O profeta e a hidrelétrica
O presidente da Fiemg, Flávio Roscoe, concedeu uma entrevista ao Diário do Comércio e descobriu, com a solenidade de quem anuncia a chegada da luz a uma vila remota, que “os data centers são fundamentais para a nova sociedade que está surgindo”. Apenas UAU pra essa fala!
Roscoe foi além. Comparou o atual momento ao início da eletrificação no País, “com a construção das primeiras hidrelétricas”. A analogia é generosa. As hidrelétricas geram energia e levaram progresso a regiões inteiras. O data center da RT-One, em Uberlândia, consome 400 MW — o equivalente a quase 200 mil residências — para treinar modelos que respondem “eu como modelo de IA não posso garantir mas…” quando você pergunta qualquer coisa. Um gera. O outro devora. Mas o espírito é o mesmo, suponho.
A Fiemg, aliás, já esteve no palco do anúncio conjunto com a prefeitura e a Cemig em fevereiro. Não é um observador neutro. É parte do arranjo.
”Estruturas que empregam pessoas altamente qualificadas”
O ponto alto do raciocínio vem quando o dirigente afirma, com a autoridade de quem enuncia uma lei da física: “são estruturas que empregam pessoas altamente qualificadas”.
Verdade. Empregam, em média, algumas dezenas de engenheiros e técnicos por instalação. O data center da RT-One em Uberlândia gera menos de 100 empregos permanentes — a maioria mão de obra especializada importada de fora, não o morador do Pequis que o prefeito visitou em abril.
Uma fábrica do mesmo porte empregaria milhares. Um data center emprega dezenas. Roscoe fala de “pessoas altamente qualificadas” como se isso compensasse o número. Não compensa. Qualificação alta e número baixo significam, em português claro, que o emprego não é para o mineiro médio — é para o engenheiro que a empresa traz de São Paulo ou do exterior.
A Fiemg agora “articula ações para fomentar a qualificação de mão de obra”. Em burocratês, isso se traduz aproximadamente em: vamos montar uma comissão que formará um grupo de trabalho que emitirá um relatório. Enquanto isso, o data center avança sem licença ambiental.
Hidrelétrica vs. data center: a tabela que Roscoe não mostrou
| Aspecto | Hidrelétrica (a analogia) | Data center da RT-One (a realidade) |
|---|---|---|
| Energia | Gera megawatts para o grid | Consome 400 MW do grid |
| Água | Aproveita o curso do rio | 239 mil litros/dia, não devolve |
| Empregos | Milhares na construção e operação | Menos de 100 permanentes |
| Licenciamento | EIA/RIMA, licença prévia, instalação, operação | Nenhum até agora |
| Beneficiário | População e indústria local | Clientes estrangeiros da nuvem |
| Duração | Décadas de energia | Décadas de consumo |
A analogia com hidrelétrica funciona se você inverter o sinal. Uma gera, a outra consome. Uma é licenciada, a outra tramita em limbo. Uma emprega milhares, a outra emprega dezenas. Fora isso, idêntica.
”Tende a compensar”
Depois vem o escape clássico: “apesar do consumo de energia, o ganho em eficiência e produtividade tende a compensar esse impacto”.
O verbo “tender” é o amigão dos discursos corporativos. Não é “compensa”. Não é “comprovadamente compensa”. É “tende”. Como uma dieta tende a funcionar, como a reforma tributária tende a sair do papel, como o trem-bala tende a chegar um dia. Tende, mas ninguém assina embaixo.
Roscoe também decreta que “todos os data centers do mundo deveriam priorizar países com energia limpa”. Pare para absorver a profundidade. As multinacionais certamente aguardavam o aval da Fiemg para tomar tal decisão. Ainda bem que ele falou.
A ironia é que o data center da RT-One, tão ligado à “energia limpa”, mantém geradores a diesel de backup para garantir uptime. Energia limpa na fala, diesel no tanque. Quando a rede falha — e falha —, o “ganho em eficiência” cheira a enxofre.
A pergunta que a entrevista não responde
Roscoe encerra dizendo que a presença de data centers em Minas é “fundamental e estratégica”. Dois adjetivos que, na língua dos dirigentes sindicais, significam aproximadamente: não temos ideia dos números, mas soa bem em entrevista.
A Fiemg não representa trabalhadores, comunidades locais, o Cerrado nem o Aquífero Guarani. Representa indústrias e interesses patronais — como já documentamos. Quando a federação diz que algo é “estratégico”, a pergunta certa é: estratégico para quem?
Para o morador do Monte Hebrom que vai dividir água com um complexo de 1 milhão de metros quadrados, a estratégia não está clara. Para a Cemig, que ganha um cliente de 400 MW, está claríssima.
Que venham os data centers, que venham as multinacionais, que venha a “nova sociedade”. E que a Fiemg continue “articulando ações” — porque se há uma coisa que essa instituição domina com altíssima qualificação, é o verbo tender.
Fonte: Diário do Comércio — Uberlândia negocia com multinacionais expansão de data centers
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