100% renovável? A conta chega em 160 milhões
A RT-One faz questão de enfatizar: seu data center será alimentado por energia 100% renovável. Uma promessa verde, limpa, sustentável. Bonita no discurso.
Mas existe um detalhe que estranhamente desaparece dos comunicados oficiais: para que essa energia renovável chegue aos servidores, a Cemig vai investir R$ 160 milhões em uma subestação dedicada. Apenas para o RT-One.
Energia limpa tem custo. E esse custo não é do RT-One.
Quem constrói a infraestrutura? Quem paga?
Quando se anuncia que Uberlândia receberá um data center com “investimento de R$ 6 bilhões”, a narrativa sugere que a empresa vem com tudo pronto — infraestrutura, energia, água. Propaganda imobiliária básica.
A realidade: a Cemig anuncia a construção de duas novas subestações na região de Uberlândia, com custo de R$ 160 milhões, para expandir a capacidade de energia de 300 MVA para 450 MVA. Uma delas é especificamente para alimentar o data center.
A empresa privada quer o lucro. O cidadão uberlandense quer a conta.
A expansão silenciosa: de 100 MW para 400 MW
No começo, o discurso era simples: “100 MW de potência inicial”. Números redondos, controláveis, tranquilos.
Mas logo vem a letra miúda: expansão para até 400 MW. Ou seja, 4 vezes mais demanda de energia.
Pense no que 400 MW representa:
- Segundo estudos do MIT, os data centers devem dobrar seu consumo de energia no Brasil nos próximos anos, passando de 1,7% para 3,9% do total nacional
- Uma unidade de 400 MW é capaz de abastecer uma cidade de 200 mil pessoas
- Uberlândia tem 680 mil habitantes
Aquela subestação de R$ 160 milhões? Vai precisar de mais.
O mix energético que ninguém menciona
Quando dizem “energia renovável”, a imagem é clara: painéis solares, turbinas eólicas, tudo limpo. A realidade do Brasil é mais complexa.
A energia que chega pela subestação da Cemig vem de um mix nacional que inclui:
- Hidrelétricas (maioria, sim)
- Termelétricas a gás e carvão
- Usinas nucleares
- Eólica e solar (crescente, mas ainda minoritária)
Chamar de “100% renovável” um consumo que se integra à rede nacional é, no mínimo, uma meia-verdade.
Tabela: Quem paga pelas obras?
| Investimento | Responsabilidade | Cidadão paga? |
|---|---|---|
| R$ 6 bilhões (data center) | RT-One | Não (em teoria) |
| R$ 160 milhões (subestação Cemig) | Cemig/governo | Sim (na tarifa de luz) |
| Consumo de energia (400 MW expandido) | RT-One | Não (tarifa comercial, não residencial) |
| Impacto na rede elétrica local | Todos | Sim (risco de apagões, flutuações) |
A trapaça do “progresso”
O discurso oficial é sempre o mesmo: “é progresso”, “atrai investimento”, “gera empregos”. E é verdade que traz alguns empregos — menos de 100 permanentes, aliás.
Mas progresso para quem?
- Para o RT-One: acesso a energia barata, garantida pelo Estado
- Para o cidadão uberlandense: uma conta de luz cada vez mais cara e a responsabilidade de manter uma infraestrutura massiva funcionando
A Cemig não faz milagre. Não constrói subestações de R$ 160 milhões por altruísmo. Isso entra na receita da empresa, que repassa aos consumidores — você — via aumento de tarifa.
A promessa verde que custa caro
RT-One vende uma imagem: uma empresa moderna, responsável, que investe em “energia 100% renovável”. É a narrativa do século 21, a história que os investidores querem ouvir.
Mas essa promessa verde tem uma contra-partida invisível: R$ 160 milhões em infraestrutura pública, R$ 160 milhões que poderiam ir para educação, saúde, transporte em Uberlândia.
Ao invés disso, saem da Cemig, entram na tarifa de vocês, e sustentam um projeto que será isento de impostos federais por 5 anos.
É a mais antiga das trocas: promessas no topo da montanha, contas na base.
Fonte: Portal da Prefeitura de Uberlândia — Investimentos Cemig; Mobile Time — Subestação dedicada
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