A conta subiu. E pode subir mais.
Na terça-feira, 26 de maio de 2026, a diretoria da ANEEL aprovou o reajuste anual da Cemig. Os novos valores entram em vigor em 28 de maio e atingem 9,8 milhões de unidades consumidoras em Minas Gerais. O impacto médio é de 6,50%. Para residências, 5,21%. Para indústrias e grandes empresas, 9,43%.
A agência atribuiu o aumento a três fatores: custos de transmissão, compra de energia e componentes financeiros de ciclos anteriores.
Esse reajuste não tem relação com o data center da RT-One. O projeto ainda não saiu do papel — não há licença de operação, não há obra concluída, não há consumo. Mas os motivos que encareceram a conta hoje são os mesmos que o data center pressionará quando entrar em funcionamento.
O que causou o aumento: custos de transmissão
O reajuste da Cemig não é uniforme. A tabela abaixo mostra os percentuais por classe:
| Classe de consumo | Aumento médio |
|---|---|
| Residencial (B1) | 5,21% |
| Baixa tensão (média) | 5,21% |
| Alta tensão (média) | 9,43% |
| Efeito médio geral | 6,50% |
A alta tensão — categoria que mais subiu — inclui indústrias e grandes consumidores. É nela que um data center se enquadra. O principal fator do aumento, segundo a ANEEL, foram os custos de transmissão: linhas, subestações, transformadores. Infraestrutura pesada.
Data centers de hiperescala não usam a rede de distribuição comum. Exigem linhas de transmissão dedicadas e subestações próprias. É exatamente o tipo de investimento que hoje já pressiona a tarifa.
Por que isso importa para o futuro
A RT-One negocia com a Cemig uma subestação dedicada para seu data center em Uberlândia. O investimento total da concessionária em novas subestações na cidade chega a R$ 160 milhões, com expansão de 50% na capacidade da rede local.
A Cemig nunca esclareceu como dividirá esses custos. Se forem incorporados à base de ativos da concessionária, entram no cálculo das tarifas futuras. Todos os consumidores pagam. A empresa privada recebe o benefício.
Em junho de 2025, a Cemig anunciou R$ 34,4 bilhões em investimentos para o ciclo 2025-2029. Desse total, R$ 8,4 bilhões vão para transmissão — o segmento que atende grandes consumidores industriais. Cada novo data center que chega empurra esse número para cima.
A hipótese de múltiplos data centers
A prefeitura de Uberlândia trata o projeto da RT-One como vitrine. Quer atrair mais data centers. Se a estratégia funcionar, a cidade receberá não um, mas vários complexos de hiperescala.
Cada novo data center exigirá novas linhas de transmissão, novas subestações, mais capacidade de geração. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) terá de incorporar cargas contínuas de centenas de megawatts no planejamento do sistema interligado.
Nada disso é gratuito. E nada disso é pago pelas big techs na tarifa.
O que pode acontecer
O reajuste de 9,43% para alta tensão atinge indústrias e comércios de Minas Gerais. Pequenas e médias empresas absorverão um custo maior de energia — enquanto um data center que consome o equivalente a 200 mil residências pagará tarifa industrial, mais baixa por unidade.
A Cemig afirmou ao MPF que a rede regional “apresenta condições técnicas adequadas para absorver a carga adicional”, mas ressalvou que “o impacto de desabastecimento energético ou hídrico em nível nacional não é de sua responsabilidade”. A concessionária garante o fornecimento local. Os efeitos sistêmicos — novas altas na tarifa, pressão hídrica, saturação da transmissão — não têm um responsável claro.
O que fazer agora
O reajuste de 6,5% já está aprovado. Os próximos, porém, ainda podem ser influenciados pela pressão pública:
- Cobrar da Cemig a divisão transparente dos custos da subestação dedicada à RT-One — antes que entrem na base tarifária.
- Questionar a ANEEL sobre como grandes cargas industriais impactam a tarifa residencial nos reajustes futuros.
- Acompanhar o licenciamento ambiental — o projeto ainda tramita na SEMAD e não possui licença de operação.
- Exigir da prefeitura um plano diretor energético que estabeleça limites antes que a rede sature.
O aumento de 6,5% não foi causado pelo data center. Mas os fatores que o causaram — transmissão, infraestrutura, capacidade de rede — são exatamente os que um complexo de 400 MW pressiona. O reajuste de hoje pode ser o piso dos reajustes de amanhã.
Fontes:
- Paranaíba Mais — “Aneel aprova reajuste da Cemig e conta de luz sobe 6,5% em Minas” (27/05/2026)
- Mobile Time — “Data center de IA da RT-One em Uberlândia terá subestação da Cemig” (27/02/2026)
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