Blog

Crise de Água, Sim para Data Centers: A Contradição de Uberlândia em 2026

Enquanto o Triângulo Mineiro enfrenta seca e especialistas alertam que data centers consomem 3-5 milhões de litros/dia, o governo incentiva e Uberlândia aprova o RT-One. Uma ironia hídrica.

5 min read opiniao agua impacto-ambiental rt-one uberlandia crise-hidrica

239 Mil Litros de Água por Dia para Processar Dados Que Ninguém Pediu

Enquanto Uberaba, a 100 km de Uberlândia, corre para construir uma estação de tratamento capaz de adicionar apenas 50% de capacidade (investimento de R$ 50 milhões), o governo federal oferece subsídios fiscais para que empresas construam data centers que consomem 3 a 5 milhões de litros de água diariamente. O RT-One quer 239 mil litros/dia de água da prefeitura de Uberlândia. A contradição não é acidental: é política.


Especialistas Alertam, Governo Incentiva, Prefeito Silencia

Em março de 2026, especialistas de universidades brasileiras (Unesp, IHU) publicaram alertas simultâneos: data centers demandam quantidades absurdas de água em um cenário de crise hídrica recorrente. O Triângulo Mineiro, região onde Uberlândia fica, já enfrenta pressão sobre recursos hídricos. Municípios vizinhos iniciaram obras emergenciais de ampliação de captação.

Ao mesmo tempo, o governo federal publica o Redata — regime de incentivos fiscais especificamente desenhado para atrair data centers ao Brasil. Isenção de impostos de importação, IPI, PIS/COFINS. Redução de 28% no custo de equipamentos. Nenhuma das celebrações governamentais mencionou a ironia: estamos oferecendo subsídios para consumidores intensivos de água em uma região que não tem água suficiente.

O prefeito Paulo Sérgio comemorou o RT-One, ressaltou a geração de empregos (menos de 100 permanentes) e a “escolha” de Uberlândia. Não mencionou a água uma vez.


Os Números Que Não Cabem na Narrativa

Um data center típico consome entre 3 a 5 milhões de litros de água por dia. Isso equivale ao consumo diário de uma cidade com 30 mil habitantes.

O RT-One quer 239 mil litros/dia. Nos primeiros meses de operação, isso é apenas 6-8% do que um data center global médio consome. Mas é suficiente para agravar a pressão sobre aquíferos já sob estresse. E é apenas o Módulo 1 — a empresa quer expandir para 400 MW (atualmente, 100 MW iniciais).

Se o RT-One chegar aos 400 MW (4x seu tamanho atual), seu consumo de água pode chegar a 1-2 milhões de litros/dia. Será que Uberlândia está pronta? Será que o prefeito já fez as contas?


A Máscara da Energia Renovável

O Redata exige que os data centers usem “energia renovável”. Parece proteção ambiental. Não é.

A cláusula refere-se ao mix de energia adquirida — não ao consumo real da empresa. Um data center pode contratar energia renovável (papel) enquanto a rede segue mista. Além disso, o RT-One tem gerador diesel como backup, combustível fóssil que será acionado sempre que a subestação dedicada da Cemig faltar.

A contradição: celebra-se energia “verde” enquanto equipamentos de contingência queimam diesel no subsolo. Ninguém fiscaliza frequência, duração ou emissões do backup.


O Aquífero Guarani Não é Infraestrutura

O Triângulo Mineiro repousa sobre o Aquífero Guarani, um dos maiores reservatórios de água doce da América Latina. Está sendo usado simultaneamente como:

  • Abastecimento municipal (consumo doméstico)
  • Irrigação agrícola (agronegócio)
  • Recarga natural (precipitação)
  • Agora: consumo industrial (data center)

Nenhuma das pressões é isolada. Todas competem pelo mesmo recurso finito. Especialistas alertam que “intensificação de mudanças climáticas, com maior frequência de secas severas”, torna essa competição insustentável.

O governo federal não exige que operadores de data centers divulguem consumo hídrico ou adotem tecnologias mais eficientes. A lei é silenciosa onde deveria ser rigorosa.


A Crise Hídrica que o Prefeito Não Menciona

Entre janeiro e maio de 2026, Uberlândia registrou:

  • Aumento em 96% de incêndios em comparação ao mesmo período de 2025 (55 casos em maio)
  • Secas recorrentes em córregos municipais
  • Pressão sobre o abastecimento em períodos de estiagem

Nenhum desses dados está presente na comunicação do prefeito sobre o data center. É como anuncia uma piscina olímpica em uma cidade que raciona água.


A Ironia Final: Subsídio Público, Desperdício Privado

O estado brasileiro oferece:

  • Isenção de impostos (receita perdida)
  • Subestação da Cemig (infraestrutura pública)
  • Concessão de água (recurso público)

A empresa oferece:

  • Menos de 100 empregos permanentes (maioria terceirizada, salários não divulgados)
  • Consumo massivo de recursos finitos
  • Transferência de dados para servidores internacionais (soberania digital comprometida)

Quem lucra? Acionistas do RT-One e parceiros (Hitachi, Intel, desmentidos em suas próprias declarações). Quem paga? Uberlândia, que vê seus recursos hídricos drenados para processar dados de terceiros.


O Que Fica Claro em Julho de 2026

Estamos em ano de eleição. O prefeito fará campanha com realização. O data center será um símbolo. A água seguirá sendo escassa.

Daqui a dois anos, quando o RT-One estiver em operação, como o prefeito explicará o racionamento de água doméstico enquanto um data center consome 239 mil litros por dia?

A resposta já está pronta, invisível nos documentos que nunca foram publicados: ninguém explicará porque ninguém pediu permissão para perguntar.


Fonte: Instituto Humanitas Unisinos — Emergência Hídrica e Energética

Leia também:

Publicado por:

E

Equipe Data Center Uberlândia

Monitoramento Ambiental e Socioeconômico

Blog independente que documenta os impactos ambientais e socioeconômicos de data centers em Uberlândia (MG).