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Cerrado em risco: o RT-One pressiona bioma mais ameaçado do Brasil

Cerrado perdeu 93 milhões de hectares. Uberlândia aprova data center em zona rural do bioma sem mencionar impacto na biodiversidade.

6 min read opiniao cerrado bioma rt-one uberlandia desmatamento

O Cerrado que Uberlândia não mencionou

O Cerrado é o bioma mais desmatado do Brasil. Perdeu 93 milhões de hectares de vegetação nativa — quase metade de sua extensão original. Tem apenas 8,21% de área legalmente protegida. É um bioma em colapso.

Uberlândia está no Triângulo Mineiro, região de Cerrado.

O RT-One será instalado em zona rural, a 1 milhão de metros quadrados de terra aberta.

Nenhum documento publicado pela prefeitura mencionou impacto no bioma. Nenhuma audiência pública discutiu conservação do Cerrado. O prefeito Paulo Sérgio nunca postou sobre biodiversidade.

Porque é mais fácil ignorar.


Os números do Cerrado em colapso

MétricaStatus
Vegetação nativa perdida93 milhões de hectares
Percentual de extensão original perdida~48%
Áreas protegidas legalmente8,21% do bioma
Bioma mais desmatado do BrasilSim, com 54,9% de todo desmatamento
Desflorestamento detectado em 2025540.614 hectares (ainda alto, apesar de redução)

O Cerrado segue perdendo terreno — literalmente.

Uberlândia aprova data center justo quando o bioma que a rodeia está no limite.


O que um data center consome do bioma

O RT-One ocupará 1 milhão de metros quadrados. Mesmo que não haja desmatamento direto (terreno já urbanizado ou agricultura), a instalação pressiona o bioma por:

  • Energia: subestação Cemig redimensionada, impactando cadeia produtiva
  • Água: 239 mil litros diários do Rio Claro, que atravessa zona de Cerrado
  • Emissões: serviços de transporte, construção, operação
  • Fragmentação: infraestrutura que divide habitats naturais
  • Geração de demanda indireta: expansão urbana, maior pressão sobre uso do solo

Nenhum Estudo de Impacto Ambiental (EIA) quantificou isso para Uberlândia porque nenhum EIA foi exigido.


A proteção que não existe

Uberlândia deveria ter áreas de Cerrado protegido. Deveriam estar mapeadas. Deveria haver protocolo de preservação. Deveria ter Estudo de Impacto de Vizinhança incluindo biodiversidade.

Provavelmente nada disso existe documentado publicamente.

Porque no Brasil, “proteção” muitas vezes significa “espera-se que não destrua”. Não há regulação ativa, não há auditoria, não há transparência.


O contraste com o discurso nacional

Enquanto Brasília comemora redução de desflorestamento no Cerrado (-8,2% de agosto/2025 a maio/2026), cidades como Uberlândia aprovam projetos que pressionam o bioma indiretamente.

É possível reduzir desmatamento direto enquanto aprova-se infraestrutura que:

  • Aumenta consumo de água de rios que atravessam Cerrado
  • Exige energia que pressiona sistema de reservatórios que abastecem Cerrado
  • Atrai migração urbana que expande ocupação sobre bioma

Estatísticas nacionais podem melhorar enquanto biomas regionais se degradam.


O silêncio sobre biodiversidade

Nenhum relatório municipal sobre RT-One menciona:

  • Espécies de fauna do Cerrado que podem ser afetadas
  • Flora nativa da região
  • Ciclos hidrológicos do bioma
  • Corredores ecológicos
  • Protocolo de compensação ambiental

Porque tudo isso é invisível quando não é documentado.

Uberlândia aprova data center sem falar do Cerrado que o rodeia. É como construir em floresta sem olhar para árvore.


A pressão que se acumula

Cerrado já perdeu 48% de sua vegetação nativa. Cada novo projeto que pressiona água, energia, solo do bioma é pressão adicional sobre um sistema já saturado.

O RT-One, isoladamente, talvez não destrua o Cerrado. Mas é mais uma instalação sobre bioma frágil. É mais demanda de água. É mais pressão sobre reservatórios. É mais intensificação do uso do solo.

E ao lado do RT-One, quantos outros projetos virão? Mais data centers? Expansão de agricultura? Mineração?

Uberlândia não tem plano de limite. Não tem zoneamento que proteja Cerrado. Tem apenas prefeito que posta sobre desenvolvimento enquanto bioma desaparece.


A pesquisa que ninguém encomendou

Antes de aprovar o RT-One, Uberlândia (e Minas Gerais) deveria ter encomendado pesquisa:

“Qual o impacto cumulativo da instalação de data centers sobre biodiversidade do Cerrado local? Como as alterações hidrológicas afetam fauna? Quais espécies dependem dos aquíferos que abastecem o RT-One? Qual protocolo de compensação biológica é apropriado?”

Nenhuma pesquisa foi publicada. Nenhuma universidade foi consultada (UFU, que fica em Uberlândia, nunca publicou parecer específico sobre impacto em Cerrado).

Silêncio científico é permissão política.


O que outras cidades aprenderam tarde

Cidades em outros países que aprovaram data centers sem proteção de biomas aprenderam tarde:

  • Aquíferos locais contaminados
  • Mudanças em microclima afetando biodiversidade
  • Espécies-chave desaparecendo
  • Correntes de recuperação praticamente impossíveis

Uberlândia tem chance de não repetir esses erros. Tem chance de exigir proteção real do Cerrado como condição para RT-One operar.

Não vai exigir. Porque Paulo Sérgio não fala sobre bioma.


O custo invisível da perda

O Cerrado fornece:

  • Recarga de aquíferos (Guarani, que abastece região)
  • Regulação de clima local
  • Biodiversidade (10% de toda fauna brasileira)
  • Polinização (essencial para agricultura)
  • Amortecimento de seca

Cada hectare perdido (ou pressionado) tem custo real. Custa água para futuro. Custa polinização. Custa clima.

Uberlândia aprova data center consumindo água do bioma que protege seus próprios recursos hídricos. É degradação de bem comum em troca de lucro privado.


O que deveria estar documentado

Qualquer aprovação responsável de data center em zona de Cerrado exigiria:

  1. Diagnóstico de biodiversidade anterior à instalação
  2. Protocolo de proteção de fauna/flora específico
  3. Monitoramento contínuo de espécies-chave
  4. Compensação ambiental (ex: restauração de Cerrado nativo)
  5. Limite de consumo de água respeitando ecossistema

Uberlândia tem zero disso documentado publicamente.


O Cerrado que ninguém escolheu sacrificar

Quando o Cerrado finalmente desaparecer — se não conseguir se recuperar da pressão acumulada — ninguém dirá “foi porque aprovamos um data center em Uberlândia”.

Dirá: “foi desmatamento”, “foi agricultura”, “foi urbanização”.

Ninguém contabiliza a pressão cumulativa. Ninguém conecta data center em Uberlândia à redução de polinizadores. Ninguém liga consumo de água do RT-One à seca em aquífero do Cerrado.

Cada projeto individual é invisível. A soma deles é extinção.


Fonte: CNN Brasil — Dia do Cerrado: O bioma mais desmatado vive sob ameaça | INPE — Dados do PRODES sobre desmatamento

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Publicado por:

E

Equipe Data Center Uberlândia

Monitoramento Ambiental e Socioeconômico

Blog independente que documenta os impactos ambientais e socioeconômicos de data centers em Uberlândia (MG).