Data center Uberlândia e crise hídrica: o aprendizado que chegou tarde
Por que Uberlândia aprova data center sob crise hídrica se Tucson rejeitou a Amazon por água? Tucson disse não; Uberlândia disse sim. Em ago/2025 o conselho de Tucson (AZ) votou 7 a 0 contra anexar o terreno do Project Blue (Beale / Amazon): sem anexação, sem água municipal na escala pedida — água, energia e opacidade no processo.
Uberlândia seguiu com o RT-One: 239 mil L/dia no número oficial, até 1,7 milhão L/dia em papéis citados na ALMG, e IGAM sem pedido de outorga sob estiagem e pressão no Triângulo.
Tucson, Georgia, Texas: precedentes que Uberlândia ignorou
| Cidade | Data | Situação | Decisão |
|---|---|---|---|
| Tucson, AZ (Project Blue) | Ago/2025 | Seca + pressão comunitária | Rejeitou anexação / acesso à água da cidade |
| Newton County, GA | 2025 | Pressão hídrica + pedidos industriais | Autoridade: sem água para pedidos na faixa de até ~6 MGD |
| Texas | 2025-2030 | Seca / estresse | Projeção setorial de consumo hídrico de DCs em alta |
| Brasil (nacional) | 2025-2026 | Estiagem | Redata e atração de DCs sob incentivo |
| Uberlândia | 2025-2026 | Estresse hídrico | Aprova narrativa de 239 mil L/dia; outorga IGAM ausente |
A rejeição no Arizona foi em agosto de 2025. Uberlândia já tinha o anúncio do RT-One e seguiu na rota da aprovação política. Tinha precedente. Tinha aviso. Não importou.
O que Tucson viu que Uberlândia não viu
A Câmara de Tucson votou unanimemente. Não era partido. Era risco: anexar terra do condado para liberar água da cidade a um campus que viraria um dos maiores consumidores do sistema. Reportagens locais (AZ Luminaria, Newsweek) registraram também o medo de repasse tarifário de energia e o uso de NDAs no processo — falta de transparência que acelerou a revolta.
Tucson está em deserto. Arizona sufoca com estiagem. Aquíferos caem. Agricultura compete com crescimento urbano. E agora um Project Blue pedindo água potável no começo da operação? Recusado na anexação.
Uberlândia vive em Cerrado. Não é deserto. Tem chuva. Aquíferos (Guarani). Parece abundância. Mas o DMAE trabalha com 239 mil L/dia; a ALMG ouviu até 1,7 milhão; o IGAM não tem outorga pedida. Não é Tucson clone — e ninguém inventa aqui um referendo local. É o mesmo tipo de pergunta: sob estresse, quem decide e com quais números públicos? O discurso de campus “sustentável” não apaga a pegada hídrica.
Newton County e Texas: quando a água não acompanha
Enquanto a anexação era rejeitada por risco hídrico e opacidade, Newton County (Georgia) ilustra o gargalo inverso: a autoridade de água e esgoto sinalizou, em cobertura da imprensa, que não há água para pedidos de data centers na faixa de até ~6 milhões de galões/dia — ordem de grandeza acima da capacidade disponível. Não há aqui um único “projeto negado” com número oficial único; o ponto é o limite físico.
Uberlândia está no mesmo ponto de decisão. O número oficial é 239 mil litros diários; o debate da ALMG expôs a sombra dos 1,7 milhão. Isso é viável sustentavelmente? O DMAE aprovou o menor, mas o parecer completo nunca circulou com transparência plena. O IGAM, na audiência, falou em ausência de outorga e conflito hídrico na região. Ninguém sabe, com documento público, se há água sobrante ou competição com agricultura local.
Prefeitura não publicou auditoria independente de vazão. Não fez o equivalente ao que Tucson forçou: confrontar água, energia e processo à luz do dia. Apenas aprovou a narrativa — receber sem negociar o preço hídrico.
Projeções citadas para o Texas (cobertura Bloomberg / análises regionais) apontam dezenas de bilhões de galões em 2025 e centenas de bilhões anuais até 2030 — cenário, não medição do RT-One. Uberlândia vê a escala global e segue na rota da aprovação política. Crise hídrica já é rotina em boa parte do planeta; o Triângulo Mineiro não está fora do mapa.
Contraste: Tucson rejeitou, Uberlândia aprovou
| Comportamento | Tucson | Uberlândia |
|---|---|---|
| Enfrenta seca / crise hídrica | Sim | Sim |
| Recebe proposta de data center | Sim | Sim |
| Analisa risco hídrico | Sim (conscientemente) | Não (documentado) |
| Consulta comunidade | Sim (audiência pública real) | Não (prefeitura ausente) |
| Rejeita ou aprova | Rejeita (unânime) | Aprova (silenciosamente) |
| Aprende com precedente | Sim | Não |
A diferença não é recurso hídrico. Tucson está pior que Uberlândia. A diferença é responsabilidade cívica — e a vontade de dizer não.
O que Uberlândia deveria ter feito (e ainda pode)
Se tivesse aprendido com Tucson:
- Encomendaria estudo independente de capacidade hídrica
- Realizaria audiência pública real (prefeitura presente, comunidade participando)
- Consultaria agricultores, indústrias locais, residências
- Exigiria diminuição do consumo de água do RT-One
- Criaria protocolo de racionamento sob crise hídrica (data center em Uberlândia para se interromper, não residências)
Nenhuma dessas medidas foi publicada. O silêncio sobre Tucson não é inocência: é escolha. Daqui a anos, outra cidade brasileira pode citar Uberlândia como o precedente do que não fazer — se a cidade continuar aprendendo tarde.
Perguntas frequentes
Por que Tucson rejeitou o Project Blue / Amazon?
O conselho municipal votou 7 a 0 contra anexar o terreno (~290 acres, Beale Infrastructure). Sem anexação, sem acesso à água da cidade na escala pedida — com pressão comunitária por seca, energia e falta de transparência.
Qual o consumo de água do RT-One em Uberlândia?
Oficialmente ~239 mil L/dia (DMAE). Na ALMG circularam documentos atribuídos à empresa com até 1,7 milhão L/dia; o IGAM informou ausência de pedido de outorga.
Uberlândia fez referendo sobre o data center?
Não. Não há referendo local documentado aqui — o contraste com Tucson é de decisão política e números públicos, não de clone institucional.
Fonte: AZ Luminaria — Tucson rejeita Project Blue | Brasil de Fato — ALMG, 239 mil vs 1,7 milhão e IGAM sem outorga | Cloud Computing News — Data centre water consumption creates crisis | Bloomberg — The AI Boom Is Draining Water
Leia também: