Cerrado data center Uberlândia: o bioma que ninguém mencionou
O Cerrado data center Uberlândia — a RT-One — pressiona o bioma sem avaliação pública de biodiversidade. Já se perdeu ordem de ~48% da vegetação nativa histórica (MapBiomas: ~51% ainda nativa / ~48% sob uso humano); só 8,21% está legalmente protegido (ICMBio via CNN). Entre 1985 e 2024, a perda monitorada soma ~40,5 milhões de hectares. O 1º sítio anunciado previa ~1 milhão m² em zona rural do Triângulo; com a seleção de nova área, o vazio de inventário fauna/flora, corredores e compensação biológica permanece — e Paulo Sérgio nunca postou sobre o bioma.
Números do bioma ameaçado
| Métrica | Status (fonte) |
|---|---|
| Vegetação nativa remanescente | ~51% do bioma (MapBiomas Coleção 10) |
| Uso humano / conversão histórica | ~48% (mesma linha MapBiomas) |
| Perda 1985–2024 | ~40,5 milhões de hectares (MapBiomas / cobertura CNN–IPAM) |
| Áreas protegidas legalmente | 8,21% do bioma (ICMBio) |
| Desmatamento 2025 (Alerta) | 540.614 ha — 54,9% do total nacional (MapBiomas) |
O bioma segue perdendo terreno — literalmente. (PRODES/INPE e MapBiomas Alerta usam metodologias distintas; a fatia anual 2025 vem do Alerta.) Uberlândia aprova campus justo quando o entorno está no limite.
O que a RT-One consome do bioma
O anúncio da fase 1 previa ~1 milhão de metros quadrados no Triângulo; mesmo sem desmatamento direto (área já convertida), qualquer campus na mesma escala pressiona por:
- Energia: subestação Cemig redimensionada
- Água: 239 mil litros diários do Rio Claro, que atravessa zona do bioma e recarrega o Guarani
- Emissões: transporte, construção, operação
- Fragmentação: infraestrutura que divide habitats — Pequis e Monte Hebrom na zona de influência do 1º sítio anunciado
- Demanda indireta: expansão urbana e pressão sobre uso do solo
Nenhum EIA quantificou isso porque nenhum EIA foi exigido — o mesmo vazio que o hub “verde” nacional trata como detalhe.
Licenciamento sem biodiversidade: o que não está documentado
O vazio é concreto — e nenhum rival no SERP lista a combinação bioma × campus × município:
| O que um EIA de biodiversidade pediria | O que está público sobre RT-One |
|---|---|
| Inventário de fauna/flora do bioma | Não publicado |
| Corredores ecológicos / fragmentação | Não publicado |
| Ciclo hidrológico / recarga (Guarani) | Vazão DMAE sim; vínculo ecossistema não |
| Compensação biológica mensurável | Não publicada |
| Monitoramento pré/pós instalação | Não publicado |
| LP/LI/LO com condicionantes de bioma | Limbo — sem EIA/RIMA pleno |
O marketing destaca ~300 mil m² de APP. APP de margem/nascente é obrigação do Código Florestal — não inventário de biodiversidade. Preservação no brochure; bioma sem estudo no processo.
Discurso nacional vs pressão local
Enquanto Brasília comemora redução de desflorestamento (-8,2% de ago/2025 a mai/2026), cidades como Uberlândia aprovam projetos que pressionam o bioma indiretamente.
É possível reduzir desmatamento direto e, ao mesmo tempo, aprovar infraestrutura que aumenta consumo de água de rios do bioma, pressiona reservatórios e atrai migração urbana. Estatísticas nacionais melhoram; biomas regionais degradam.
Pressão cumulativa sem estudo de impacto
Cerca de metade da vegetação nativa já foi convertida. Cada novo projeto que pressiona água, energia e solo é carga adicional sobre sistema saturado.
A RT-One, isoladamente, talvez não destrua o bioma. Mas é mais uma instalação frágil — mais vazão, mais reservatório, mais uso do solo. Antes de aprovar, Uberlândia e Minas deveriam ter encomendado impacto cumulativo e compensação biológica. Nada foi publicado. A UFU não emitiu parecer específico. Silêncio científico é permissão política. Paulo Sérgio não fala do bioma.
Custo invisível: o bioma que ninguém escolheu sacrificar
O bioma fornece recarga (Guarani), clima local, biodiversidade (~10% da fauna brasileira), polinização e amortecimento de seca. Cada hectare pressionado custa água e clima futuros.
Uberlândia aprova campus consumindo água do bioma que protege seus recursos hídricos — sem inventário no pacote de impactos da RT-One. Quando a pressão acumulada vencer, ninguém dirá “foi porque aprovamos um campus no Triângulo”. Dirá: desmatamento, agricultura, urbanização. Cada projeto individual é invisível. A soma é extinção.
Fonte: CNN Brasil — Dia do Cerrado: O bioma mais desmatado vive sob ameaça | MapBiomas — Desmatamento no Brasil fica abaixo de 1 milhão de hectares em 2025 | INPE — Dados do PRODES sobre desmatamento
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