Quem paga o custo ambiental dos R$ 30 bilhões
Quem paga o impacto ambiental dos anúncios bilionários de data centers de IA no Brasil? Em regra, a conta de água e a pressão elétrica ficam no município anfitrião — não no press release. O complexo da Ascenty em Sumaré sozinho é cotado em R$ 30 bilhões (ANÚNCIO: ~US$ 1,2 bi / R$ 6 bi em infraestrutura + ~R$ 24 bi estimados em equipamentos dos clientes); a Microsoft anuncia R$ 14,7 bilhões em nuvem/IA até 2027 (plano separado, 2024–2027); a Elea projeta o Rio AI City. Matriz renovável no discurso; água fora do roteiro. O governo ainda fala em potencial de R$ 2 trilhões em uma década.
Uberlândia: onde a conta já tem número
Enquanto Ascenty, Microsoft e Elea disputam manchetes nacionais, o único data center de IA com cifra hídrica municipal pública no Triângulo é o RT-One — e mesmo assim a cifra não é única.
| Quem paga em Uberlândia | O que está documentado |
|---|---|
| Água | 239 mil L/dia no DMAE (número oficial); até 1,7 milhão L/dia REPORTED na ALMG (documentos atribuídos à empresa, via vereadora Gondim) |
| Energia / rede | Subestação Cemig R$ 160 milhões; expansão anunciada de 100 → 400 MW |
| Emprego permanente | Menos de 100 na operação; a maioria da mão de obra é de construção/externa |
| Fiscal | Isenção Redata por 5 anos — incentivo federal, custo local de oportunidade |
| Licença | Sem EIA/RIMA, sem LP/LI/LO; MPF com inquérito civil |
O DMAE aprovou o número menor. A prefeitura minimizou. Ninguém em São Paulo, Rio ou Brasília pediu desculpas por celebrar R$ 30 bilhões enquanto Uberlândia enfrenta crise hídrica.
Ascenty, Microsoft e Elea operam perto de capitais com pressão política estadual — não inventamos parcerias locais dessas marcas com o RT-One. O padrão é outro: interior com água barata, fiscal generoso e regulação frouxa — impacto ambiental deslocado. Quem paga não é a capital do press release.
A promessa padrão: renovável sem W de água
Toda empresa que anuncia data center no Brasil em 2026 faz a mesma jogada: energia renovável. Hidrelétricas, eólicas, biomassa. Pronto para PowerPoint. Ninguém fala em WUE (Water Usage Effectiveness). A Ascenty divulga “zero consumo operacional”. A Microsoft promete “infraestrutura sustentável”. A Elea segue o script. A conta de água fica para depois — quando não houver volta.
O número que desaparece nos press releases
Toda tecnologia — renovável ou não — precisa de água para esfriar computadores 24/7. Cobertura da Ascenty admite ordem de 23 mil litros por megawatt instalado, mais reposição anual em circuito fechado. Mesmo no piso de capacidade anunciado para Sumaré (dezenas de MW iniciais, expansão prevista), isso vira milhões de litros só no preenchimento — sem contar operação. Números sobre a mesa. Quase ninguém os lê no anúncio.
A Microsoft e a Elea seguem silenciosas sobre água. Sabem que, em um roteiro de R$ 2 trilhões potenciais, a pergunta inconveniente é: “E se não tiver água?”
Potencial de R$ 2 trilhões sem cálculo de escassez
O governo fala em R$ 2 trilhões em uma década — se não houver seca, racionamento ou conflito entre cidade que bebe e data center que esfria. Especialistas da Unesp, Unifesp e UFU já alertam: o consumo hídrico é “igualmente preocupante” quanto a energia. A REDATA exige monitorar e relatar — não parar se a água acabar. Enquanto isso, o BNDES acelera implantação modular sob a mesma crise hídrica.
Não há estudo público que pergunte quanto custa, em racionamento urbano, seca agrícola e depleção de aquífero, operar um data center em região com crise hídrica. Se houvesse, o impacto ambiental inverteria a equação em Uberlândia. Então não há estudo. Há press release. Há silêncio.
Quem vai pagar
R$ 30 bilhões anunciados num único complexo (Ascenty). R$ 2 trilhões projetados em uma década. Energia renovável no balanço das empresas. O impacto ambiental — sobretudo água — aparece nas torneiras de Uberlândia, na irrigação reduzida, na escola sem água. A prefeitura aprova. O governo investe. A imprensa celebra. O preço mais alto fica com quem não ganhou nada.
Isso não é progresso. É contabilidade criativa.
Perguntas frequentes
Data centers de IA no Brasil consomem muita água?
Sim — o resfriamento 24/7 usa água mesmo com matriz elétrica renovável. Cobertura da Ascenty cita cerca de 23 mil litros por megawatt instalado (mais reposição em circuito fechado). Em Uberlândia, o DMAE trabalha com 239 mil L/dia para o RT-One; na ALMG circulou cifra REPORTED de até 1,7 milhão L/dia.
Matriz renovável elimina o impacto ambiental?
Não. Renovável responde à emissão de carbono da geração elétrica; não apaga refrigeração, outorga, licença nem impacto local. WUE (água) quase não aparece no anúncio de R$ 30 bilhões da Ascenty — nem nos demais press releases.
Ascenty, Microsoft ou Elea têm projeto em Uberlândia?
Não há parceria local documentada dessas marcas com o RT-One. O paralelismo é o padrão: interior com água e fiscal generosos, custo ambiental deslocado para a cidade anfitriã.
Fontes: Folha — Data center de IA em SP terá R$ 30 bi (Ascenty Sumaré); Revista Fórum — R$ 30 bilhões Ascenty; Microsoft — R$ 14,7 bi em nuvem/IA (set/2024); Brasil de Fato — 239 mil vs 1,7 milhão e IGAM sem outorga
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