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Contrapartidas data centers Brasil: negociação zero

Contrapartidas em data centers no Brasil: pesquisadores alertam que o país recebe investimentos sem exigências. O RT-One em Uberlândia exemplifica.

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Contrapartidas: quando a velocidade substitui a negociação

Sim — o Brasil está recebendo data centers sem negociar contrapartidas reais. Em 27/07/2026, na 78ª Reunião Anual da SBPC (Niterói), pesquisadores alertaram que o país “corre o risco de repetir uma lógica histórica de exploração de recursos naturais sem garantir contrapartidas”.

O problema não é receber investimento. É receber sem exigir monitoramento, auditoria e termos públicos. O RT-One em Uberlândia é o caso local das contrapartidas que faltam.


SBPC e Mauro Oliveira: receber sem negociar

Mauro Oliveira, professor do Instituto Federal do Ceará, resumiu em uma frase o dilema que governa a corrida por data centers: “O problema não é receber data centers. O problema é receber esses investimentos sem negociação. O Brasil precisa definir o que quer exigir em troca”.

No mesmo debate da 78ª Reunião Anual da SBPC, em Niterói, ele pediu o que a corrida por investimento costuma esquecer: monitoramento permanente, auditoria e transparência sobre os projetos — com universidade e sociedade na mesa, não só no impacto.

Essa definição nunca aconteceu. Não em nível nacional. Não em nível municipal. Não em Uberlândia.

Quando a RT-One anunciou em janeiro de 2026 o contrato com a construtora Engemon para edificar o que chama de “maior data center de inteligência artificial da América Latina” — investimento estimado em R$ 6 bilhões, capacidade final de 400 megawatts — o que o município negociou? Quais foram as condições? Qual a contrapartida?

As respostas não existem nos registros públicos.


RT-One em Uberlândia: prova local da não-negociação

O consumo de água — 239,3 mil litros por dia — foi apresentado à população e ao Departamento Municipal de Água e Esgoto como “aprovado” sem impacto na oferta pública. Tecnicamente, o número é factualmente defensável: a cidade possui reservas que não sofrerão colapso com essa demanda isoladamente.

Mas tecnicamente defensável não é estrategicamente inteligente. E definitivamente não é participação pública — nem contrapartida negociada. Na ALMG, a vereadora Amanda Gondim apontou documentos conflitantes: o município fala em ~239 mil L/dia; papéis atribuídos à empresa chegam a 1,7 milhão. O IGAM informou que não há pedido de outorga — e que há áreas de conflito hídrico perto de Uberlândia. Negociar seria publicar e confrontar esses números. Não houve.

A Assembleia Legislativa de Minas Gerais, em audiência pública realizada em 2 de julho de 2026, questionou o projeto. Especialistas e legisladores alertaram sobre consumo de energia, demanda hídrica e impacto estrutural. A prefeitura de Uberlândia não compareceu. A RT-One também não.

Quando a SBPC pede auditoria e transparência, Uberlândia responde com ausência na Comissão de Meio Ambiente. Silêncio é o oposto de negociar.


O que foi negociado (e o que não foi)

A expansão de data centers no Brasil ocorre sob o guarda-chuva do REDATA — Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter — que oferece desoneração fiscal de até cinco anos. O Estado federal cedeu. Estados cederam. Prefeituras cederam. Em Uberlândia, isso aparece como evidência de não-negociação local: a isenção nacional existe; o contrato municipal com contrapartidas mensuráveis, não.

Não há registro público do que foi exigido em troca no município. Os documentos disponíveis não mostram metas de empregos permanentes, investimento na infraestrutura hídrica local nem formas de acompanhar o consumo de água e energia depois que a obra terminar — exatamente o pacote de auditoria que Mauro Oliveira pediu na SBPC.

O projeto de Uberlândia, em sua fase inicial, promete empregos “na construção”. Quantos? Temporários ou permanentes? Contratação local ou deslocada? As respostas variam conforme a plateia que faz a pergunta.


EIA/RIMA ausente: entregar primeiro, regular depois

No mesmo debate, Mauro Oliveira também ligou data centers a energia, soberania digital e controle da infraestrutura — o pacote que gestores públicos costumam separar do “investimento”. Dan Levy (Unifesp), sob a ótica do direito ambiental, ampliou o foco: além de água e energia, poluição sonora, conflitos territoriais e o risco de colonialismo digital — comunidades no Sul arcam com custo enquanto o Norte captura o valor.

Há ainda o risco político de ceder controle sobre infraestrutura crítica sem contrapartida.

Um data center de 400 MW não é um empreendimento comum. Suas demandas de energia deformam a rede local. Suas demandas de água disputam com a população. Seu impacto de calor e ruído afeta vizinhanças. Seu impacto futuro — porque a primeira fase é sempre seguida pela segunda, e a segunda pela terceira — nunca é integrado no licenciamento inicial.

Em Uberlândia, o projeto tramita sem Estudo de Impacto Ambiental (EIA/RIMA). O Ministério Público Federal abriu inquérito civil. A licença ambiental não existe. A empresa continua avançando sob autorização municipal.

Isso é receber investimento sem negociação. É entregar primeiro, regular depois — se houver pressão suficiente.


Exploração de recursos: o padrão que a SBPC nomeou

Mauro Oliveira nomeou claramente o risco: Brasil “repete uma lógica histórica de exploração de recursos naturais”. Não é metáfora. É diagnóstico.

Ouro, café, petróleo, madeira: os padrões são conhecidos. Recurso estratégico entra, lucro sai, comunidade local fica com impacto ambiental e débito ecológico. O que muda nos data centers é que o recurso extraído não é mais visível — é energia, água, capacidade de refrigeração ambiental, espaço urbano.

E a narrativa que acompanha mudou de nome, não de lógica. Onde havia “desenvolvimento”, agora há “oportunidade”. Onde havia “progresso”, agora há “modernização”. Onde havia “necessidade nacional”, agora há “vantagem competitiva”.

A urgência mudou de cenário, não de propósito.


O que Uberlândia deveria ter negociado (e ainda pode)

A prefeitura de Uberlândia tem uma oportunidade que, diferentemente da “janela de 3 anos” do setor, ainda está aberta: negociar contrapartidas reais em troca da instalação.

Não é rejeitar o projeto. É exigir transparência sobre os termos. É questionar porque um investimento bilionário entra sem submissão a EIA/RIMA, sem audiência pública vinculante, sem contrato público. É definir benefícios mensuráveis: quanto a RT-One investe em infraestrutura hídrica? Quantos postos permanentes? Qual compensação ambiental?

Pesquisadores federais e estaduais estão dizendo, publicamente, que essa negociação é necessária. A Assembleia Legislativa está questionando. O Ministério Público está investigando.

Falta a prefeitura reconhecer que ceder sem negociação não é agilidade — é abdicação de responsabilidade pública.


Perguntas frequentes

O Brasil exige contrapartidas para receber data centers?

Na prática, não de forma vinculante e pública. O debate da SBPC em Niterói (jul/2026) partiu justamente do alerta de que o país recebe investimentos sem definir o que quer exigir em troca.

O que Mauro Oliveira e a SBPC pediram?

Negociação explícita: monitoramento permanente, auditoria e transparência — com universidade e sociedade na mesa, não só no impacto.

O RT-One em Uberlândia tem contrato público de contrapartidas?

Não nos registros públicos. Há isenção Redata em nível federal; no município não há metas publicadas de empregos permanentes, investimento hídrico nem auditoria de consumo — e Prefeitura e RT-One faltaram à audiência da ALMG em 02/07/2026.


Fonte: Agência Brasil — Brasil precisa garantir contrapartidas para receber data centers; Data Center Dynamics — RT-One contrata a Engemon para a construção de um data center de IA em Uberlândia; Assembleia Legislativa de Minas Gerais — Meio Ambiente questiona projeto de data center em Uberlândia


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Publicado por:

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Equipe Data Center Uberlândia

Monitoramento Ambiental e Socioeconômico

Blog independente que documenta os impactos ambientais e socioeconômicos de data centers em Uberlândia (MG).