Data centers criam ilha de calor e aquecem a vizinhança?
Sim. **Ilha de calor de data center** é o aquecimento local da superfície (e do microclima) no entorno do campus após a operação — rejeito térmico de servidores e refrigeração. O preprint Cambridge-led (Andrea Marinoni et al., [arXiv:2603.20897](https://arxiv.org/abs/2603.20897)), repercutido por [Olhar Digital](https://olhardigital.com.br/2026/03/31/inteligencia-artificial/alem-da-energia-data-centers-criam-ilhas-de-calor-e-aumentam-temperatura-em-ate-9-c/), estima aumento médio de **temperatura de superfície (LST)** na ordem de **~2°C** após o início da operação, com máximos até ~**9,1°C** e efeito detectável em alguns cenários até ~**10 km**. Medições de **ar** a favor do vento (ASU / David Sailor, Phoenix), sintetizadas pelo [IHU](https://www.ihu.unisinos.br/categorias/666545-data-centers-aceleram-o-aquecimento-global-artigo-de-vivaldo-jose-breternitz), apontam aquecimento na ordem de ~**0,8–2,2°C** até ~**500 m** do perímetro — média e pico não são a mesma coisa.
No RT-One, o desenho previsto usa condensadores a ar (plumas térmicas). Esses números são internacionais — não há modelagem publicada para Pequis ou Monte Hebrom. Inventar °C locais seria chute; o que a ciência autoriza é o risco e a cobrança de EIV térmico.
| Evidência (atribuída) | Ordem de grandeza | Fonte |
|---|---|---|
| LST médio após operação (satélite) | ~2°C | Cambridge / Marinoni et al. (arXiv) |
| Picos de LST em casos monitorados | até ~9,1°C | Mesmo estudo (média ≠ pico local) |
| Alcance espacial (LST) | até ~10 km | Cambridge / Olhar Digital |
| Ar a favor do vento (campo, Phoenix) | ~0,8–2,2°C até ~500 m | ASU Sailor / síntese IHU |
Pequis e Monte Hebrom ficam na zona oeste do anúncio. Ninguém na cidade foi avisado com EIV térmico em mãos.
O que a ciência descreve — e o que Pequis sente na prática
Padrão documentado quando surge ilha de calor data center:
- Quando um campus opera → emissão de ar quente
- Ar quente não respeita cerca → dispersa no entorno
- Temperatura local sobe na ordem de 1–2°C no raio próximo
- Vento amplia o alcance da pluma
Dois graus afetam umidade relativa, conforto térmico das casas, uso de ar-condicionado e, em ondas de calor, idosos e crianças. Para o campus, é rejeito térmico. Para a vizinhança, a ilha de calor vira custo na conta de luz e na qualidade do sono — sem baseline público para medir depois. Refrigeração a ar não zera a conta de água aprovada pelo DMAE; e o backup a diesel soma ruído e emissões quando a rede falha.
Bairros na zona do empreendimento não receberam consulta específica sobre aquecimento local.
EIV e plumas térmicas: o estudo que não veio a público
Cidades bem administradas exigem Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV) em projetos de grande porte: temperatura local, microclima, residências vizinhas, medidas compensatórias. Uberlândia exigiu EIV térmico do RT-One? Não há documentação pública.
Também não há, em documento divulgado:
- Altura e diâmetro das chaminés de refrigeração
- Temperatura esperada do ar liberado
- Simulações de dispersão / plumas
- Previsão de impacto na vizinhança
- Protocolo de monitoramento com estações
Sem baseline, quando o verão apertar, ninguém terá série histórica para separar clima global de efeito local do campus. A cobrança mínima é modelagem de pluma térmica e EIV antes de tratar o calor como detalhe de engenharia.
Expansão 100 → 400 MW: o risco escala, a transparência não
O anúncio começa em 100 MW e projeta 400 MW. Mais potência, mais rejeito térmico a dissipar — e maior risco de ilha de calor na vizinhança. Sem estudo local, qualquer número de °C para a fase cheia seria chute; o que se pode afirmar é que o risco térmico cresce com a escala e que a cidade segue sem modelagem pública.
Pequis e Monte Hebrom ficariam expostos a verões mais duros sem compensação anunciada.
Reuso de calor: o que outros lugares fazem
| Localização | Ação | Resultado típico |
|---|---|---|
| Odense, Dinamarca | Meta reutiliza calor para aquecer milhares de casas | Comunidade no circuito do benefício |
| Lansing, EUA | Deep Green planeja aquecimento de distrito | Apoio atrelado a uso do calor |
| Bradford | Projeto prevê aquecer comunidade | Suporte quando há ganho local |
| Uberlândia | Calor descartado em pluma (plano público) | Silêncio; vizinhança sem aviso |
Em projetos responsáveis, o calor vira rede de aquecimento ou outro uso. Uberlândia poderia ter exigido reuso — aquecimento distrital, processo industrial ou agricultura. Não exigiu. Mais fácil não pensar.
A vizinhança que não foi consultada
Nenhuma audiência perguntou a Pequis e Monte Hebrom se aceitam risco de ilha de calor data center, contas de energia maiores ou calor desprezado na atmosfera. A audiência de março não teve a prefeitura; o prefeito não trata o tema.
Antes de celebrar o campus, cabia: EIV com modelagem térmica; limite de aumento de temperatura na vizinhança; monitoramento; compensação aos bairros afetados; e, se viável, reuso do calor. Nada disso veio a público. Matriz renovável na rede não dissolve pluma térmica nem cancela a ilha de calor. O “desenvolvimento” que esquenta a rua sem pedir licença só é desenvolvimento de quem lucra.
Perguntas frequentes
Quanto um data center pode aquecer a vizinhança?
Cambridge (LST por satélite): média ~2°C, picos até ~9,1°C, alcance até ~10 km em alguns cenários. ASU/Sailor (ar, Phoenix): ~0,8–2,2°C até ~500 m. São ordens de grandeza internacionais — não °C medidos em Uberlândia.
Existe EIV térmico do RT-One para Pequis e Monte Hebrom?
Não há Estudo de Impacto de Vizinhança com modelagem de plumas térmicas em documento público conhecido. Sem baseline, fica difícil separar clima global de efeito local do campus depois.
O calor do data center pode ser reaproveitado?
Em outros países, há projetos de reuso para aquecimento distrital (ex.: Odense). Em Uberlândia, o plano público conhecido trata o calor como rejeito em pluma — sem exigência de reuso anunciada.
Fonte: arXiv — The data heat island effect (Marinoni et al.) | Olhar Digital — ilhas de calor / Cambridge | IHU — síntese ASU/Sailor | ASU News — Turning down the heat from data centers
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