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Data center de 1 GW em Paracatu avança enquanto a câmara municipal descobre o projeto pelos jornais

A Atlas Renewable Energy, controlada por um braço da BlackRock, planeja um complexo de data centers de 1 GW em Paracatu (MG) — maior que toda a capacidade instalada no Brasil. O presidente da Câmara Municipal soube pelos repórteres. Oitenta por cento do território municipal já enfrenta conflitos hídricos.

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Data center de 1 GW em Paracatu avança enquanto a câmara municipal descobre o projeto pelos jornais

Em setembro de 2026, repórteres do Intercept Brasil e do Mongabay chegaram a Paracatu, cidade de cerca de 100 mil habitantes no noroeste de Minas Gerais, para perguntar ao presidente da Câmara Municipal sobre o data center que a Atlas Renewable Energy planeja construir no município. Manoel Alves, o vereador, respondeu que não sabia de nada — e que havia ouvido falar, dois meses antes, que as obras começariam em breve. O projeto não passou por nenhuma consulta pública. Não havia registro formal perante a câmara. Não havia processo de licenciamento aberto que o município houvesse acompanhado. O vereador presidia a câmara da cidade que, segundo a empresa, possui "oferta abundante de água" suficiente para um complexo de processamento de dados de 1 gigawatt.

O projeto que chegou antes da conversa

A Atlas Renewable Energy apresentou ao Ministério de Minas e Energia, em 2025, um plano para construir em Paracatu um complexo de data centers com capacidade total de 1 GW, dividido em três módulos, com investimento estimado em R$ 35 bilhões. A previsão apresentada ao governo federal é de operação parcial a partir de dezembro de 2027 e conclusão até 2030. A empresa é controlada por um braço da gestora de ativos BlackRock e já opera em Paracatu o Complexo Solar Luiz Carlos, com capacidade instalada de até 787 MWp, que fornece energia à siderúrgica ArcelorMittal e à Votorantim Cimentos por meio de contratos de compra de energia (PPA). Em outro município mineiro, Arinos, a Atlas opera a usina Draco, de 579 MWp, contratada para fornecer energia à V.tal — um negócio distinto, sem relação direta com o projeto de Paracatu.

A escala do projeto tem uma dimensão que raramente aparece nos anúncios: 1 GW de capacidade instalada de data center supera a soma de toda a capacidade hoje instalada no Brasil, estimada em torno de 800 MW. Não é um data center. É um complexo que redefiniria a concentração geográfica do processamento de dados no país — e que foi concebido sem que os moradores e representantes de Paracatu soubessem de sua existência.

A escolha de Paracatu combina fatores que a empresa lista internamente como vantagens: energia renovável produzida no próprio município, localização estratégica no interior do país, infraestrutura existente de transmissão e a suposta disponibilidade hídrica. É sobre essa última afirmação que os dados colocam a maior interrogação.

O que os números da água mostram

Paracatu fica no noroeste mineiro, dentro do bioma Cerrado. O Cerrado é o maior berço de águas da América do Sul — alimenta oito das doze principais bacias hidrográficas do Brasil. Mas a disponibilidade hídrica do Cerrado não é homogênea, e em Paracatu os conflitos por água são antigos.

Levantamentos de uso de recursos hídricos no município indicam que as concessões de outorga já excedem 100% da capacidade de vazão dos mananciais locais. Isso significa que, na seca, a água alocada para usos existentes — mineração, agricultura irrigada, abastecimento urbano — já supera o que os cursos d’água têm disponível. A mineração de ouro, exercida desde o período colonial no entorno da Serra do Saturnino, e a agricultura de sequeiro e irrigação deixam menos de 20% do território municipal livre de disputas hídricas ativas.

Um complexo de data centers de 1 GW na capacidade máxima consome volumes de água comparáveis a populações inteiras. A escala exata depende da tecnologia de resfriamento adotada — sistemas evaporativos convencionais demandam entre 1 e 3 litros por megawatt-hora processado —, mas estimativas conservadoras para 1 GW operando a plena carga podem superar 1,2 milhão de litros por dia. A Atlas não divulgou projeções de consumo hídrico para o projeto.

O argumento de que Paracatu tem “oferta abundante de água” é, na prática, o contrário do que os dados de outorga mostram. A empresa cita o potencial bruto do bioma sem mencionar que esse potencial já está largamente comprometido por usos preexistentes.

Uma cidade que não foi consultada

O caso de Paracatu levanta uma questão processual que transcende o mérito ambiental do projeto. Quando uma empresa planeja o maior complexo de data centers do Brasil numa cidade de 100 mil habitantes, em que momento a câmara municipal, a prefeitura e os moradores entram na conversa?

No caso documentado pelo Intercept Brasil e pelo Mongabay, a resposta é: quando os jornalistas chegaram para perguntar.

Não houve audiência pública. Não houve consulta à câmara. Não houve processo de licenciamento ambiental aberto antes da comunicação do projeto ao governo federal. O presidente do poder legislativo local soube da existência do empreendimento — que, segundo o próprio relato, estava previsto para começar obras em dois meses — pelos repórteres que cobriram a história.

Procurada pelo Intercept Brasil e pelo Mongabay, a Atlas Renewable Energy respondeu que “o projeto em questão encontra-se em uma fase de estudos muito preliminares e, por isso, não há qualquer definição técnica sobre ele”, e que a decisão sobre avançar “considera rigorosamente o impacto local, a disponibilidade de recursos e a viabilidade socioambiental da região”. A resposta contrasta com o que a própria empresa levou ao Ministério de Minas e Energia: um cronograma com capacidade definida (1 GW), investimento estimado (R$ 35 bilhões) e data de entrada em operação parcial (dezembro de 2027). Um projeto pode estar, ao mesmo tempo, em “fase de estudos preliminares” para a imprensa e com cronograma de obras para o governo federal — mas as duas versões não descrevem o mesmo estágio de maturidade.

Esse não é um problema burocrático menor. Um complexo de 1 GW implica demanda por energia elétrica em escala que afeta a infraestrutura de transmissão e distribuição do estado. Implica demanda hídrica que pode aprofundar conflitos preexistentes. Implica geração de calor residual, ruído e tráfego de obras que afetam a vizinhança imediata. E implica, eventualmente, uma relação fiscal com o município que pode ser negociada antes ou depois que o projeto se torne um fato consumado — com resultados muito diferentes para quem mora lá.

A ausência de regulação nacional

O Brasil não tem regulamentação ambiental federal específica para data centers. O que existe são referências em normas setoriais de energia, nas competências dos órgãos estaduais de licenciamento e nas exigências pontuais do Operador Nacional do Sistema Elétrico para projetos de grande porte.

Nesse vácuo regulatório, cada projeto negocia seu caminho com o órgão ambiental estadual sem que haja um conjunto mínimo de perguntas que qualquer empreendimento desse tipo precise responder antes de avançar. Não há padrão nacional que exija divulgação de consumo de água antes do licenciamento. Não há norma que obrigue audiência pública para projetos acima de determinada capacidade. Não há regra que impeça que uma cidade seja informada sobre um projeto de 1 GW por repórteres, e não pelo processo administrativo competente.

O estado de Minas Gerais, que possui o Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam) como órgão licenciador, não tinha, até a publicação deste artigo, aberto procedimento formal de licenciamento para o complexo de Paracatu. O projeto existia como comunicação interna ao Ministério de Minas e Energia e como negociação entre a Atlas e o governo federal — sem instância estadual ou municipal formalmente envolvida.

Cerrado como recurso, Cerrado como risco

A escolha do Cerrado para grandes complexos de data centers tem uma lógica que o setor raramente explicita. O bioma oferece temperatura média que reduz custos de resfriamento em relação às regiões costeiras mais quentes. Oferece localização central no país, com latências menores para diferentes regiões. E oferece terras com preços menores do que os polos urbanos consolidados, junto a usinas de energia renovável contratadas a preços inferiores aos da rede elétrica convencional.

O que o setor não coloca na equação pública é que o Cerrado que alimenta o processamento de IA é o mesmo Cerrado que alimenta os aquíferos que abastecem cidades e lavouras. A ameaça ao bioma Cerrado por data centers não é exclusiva de uma cidade ou de um projeto — é o padrão de uma expansão que trata as nascentes como infraestrutura disponível sem custo.

Em Paracatu, esse padrão se apresenta na forma mais explícita já documentada no Brasil: uma empresa que lista a água como vantagem locacional num município onde a água já está superdotada de conflitos — e onde a câmara municipal soube do projeto pelos jornais.

O precedente que outras cidades mineiras deveriam observar

Paracatu não é o único município mineiro diante dessa situação. Em Uberlândia, o projeto da RT-One de até 400 MW avança com perguntas semelhantes ainda sem resposta formal: o volume exato de água que será consumido nas fases seguintes, o impacto sobre a rede da CEMIG, as contrapartidas fiscais negociadas com o município além da isenção do Redata. A diferença de escala é real — 400 MW versus 1 GW —, mas o padrão de opacidade nas fases iniciais do processo é compartilhado.

O caso de Paracatu oferece um parâmetro para avaliar o nível mínimo de transparência que deveria existir em qualquer projeto dessa magnitude: a câmara municipal deve saber antes da imprensa. O órgão licenciador estadual deve ter registro do projeto antes que as obras comecem. O consumo de água deve ser divulgado antes que as outorgas sejam solicitadas — não depois.

Quando uma das câmaras municipais mais afetadas descobre o projeto pelos jornais, o processo de decisão já foi capturado por quem tem interesse na aprovação. O que resta para o município é aceitar ou resistir — sem ter tido a chance de contribuir com as condições em que o empreendimento poderia ser aceito.


Fontes

Publicado por:

E

Equipe Data Center Uberlândia

Monitoramento Ambiental e Socioeconômico

Blog independente que documenta os impactos ambientais e socioeconômicos de data centers em Uberlândia (MG).