205 data centers em um país que já raciona água
O Brasil chegou a 205 data centers. Essa é a narrativa triunfante: o país se posiciona como polo de inteligência artificial, atrai bilhões em investimento externo, e a corrida pelas megaestruturas continua a todo vapor. Uberlândia é ponta de lança — a RT-One e seus R$ 6 bilhões simbolizam essa “liderança”.
Há um problema. O consumo de eletricidade dos data centers vai crescer 11 vezes entre 2026 e 2030. Não duplicar. Não triplicar. Multiplicar por onze.
O marketing verde enquanto a conta vem em kW
Todos os data centers falam de energia renovável. A RT-One em Uberlândia também.
A letra miúda? O Operador Nacional do Sistema Elétrico prevê que data centers exigirão 3,5 GW em 2030 — é a capacidade de uma usina nuclear de médio porte, dedicada exclusivamente a refrigerar máquinas que treinam inteligência artificial.
Onde essa energia virá? Especialistas da USP alertam que a expansão de data centers pode pôr em risco a transição energética do Brasil. A matemática não fecha: se renováveis já abastecem o sistema nacional, e agora vem uma demanda 11 vezes maior de um único setor, alguém vai ficar sem luz. Ou alguém vai queimar gás natural em geradores diessel quando a rede faltar.
Uberlândia já conhece essa história. O data center da RT-One consumirá tanto quanto 1,6 milhão de casas, segundo estimativas locais. A subestação que a Cemig construirá custará R$ 160 milhões. Ninguém — nem prefeitura, nem RT-One, nem Cemig — esclareceu quem vai bancar a expansão da rede quando RT-One disser que precisa de 400 MW em vez de 100 MW.
A água como detalhe menor
Enquanto a conta de luz dispara, há ainda a questão da água.
Data centers em São Paulo crescem e demandam mais água em meio à crise de abastecimento. Uberlândia, que segue o padrão brasileiro de crise hídrica regional, segue aprovando consumo de 239 mil litros por dia — uma gota no oceano de um bilhão de litros que Uberlândia usa diariamente, dizem. Mas gota após gota, o Triângulo Mineiro já se vê pressionado pela escassez.
Nenhum data center se constrói sem refrigeração. Nenhuma refrigeração funciona sem água em abundância. E nenhum investidor anuncia: “Vamos construir um complexo de processamento de dados durante a pior crise hídrica da região em 60 anos.”
11 vezes maior. Em quatro anos.
A extrapolação é simples. Se 205 data centers hoje consomem 1,7% da eletricidade brasileira, e essa fatia cresce 11 vezes até 2030 — enquanto a demanda nacional cresce 3% ao ano —, então data centers passam a competir diretamente com casas, indústrias e cidades por energia escassa.
Nesse cenário, qual prefeito ousaria dizer não a um data center? Qual governador vetaria a subestação da Cemig? A RT-One já venceu essa batalha em Uberlândia, antes mesmo do impacto ser sentido.
O que 205 data centers significam em 2026
Significa que a corrida está acelerada. Significa que cidades como Uberlândia, Maringá e São Paulo competem por atrair a próxima geração de data centers — cada vez maiores, cada vez mais ávidos por eletricidade e água. Significa que empregos prometidos (2 mil em Uberlândia, dizem) são menos relevantes que a infraestrutura de energia que cada complexo exige.
E significa que, daqui a quatro anos, quando 11 vezes mais energia flua pelos centros de dados brasileiros, ninguém se lembrar de hoje — quando tudo ainda cabia nos gráficos otimistas dos investidores.
Fonte: Poder 360 — Brasil chega a 205 data centers, Movimento Econômico — Data centers vão aumentar consumo de energia 11 vezes até 2030, Jornal da USP — Expansão dos data centers pode pôr em risco transição energética, IHU Unisinos — Data centers crescem em São Paulo e demandam mais água em meio à crise de abastecimento
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