centers próximos às usinas é uma solução comercialmente atraente: consome a energia que seria descartada e agrega valor à estrutura já existente.
O problema documentado pelos repórteres é outro. Enquanto turbinas eólicas giram e energia é gerada em volumes que o município não consegue absorver, moradores de Gentio do Ouro relatam apagões de até três dias durante períodos de chuva. Reclamam que as contas de energia já estão caras demais. E, segundo a reportagem, não tinham ciência de que uma empresa de médio porte pretendia instalar mais uma dúzia de estruturas de processamento de dados no mesmo território onde já convivem com usinas eólicas que, na prática, não chegaram a gerar riqueza local relevante.
O vazio regulatório que a Serena atravessou
O nó central da investigação é o licenciamento. Os projetos da Serena em Gentio do Ouro não passaram pelo Estudo de Impacto Ambiental (EIA) nem por audiências públicas. Receberam, na melhor das hipóteses, autorizações para “limpeza de terra”.
O motivo documentado pelos repórteres: quando os pedidos foram protocolados, o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia (INEMA) ainda não dispunha de regulamentação específica para data centers. A agência emitiu declarações de “não-aplicabilidade” de licenciamento — interpretando que os projetos não se enquadravam nas categorias existentes que exigiam análise mais rígida. Um decreto com regras próprias para esse tipo de empreendimento foi aprovado pelo INEMA apenas em fevereiro de 2026 e, por ser posterior às solicitações, não se aplica retroativamente aos projetos da Serena.
O segundo elemento identificado pelas reportagens é a fragmentação. Dois dos empreendimentos foram autorizados em três partes distintas, cada uma ocupando 5 hectares. A divisão impediu que o conjunto fosse classificado como projeto de médio porte — o que exigiria análise mais completa do órgão ambiental. O resultado prático: estruturas com capacidade combinada de 270 MW foram aprovadas peça por peça, sem que o INEMA tivesse que avaliar o impacto do todo.
O governo da Bahia, por sua vez, não demonstrou preocupação regulatória. O Bahiainvest, agência estadual de promoção de investimentos, sintetizou a posição oficial em uma frase que circulou na apuração: “Data centers nos interessam porque consomem muita energia.” Do ponto de vista da promoção de investimentos, a demanda elétrica dos data centers é uma virtude — porque sustenta a expansão dos parques eólicos e mantece o ciclo de negócios. A dimensão ambiental ficou de fora da equação declarada.
O que foi prometido e o que chegou
Um data center da Serena já opera em Gentio do Ouro desde 2023. A reportagem investigou quantos empregos permanentes ele gerou para a comunidade local: menos de dez, concentrados em funções de segurança, motoristas e assistentes de construção. Nenhuma posição técnica qualificada foi ocupada por morador do município.
O padrão se repete nos projetos eólicos que precederam os data centers. Gentio do Ouro recebeu R$ 27,3 milhões em receita municipal em 2025, enquanto seus gastos com saúde e educação somaram R$ 45,9 milhões no mesmo período. A arrecadação não cobre as despesas básicas. A chegada de trabalhadores de fora para instalar as turbinas e, agora, os data centers, produziu um efeito colateral mais imediato do que o prometido desenvolvimento: o aluguel de imóveis no município saiu de uma faixa de R$ 500–600 por mês para picos de R$ 2.000–3.000 durante as obras.
O Complexo Assuruá VI e a comunidade Pacheco
O plano mais recente da Serena inclui o Complexo Assuruá VI, uma expansão que prevê pelo menos 91 novas turbinas eólicas em uma área de 8 quilômetros quadrados, na borda da área de proteção ambiental da Lagoa do Itaparica. O complexo fica a poucos quilômetros da comunidade quilombola Pacheco, certificada pela Fundação Cultural Palmares em 2018 e ainda aguardando a titulação pelo Incra.
A Serena inicialmente propôs traçar a rota do complexo pelo território da comunidade. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) analisou o contrato junto com os moradores; a comunidade recusou. Segundo a reportagem do Mongabay, as obras dos parques eólicos já deixaram rastro visível: explosões para abertura de estradas causaram rachaduras em casas da região.
A área de influência do projeto inclui mais de 234 sítios arqueológicos reconhecidos, dos quais já foram resgatados 22 mil artefatos. Data centers instalados em Caatinga nativa, refrigerados com poços artesianos em região de escassez hídrica, adjacentes a patrimônio arqueológico e a território quilombola não titulado: esse é o contexto em que a Serena apresentou seus 12 pedidos sem licença ambiental plena.
O roteiro invisível que se repete
A metodologia identificada em Gentio do Ouro — usar uma lacuna regulatória, fragmentar autorizações, instalar projetos sem audiências públicas e sem que a população soubesse — não é exclusividade baiana.
Em Igaporã, também no sertão da Bahia, a Renova Energia instalou o data center Satoshi I_A para converter energia eólica cortada pelo ONS em mineração de criptomoedas, com um perfil de licenciamento semelhantemente opaco. O caso de Igaporã difere de Gentio do Ouro na empresa, no modelo de negócio e no município, mas compartilha o mesmo vazio: populações que habitam territórios onde a energia é gerada ficam de fora das decisões sobre como ela será consumida.
O que a regulação baiana ainda não fechou
O decreto do INEMA de fevereiro de 2026 criou exigências para novos projetos de data centers no estado. Mas a reportagem deixa aberta a questão: os 12 pedidos da Serena, protocolados antes do decreto, permanecem sujeitos apenas às autorizações já obtidas. Nenhum deles precisará passar por EIA nem por audiências públicas retroativamente. A nova regulação chegou depois que a estrutura já estava montada.
A Serena não respondeu aos pedidos de comentário das duas redações. A prefeitura de Gentio do Ouro também não se manifestou.
O licenciamento como pergunta que não se fecha
O caso de Gentio do Ouro interessa ao debate nacional sobre data centers porque expõe um mecanismo que se reproduz em diferentes estados e contextos: quando o arcabouço regulatório não contempla uma nova categoria de empreendimento, empresas avançam pelo vazio — e os projetos se tornam fatos consumados antes que qualquer revisão pública possa acontecer.
É uma pergunta que também permanece aberta em Uberlândia, onde o projeto da RT-One acumula perguntas não respondidas sobre licenciamento ambiental, consumo de recursos e contrapartidas públicas. O padrão descrito em Gentio do Ouro — empresa instala, população descobre depois, governo aplaude o investimento — não é um acidente de percurso. É o resultado previsível de regulações que não acompanharam a velocidade com que o setor se expandiu.
Fontes
- Intercept Brasil. Empresa de energia renovável quer transformar pequena cidade da Bahia em quintal de data centers. 13 ago. 2026.
- Mongabay. Wind energy surplus fuels unregulated data centers in Brazil’s dry land. 13 ago. 2026.
- Jornal da Chapada. Expansão de data centers em Gentio do Ouro coloca em debate consumo de energia e pressão ambiental. 14 ago. 2026.
- ClimaInfo / Blog do Pedlowski. Maior data center da América do Sul terá licenciamento simplificado no RS. 23 mar. 2026.