“Três mil vezes menos”. Menos do quê, exatamente?
Em agosto de 2025, a Brasscom (associação que representa empresas de tecnologia e data centers no Brasil) apresentou um estudo que se tornou arma retórica infalível para quem defende expansão desenfreada de data centers: data centers consomem 3 mil vezes menos água que a indústria. Números assim resolvem tudo. Ou resolvem nada, depende de onde você está sentado.
O estudo diz que, em 2022, data centers usaram 0,003% da água consumida no Brasil. A projeção para 2029 é 0,008%. Tecnicamente, é verdade. Comparativamente falso.
O Truque da Métrica Nacional
Quando você espalha 30 bilhões de litros de água por um país de 215 milhões de habitantes, a conta fica pequena: 0,008%. Mas esse é exatamente o problema. A métrica nacional mascara a concentração geográfica.
Um data center típico consome 3 a 5 milhões de litros de água por dia. Isso equivale ao consumo diário de uma cidade de 30 mil habitantes. A RT-One, que será instalada em Uberlândia, aprovada para consumir 239 mil litros por dia, é um pequeno data center. E mesmo assim, já representa consumo de pequena cidade.
Quando você coloca essa estrutura em uma região que enfrenta estresse hídrico estrutural — como o Sudeste brasileiro, onde Uberlândia está — a porcentagem nacional deixa de importar. Importa se há água suficiente no aquífero Guarani em 2029.
A Questão que Brasscom Não Faz
O estudo da Brasscom responde a pergunta errada. Não é: “Qual porcentagem da água brasileira os data centers usam?” É: “Em crise hídrica, atrair data centers em regiões com déficit hídrico é responsável?”
A própria pesquisa menciona que “especialistas alertam para o alto consumo de água por data centers em meio a incentivos do governo para atração de projetos”. O Projeto de Lei 278/2026, que criou o REDATA (Regime Especial de Tributação para Data Centers), oferece isenções fiscais de 5 anos. Nenhuma restrição hídrica.
Uberlândia recebe incentivos federais do REDATA. Nenhuma condição sobre água. A RT-One tem isenção fiscal de 5 anos, aprovada sem licenciamento ambiental completo.
Quando a Água É Contada, Mas Não Disponível
A pesquisa da Brasscom também cita que boa parte da água associada aos data centers está “embutida na geração de energia”. Ou seja: quando o data center consome eletricidade, há água consumida indiretamente nas usinas hidrelétricas e termelétricas.
Isso torna a contagem ainda mais complexa e ainda menos transparente. O consumo hídrico real não aparece na fatura de água da prefeitura. Aparece na Cemig. E quando há estiagem, aparece no racionamento.
Uberlândia já enfrenta impacto hídrico do Triângulo Mineiro. Projetar data centers nesse contexto é admitir que os incentivos fiscais importam mais que a segurança hídrica futura.
A Tabela Que Brasscom Não Publica
| Métrica | Número Brasscom | Leitura Honesta |
|---|---|---|
| % de água nacional | 0,008% (2029) | Irrelevante em crise regional |
| Litros/dia por data center | 3-5 milhões | Cidade pequena em cada fábrica |
| Litros/dia RT-One aprovada | 239 mil | Já equivalente a vila |
| Isenção fiscal REDATA | 5 anos | Sem condições hídricas |
| Licenciamento ambiental Uberlândia | Incompleto | EIA/RIMA não exigido |
O Silêncio Sobre as Alternativas
Brasscom menciona que Google adota resfriamento a ar e água reciclada. Excelente. A RT-One vai fazer o mesmo? Não há informação pública sobre refrigeração em Uberlândia.
O estudo da Brasscom responde perguntas que ninguém fez (quanto % da água nacional?) e ignora a que importa: como um data center em crise hídrica regional justifica sua aprovação com base em percentual nacional?
A Ironia Matemática
A Brasscom conseguiu um feito raro: publicar números verdadeiros e conclusões falsas. É matematicamente correto que data centers representem 0,008% do consumo hídrico nacional. É strategicamente falso usar isso para encerrar debate sobre água em regiões secas.
Uberlândia recebeu R$ 6 bilhões em investimento. Zero em condições hídricas. O REDATA ofereceu isenção fiscal. Nenhuma exigência de reuso de água. Brasscom publicou estudo. Sem responsabilidade regional.
Enquanto isso, o aquífero Guarani continua sendo bombeado.
Fonte: Brasscom — Estudo inédito sobre consumo de água e energia por data centers no Brasil
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