Blog

Cemig Sobe 6,5%: Como Data Center da RT-One Pode Piorar Sua Conta de Luz

Aneel aprovou reajuste de 6,5% na Cemig por custos de transmissão. Data center da RT-One em Uberlândia pressionará esses mesmos custos. Próximos reajustes tendem a ser piores.

4 min read economia energia cemig rt-one uberlandia aneel

A conta subiu. E pode subir mais.

Na terça-feira, 26 de maio de 2026, a diretoria da ANEEL aprovou o reajuste anual da Cemig. Os novos valores entram em vigor em 28 de maio e atingem 9,8 milhões de unidades consumidoras em Minas Gerais. O impacto médio é de 6,50%. Para residências, 5,21%. Para indústrias e grandes empresas, 9,43%.

A agência atribuiu o aumento a três fatores: custos de transmissão, compra de energia e componentes financeiros de ciclos anteriores.

Esse reajuste não tem relação com o data center da RT-One. O projeto ainda não saiu do papel — não há licença de operação, não há obra concluída, não há consumo. Mas os motivos que encareceram a conta hoje são os mesmos que o data center pressionará quando entrar em funcionamento.


O que causou o aumento: custos de transmissão

O reajuste da Cemig não é uniforme. A tabela abaixo mostra os percentuais por classe:

Classe de consumoAumento médio
Residencial (B1)5,21%
Baixa tensão (média)5,21%
Alta tensão (média)9,43%
Efeito médio geral6,50%

A alta tensão — categoria que mais subiu — inclui indústrias e grandes consumidores. É nela que um data center se enquadra. O principal fator do aumento, segundo a ANEEL, foram os custos de transmissão: linhas, subestações, transformadores. Infraestrutura pesada.

Data centers de hiperescala não usam a rede de distribuição comum. Exigem linhas de transmissão dedicadas e subestações próprias. É exatamente o tipo de investimento que hoje já pressiona a tarifa.


Por que isso importa para o futuro

A RT-One negocia com a Cemig uma subestação dedicada para seu data center em Uberlândia. O investimento total da concessionária em novas subestações na cidade chega a R$ 160 milhões, com expansão de 50% na capacidade da rede local.

A Cemig nunca esclareceu como dividirá esses custos. Se forem incorporados à base de ativos da concessionária, entram no cálculo das tarifas futuras. Todos os consumidores pagam. A empresa privada recebe o benefício.

Em junho de 2025, a Cemig anunciou R$ 34,4 bilhões em investimentos para o ciclo 2025-2029. Desse total, R$ 8,4 bilhões vão para transmissão — o segmento que atende grandes consumidores industriais. Cada novo data center que chega empurra esse número para cima.


A hipótese de múltiplos data centers

A prefeitura de Uberlândia trata o projeto da RT-One como vitrine. Quer atrair mais data centers. Se a estratégia funcionar, a cidade receberá não um, mas vários complexos de hiperescala.

Cada novo data center exigirá novas linhas de transmissão, novas subestações, mais capacidade de geração. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) terá de incorporar cargas contínuas de centenas de megawatts no planejamento do sistema interligado.

Nada disso é gratuito. E nada disso é pago pelas big techs na tarifa.


O que pode acontecer

O reajuste de 9,43% para alta tensão atinge indústrias e comércios de Minas Gerais. Pequenas e médias empresas absorverão um custo maior de energia — enquanto um data center que consome o equivalente a 200 mil residências pagará tarifa industrial, mais baixa por unidade.

A Cemig afirmou ao MPF que a rede regional “apresenta condições técnicas adequadas para absorver a carga adicional”, mas ressalvou que “o impacto de desabastecimento energético ou hídrico em nível nacional não é de sua responsabilidade”. A concessionária garante o fornecimento local. Os efeitos sistêmicos — novas altas na tarifa, pressão hídrica, saturação da transmissão — não têm um responsável claro.


O que fazer agora

O reajuste de 6,5% já está aprovado. Os próximos, porém, ainda podem ser influenciados pela pressão pública:

  1. Cobrar da Cemig a divisão transparente dos custos da subestação dedicada à RT-One — antes que entrem na base tarifária.
  2. Questionar a ANEEL sobre como grandes cargas industriais impactam a tarifa residencial nos reajustes futuros.
  3. Acompanhar o licenciamento ambiental — o projeto ainda tramita na SEMAD e não possui licença de operação.
  4. Exigir da prefeitura um plano diretor energético que estabeleça limites antes que a rede sature.

O aumento de 6,5% não foi causado pelo data center. Mas os fatores que o causaram — transmissão, infraestrutura, capacidade de rede — são exatamente os que um complexo de 400 MW pressiona. O reajuste de hoje pode ser o piso dos reajustes de amanhã.


Fontes:

Leia também:

Publicado por:

E

Equipe Data Center Uberlândia

Monitoramento Ambiental e Socioeconômico

Blog independente que documenta os impactos ambientais e socioeconômicos de data centers em Uberlândia (MG).