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Redata, R$ 15 bilhões e rescisão: O padrão dos data centers no Brasil

RT-One rescinde terreno Uberlândia após 7 meses. Redata subsidia equipamentos, não compromisso. Padrão: anúncio bilionário, silêncio, abandono. Quem paga?

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De R$ 6 bilhões anunciados a nenhum terreno confirmado em sete meses

Em setembro de 2025, a RT-One anunciou R$ 6 bilhões para um data center de inteligência artificial em Uberlândia — descrito como “o maior da América Latina”. A empresa afirmou ter adquirido quase 1 milhão de metros quadrados na zona rural oeste da cidade. O anúncio circulou em mídia especializada, em comunicados municipais e foi amplificado como “maior investimento privado da história” de Uberlândia.

Três meses depois, em dezembro de 2025, a RT-One anunciou R$ 15 bilhões para três data centers no Brasil. Assumiu compromissos de financiamento, assinou arrendamento de 96 hectares em Uberlândia e reforçou a narrativa de escala.

Sete meses depois, em julho de 2026, a RT-One rescindiu o contrato do terreno. O comunicado oficial cita “fatos supervenientes envolvendo as administradoras” do fundo proprietário — referência ao FII Bacuri, cujas gestoras figuram em investigações do Banco Master. A empresa disse que está buscando “nova área em Uberlândia e outras localidades”. Sem prazo. Sem confirmação de compromisso.

O padrão está documentado: anúncio → silêncio → rescisão. A questão é se esse padrão é acidental ou inerente ao modelo de negócio apoiado pelo Redata.


O que o Redata realmente faz — e o que não faz

Sancionada em setembro de 2026 como Lei 15.504, o Redata criou um regime especial de tributação para data centers que suspende impostos federais: IPI, PIS/Cofins e Imposto de Importação. O governo estima perda de arrecadação em torno de R$ 5,2 bilhões em 2026, reduzindo para R$ 1 bilhão nos anos seguintes.

A suspensão vale por cinco anos — um período que, segundo o anúncio de septembro de 2026, seria suficiente para empresas construírem e operarem data centers. Não é.

Três limitações de projeto que a cobertura mediática omite

1. O Redata cobre equipamentos, não infraestrutura

A isenção fiscal aplica-se exclusivamente a equipamentos de TI e comunicação: servidores, roteadores, switches. Não cobre a construção do edifício, a subestação elétrica, as torres de refrigeração, nem a preparação do terreno. Na RT-One, segundo reportagem especializada, a subestação dedicada da Cemig foi orçada em R$ 160 milhões — custo que fica integralmente fora do Redata. A construção do prédio, contratação de mão de obra, e infraestrutura de acesso também ficam fora.

2. O Redata não garante que a obra saia do papel

A suspensão dos tributos é condicional a aprovação do Ministério da Fazenda. Mas a aprovação não é comprovação de execução. Pode ser concedida a uma empresa que anuncia R$ 15 bilhões, assina contratos, e depois rescinde o terreno. Nenhuma cláusula do Redata obriga a empresa a construir. Obriga apenas a respeitar:

  • Oferecer mínimo 10% da capacidade ao mercado doméstico
  • Usar energia limpa ou renovável
  • Investir 2% do valor dos equipamentos em pesquisa e desenvolvimento

Se o data center não sai do papel, a empresa não paga os tributos suspensos — mas também não assume multa pela não execução. A bênção fiscal é concedida por antecedência, não por resultado.

3. Redata não cobre o maior imposto: o ICMS estadual

Comentaristas especializados em direito tributário apontam que o ICMS — imposto estadual sobre circulação de mercadorias e serviços — é a maior carga fiscal para data centers no Brasil. O Redata, sendo regime federal, não o elimina. Estadualmente, cada governo define suas próprias isenções. Em Minas Gerais, a RT-One pediu dispensa de ICMS; a decisão segue sem publicação.

A soma não bate

Se o Redata subsidia equipamentos (que saem do país ou são importados) e não infraestrutura (que fica no Brasil), o incentivo funciona como redução de custo privado, não como garantia de investimento local. A empresa que consegue baixar o custo dos servidores em 20% a 30% por meio das suspensões, mas não consegue financiamento para a subestação ou não encontra terreno com proprietário confiável, pode simplesmente sair. E o que a cidade perdeu? Tempo de análise ambiental, promessas de empregos, consumo de energia contratado em projeção — e nenhuma contrapartida.


O mapa da promessa: 26,2 GW anunciados contra menos de 1 GW em operação

A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) contabilizou, em novembro de 2025, pedidos de conexão à rede básica somando 26,2 gigawatts de capacidade para data centers — um volume colossal. Para contexto: a capacidade em operação no país é estimada em menos de 1 GW.

Isso significa que os projetos anunciados representam uma demanda 26 vezes superior ao que hoje existe em funcionamento. Não estão todos em execução. Muitos permanecem em promessa.

A velocidade corporativa vs. o passo da cidade

O setor apresenta esse volume à imprensa como oportunidade estratégica — Brasil disputando o investimento global em IA e cloud. Documentos internos da indústria descrevem a velocidade como fator competitivo: quanto mais rápido a empresa conseguir ter o site aprovado municipalmente, quanto mais rápido obter as licenças ambientais, quanto mais rápido conectar na rede, melhor.

Uberlândia é exemplo de como essa pressa colide com o passo das cidades. Em setembro de 2025, anúncio oficial da terra (1 milhão de m²). Em fevereiro de 2026, a prefeitura confirma que a RT-One ainda precisa solicitar licença ambiental à Secretaria de Meio Ambiente — porque o terreno fica em zona rural, fora do perímetro urbano. Sem EIA/RIMA, não há LP (Licença Prévia). Em julho de 2026, o terreno é rescindido.

A empresa precisava de meses só para formalizar o que havia “adquirido”. Antes mesmo do primeiro estudo técnico ser publicado, o compromisso desapareceu.


Quem paga quando o projeto some

Uberlândia tomou medidas administrativas para o data center:

  • DMAE (serviço municipal de água) recebeu pedido de vazão contínua de 2,77 L/s — 239 mil litros por dia
  • Cemig foi contratada pela RT-One para executar subestação de R$ 160 milhões de capacidade dedicada
  • MPF abriu inquérito civil em setembro de 2025 para analisar medidas ambientais do município
  • Prefeitura analisou rede de energia, iluminação e condicionantes urbanas a partir de pedidos do fundo proprietário — o mesmo fundo que depois rescindiu

Se o projeto se materializa em Maringá ou em outra cidade (como a RT-One agora estuda), Uberlândia permanece com:

  • Análises ambientais pendentes ou anuladas
  • Capacidade de subestação dimensionada para um cliente que saiu
  • Consultoria absorvida pelo poder público municipal
  • Promessas de empregos convertidas em nada

Se o projeto termina nunca saindo do papel em lugar nenhum, a isenção fiscal foi concedida para quê?


A narrativa da urgência vs. os dados de inércia

O Redata foi justificado com argumento de urgência: o Brasil precisa acompanhar a demanda global de dados, correr antes que a concorrência tome os investimentos, usar a vantagem da energia renovável como marketing.

A reportagem especializada (Brasscom, mídia, governo) amplificou números:

  • “R$ 92 bilhões em investimento até 2031”
  • “R$ 500 bilhões a R$ 1 trilhão em investimentos tecnológicos induzidos pelo Redata”
  • “Disputa entre cidades e estados por data centers”

Números grandes legitimam pressa. Pressa legitima simplificação regulatória. Simplificação regulatória beneficia quem entra primeiro, não quem constrói.

A RT-One está em três cidades (Uberlândia, Maringá e mais uma). Capitou R$ 15 bilhões em financiamento. Rescindiu o principal terreno anunciado. Rejeita detalhar contratos. Seu CEO foi desmentido pela Intel sobre vínculo corporativo. E a empresa continua sendo descrita pela imprensa como jogadora estratégica no setor.


O que não é levantado no debate público

Quando um data center é anunciado em uma cidade, a narrativa corporativa (IA, soberania, investimento) toma conta do espaço discursivo. As perguntas que ficam para trás:

  • Qual é a taxa de execução de projetos anunciados?
  • Quantos data centers chegam à operação no prazo proposto?
  • Qual é o histórico de empresa que propõe o investimento?
  • Quem financia o projeto e qual é a solidez financeira?
  • Qual é a cláusula de penalidade se não executa?
  • O terreno é próprio ou alugado? De quem?
  • Se for alugado, qual é a segurança de permanência?
  • Qual é a transparência contratual?
  • Que contrapartidas devem ser públicas?

Nenhuma dessas perguntas é respondida pelo Redata. O regime fiscal responde apenas à pergunta “Como reduzir custo?”, não “Como garantir execução?”.


Fechamento: Do anúncio à rescisão, sempre a cidade que fica

Em novembro de 2025, a EPE registrou 26,2 GW de pedidos de conexão para data centers. Se todos saírem do papel, a demanda elétrica aproximadamente dobrará em quatro anos, segundo análises setoriais. O Brasil terá de expandir geração, transmissão e distribuição.

Essa expansão sai do orçamento público. Subestações da Cemig que vão dedicadas para empresas, depois rescindidas, somam custo. Análise ambiental de terrenos que viram vazios de novo soma custo. Reuniões de licenciamento, estudos hidrológicos, relatórios de tráfego — tudo absorvido pela cidade.

Enquanto isso, a RT-One anuncia R$ 15 bilhões, obtém isenção fiscal Redata para equipamentos que ainda não sabe onde instalar, e avisa que Uberlândia pode não ser o destino.

A escala do anúncio não prova solidez. A isenção fiscal não garante execução. E a velocidade da empresa não está atrelada a nenhuma responsabilidade com a cidade.

O padrão dos data centers no Brasil não é investimento. É especulação em cidades. Escala de cifras, nenhuma cifra de compromisso.


Fontes


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Publicado por:

E

Equipe Data Center Uberlândia

Monitoramento Ambiental e Socioeconômico

Blog independente que documenta os impactos ambientais e socioeconômicos de data centers em Uberlândia (MG).