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Soberania de dados: o RT-One enriquece estrangeiro, Brasil paga ambiental

Brasil expande data centers estrangeiros em nome de IA. Resultado: dependência tecnológica se aprofunda; impactos ambientais ficam locais.

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A infraestrutura que não é nossa

Brasil está investindo US$ 33 bilhões até 2030 em expansão de data centers. A estratégia é atrair grandes operadores — Microsoft, Google, Amazon, Meta. O discurso é: “Vamos ser polo de inteligência artificial.”

O resultado é: galpões de processamento estrangeiro, com lucro enviado para fora, impactos ambientais ficando dentro.

Porque data center não é indústria de IA. É galpão. Pode guardar dados, rodar serviços em nuvem, sustentar aplicações que outras empresas desenvolvem. Mas não garante domínio sobre modelo, chip, software, algoritmo, patente ou cadeia tecnológica.

Uberlândia aprova o RT-One em nome do desenvolvimento. Mas qual desenvolvimento, para quem?


O paradoxo que ninguém fala

Brasil produz dados em volume massivo — celular, redes sociais, transações, sensors IoT. Somos uma das sociedades mais conectadas do planeta. Mas não somos soberanos sobre nossos próprios dados.

Aproximadamente 60% das cargas digitais processadas no Brasil dependem de infraestrutura instalada fora do país.

Deixa isso ecoar: 60%. Maioria dos dados brasileiros voa para datacenter em outro continente, processado por outra empresa, sob lei estrangeira.

E a solução que Brasília oferece é: “Vamos construir data centers estrangeiros aqui. Assim pelo menos a energia é nossa.”

É como vender sua terra por aluguel de solar.


A diferença entre polo e dependência

CenárioBrasil ConseguiuBrasil Não Conseguiu
Data centers operandoSim, 206 em operação, 42% da América LatinaSoberania sobre dados
Investimento recebidoSim, US$ 33 bi até 2030Propriedade de infraestrutura
Infraestrutura própriaNão, maioria estrangeiraDomínio de modelo/chip/algoritmo
Lucro gerado localmenteNão, enviado para exteriorCadeia de valor brasileira
Impactos ambientaisSim, ficam em UberlândiaCompensação ou benefício

O Brasil é polo de hospedagem, não polo de inteligência artificial. Não é a mesma coisa.


O RT-One e a ilusão de soberania

O RT-One foi apresentado como solução. Investimento de R$ 6 bilhões, 100+ MW de energia, data center de “class tier III” em Uberlândia.

Mas quem é o RT-One? Uma empresa que promete operação. Os dados armazenados pertencem a quem os paga. Os algoritmos rodando são de terceiros. A propriedade intelectual é estrangeira.

Uberlândia ganha: menos de 100 empregos permanentes, consumo de 239 mil litros de água diários, subestação de R$ 160 milhões paga pela Cemig, isenção fiscal de 5 anos.

Isso é soberania? Não. É aluguel da própria infraestrutura por lucro de terceiros.


O que o Brasil deveria estar fazendo

Enquanto investe em data centers estrangeiros, o governo lançou em maio de 2026 o SoberanIA — um ecossistema brasileiro de IA generativa em português para setor público. É um primeiro passo real.

A Dataprev e Serpro operam a Nuvem Soberana de Governo — R$ 1 bilhão em infraestrutura própria, com dados sob lei brasileira, gestão por empresas públicas.

Contrasta dramaticamente com:

  • Brasil atraindo estrangeiros para construir data centers
  • Impactos ambientais ficando locais
  • Lucro saindo do país
  • Dependência tecnológica se perpetuando

Soberania verdadeira exigiria: data centers públicos ou de empresas brasileiras, controle de quem acessa dados, modelo de IA desenvolvido domesticamente, cadeia de valor brasileira.

O RT-One não atende nenhum desses critérios.


A carta que Brasília não quis responder

Especialistas enviaram propostas: “Se vamos construir data centers, que sejam públicos ou brasileiros. Que dados sensíveis do Brasil fiquem em infraestrutura brasileira. Que cadeia de IA seja desenvolvida aqui.”

Resposta de Brasília: isenção fiscal para estrangeiro, silêncio sobre soberania, aprovação de projeto municipal sem EIA/RIMA.

É a política das prioridades invertidas: desenvolvimento significa lucro estrangeiro; soberania pode esperar.


O que Uberlândia paga por soberania que não terá

Consumo de água: 239 mil litros diários — água que seca nas crise hídrica, não recuperada.

Consumo de energia: 100 MW expandindo para 400 MW — pressão no sistema Cemig, subestação cara, custos repassados ao consumidor.

Impostos que deixam de entrar: R$ 5,2 bilhões em 2026 apenas em REDATA, federalmente.

Empregos reais: menos de 100 permanentes, maioria terceirizada.

Impactos ambientais: lixo eletrônico, emissões, temperatura local, poluição sonora.

Soberania sobre dados: zero. Os dados do RT-One pertencem ao RT-One.


A corrida que deixa o Brasil para trás

Enquanto isso, China constrói data centers próprios e desenvolve IA internamente. Europa regulamenta dados em solo europeu. EUA controla sua infraestrutura de IA.

Brasil convida estrangeiros para construir, paga o preço ambiental, fica com dependência de software.

Uberlândia é microcosmo dessa derrota: aprova infraestrutura que não a torna soberana, apenas mais conectada — e mais cara.


A omissão do prefeito sobre soberania

Paulo Sérgio nunca mencionou em nenhum post de Facebook:

  • Que o RT-One não é propriedade do Brasil
  • Que dados armazenados não estão sob lei brasileira
  • Que lucro sairá do país
  • Que isso não resolve dependência de IA
  • Que alternativa seria infraestrutura pública brasileira

Porque falar disso exigiria questionar a narrativa de “desenvolvimento” que a prefeitura aceitou.

Mais fácil postar sobre “Uberlândia Empreendedora” enquanto a cidade fica sem soberania, com custos ambientais, e lucro indo embora.


O que a verdadeira soberania custaria

Se Uberlândia (ou Brasil) quisesse soberania sobre seus dados, precisaria:

  1. Investir em data center público ou de empresa brasileira
  2. Manter controle sobre quem acessa dados do país
  3. Desenvolver modelo de IA em português, internamente
  4. Eduzir dependência de cloud estrangeira
  5. Criar cadeia de valor de tecnologia brasileira

Custaria mais. Exigiria regulação. Reduziria lucro imediato de estrangeiro.

O RT-One não faz nada disso.


A ilusão que vira crescimento negativo

Brasil cresce em data center estrangeiro. Mas decresce em soberania. Cresce em infraestrutura de hospedagem. Mas decresce em controle tecnológico. Cresce em dependência.

Uberlândia aprova uma ilusão: que hospedagem de dados estrangeiros = desenvolvimento local.

Realidade: é dependência estrutural com custo ambiental.


Fonte: Esmael Morais — Brasil lidera data centers, mas tropeça na soberania de IA | Instituto Modal — Soberania Digital no Brasil | SINDPD — Data centers no Sul Global

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Publicado por:

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Equipe Data Center Uberlândia

Monitoramento Ambiental e Socioeconômico

Blog independente que documenta os impactos ambientais e socioeconômicos de data centers em Uberlândia (MG).