Uberlândia aprovou o data center da RT-One sem regulação específica — R$ 6 bilhões, primeira unidade no Sudeste — e, até maio de 2026, [sem sequer uma licença ambiental](/blog/rt-one-uberlandia-sem-licenca-ambiental-2026) (EIA/RIMA, LP/LI/LO). O setor comemora 1 GW de capacidade de TI no Brasil; a cidade ainda espera respostas básicas sobre água, energia e licenças. Por que avançou assim? Porque o vácuo normativo local era, na prática, o atrativo.
Checklist: o que falta na regulação local
Antes de celebrar a “oportunidade”, faltava o mapa básico do que a lei ambiental mineira e municipal exigiria de um data center de IA — e o que, em Uberlândia, ainda não existe em público:
| Instrumento | Para que serve | Status no RT-One (público) |
|---|---|---|
| EIA/RIMA | Avaliar impacto antes da decisão | Não divulgado |
| LP → LI → LO | Prévia, instalação e operação (SEMAD/FEAM) | Ausentes |
| Outorga IGAM | Uso de água superficial/subterrânea | Sem pedido, segundo a ALMG |
| Audiência municipal informada | Escuta prévia da cidade | Câmara em março sem prefeitura |
| Lei estadual específica para DCs | Tipificar e licenciar a atividade | Inexistente — GT Semad só sugerido em 02/07 |
| Contratos e contrapartidas | Transparência do acordo municipal | Nunca publicados |
| Redata (isenção federal) | Benefício fiscal de 5 anos | Anunciado; auditoria local invisível |
| Inquérito civil do MPF | Investigar danos/omissões ambientais | Aberto em set/2025 |
A Assembleia Legislativa precisou marcar audiência em julho para questionar o projeto — não por excesso de transparência, mas por falta dela. A vereadora Amanda Gondim relatou, na ALMG, que só teria acesso a documentos se assinasse termo de confidencialidade da empresa. Regulação sem publicação não é regulação: é assinatura de segredo.
Água e energia: o que o setor não diz
O discurso público fala em emprego e inovação. A palavra “água” raramente aparece. A RT-One pediu autorização para consumir 239.300 litros de água por dia (FACT — DMAE/Convergência); na audiência estadual circulou também a cifra REPORTED de até 1,7 milhão L/dia em documentos atribuídos à empresa (Gondim/ALMG). A autoridade local tratou o número menor como “não significativo”. O IGAM, na mesma mesa, disse que não há outorga.
Depois vem a energia: até 400 MW de potência, com subestação dedicada da Cemig de R$ 160 milhões. Cemig negocia fornecimento “sem comprometer” o abastecimento da população. A frase contém a dúvida que fingem não ter.
Narrativa nacional vs. perguntas locais
O Brasil se posiciona como polo de data centers, fala em liderança na América Latina e menciona energia renovável. O Ministério das Comunicações cita US$ 3 trilhões em investimentos globais (ANÚNCIO setorial — não é investimento confirmado em Uberlândia). Nenhuma dessas promessas responde o que a cidade precisava saber antes de autorizar:
Quanto de água virá de aquíferos já sob pressão? Quando há emprego permanente (e não só construção temporária)? Quem paga estradas, energia e saneamento? Quanto fica em impostos locais? Quem monitora a “renovável” prometida?
Essas perguntas não têm resposta porque ninguém as fez formalmente antes de dizer sim. O parecer da UFU sobre o marco normativo já mapeava o limbo — e a prefeitura seguiu anunciando.
A “renovabilidade” anunciada
A RT-One promete 100% de energia renovável via Cemig. Como? A empresa não explicou. A rede brasileira é dominada por hidrelétricas — e hidrelétricas enfrentam secas. 400 MW não desaparecem quando chove menos. O argumento não é falso: é incompleto. E a incompletude é intencional — o mesmo padrão do mito da energia renovável no RT-One.
Pressão da “janela” vs. o que deveria ter acontecido
A indústria fala em “janela de oportunidade”: se a cidade não aprova rápido, perde. A urgência é real. Também é a razão pela qual a regulação adequada nunca chegou a tempo. Na ALMG, a diretora do Lapin, Cynthia Picolo, descreveu o padrão internacional: restrições em cidades do Norte empurram centros de dados para o Sul global — frouxidão regulatória como atrativo. Uberlândia encaixa no mapa.
O que deveria ter existido antes do “sim”: EIA/RIMA; LP/LI/LO; outorga IGAM; audiências abertas; estudo hídrico independente; estimativa real de emprego permanente; lei estadual específica; contratos públicos. Nenhuma dessas peças estava pronta. A prefeitura, em nota pós-audiência, limitou-se a dizer que analisou água, aguarda projeto arquitetônico, deixa energia à Cemig e licenças à Semad — o mesmo Executivo que anunciou R$ 6 bilhões sem publicar o acordo.
Brasil chega a 205 data centers. Cidades menores recebem propostas semelhantes. Grande infraestrutura exige regulação proporcionalmente grande. Investimento sem regulação de data centers em Uberlândia não é oportunidade: é aposta. A cidade fez uma aposta de R$ 6 bilhões de forma apressada — e agora descobre as perguntas que deveria ter feito antes.
Perguntas frequentes
Existe regulação específica para data centers em Minas Gerais?
Não. Na audiência da ALMG (02/07/2026), o consenso foi a ausência de tipificação e de legislação estadual específica. O secretário Lyssandro Norton sugeriu um grupo de trabalho na Semad; até a cobertura da imprensa, sem calendário público. EIA/RIMA e LP/LI/LO do RT-One também não foram divulgados.
O RT-One tem outorga de água do IGAM?
Na mesma audiência, o diretor-geral do IGAM, Marcelo da Fonseca, informou que não há pedido de outorga para o empreendimento — nem para outros data centers em Minas com a mesma finalidade. Perto de Uberlândia já há áreas de conflito por indisponibilidade hídrica.
Por que o projeto avançou sem licença ambiental?
Porque o vácuo normativo e a urgência da “janela de oportunidade” viraram atrativo. A prefeitura anunciou R$ 6 bilhões; contratos e contrapartidas nunca foram publicados; a vereadora Amanda Gondim relatou que só teria acesso a documentos se assinasse termo de confidencialidade da empresa.
Referências
- Jornal do Comércio: Data centers e as novas oportunidades para a economia
- Convergência Digital: Data center da RT-One em Uberlândia vai ter um consumo de 239,3 mil litros de água por dia
- Poder 360: Brasil chega a 205 data centers para dar conta do avanço da IA
- Assembleia Legislativa de Minas Gerais: Licenciamento para centro de dados em IA é defendido em audiência
- Assembleia Legislativa de Minas Gerais: Meio Ambiente questiona projeto de data center em Uberlândia
- Brasil de Fato: Sem regulação, avanço de data centers de IA em MG
- Aos Fatos: Corrida dos data centers no Brasil ignora impacto ambiental
- Portal da Prefeitura de Uberlândia: Projeto do primeiro Data Center de IA da região Sudeste do país avança em Uberlândia
- BPMoney: Brasil se torna polo de data centers de IA com investimentos bilionários
- Governo Federal - Ministério das Comunicações: Data centers devem receber US$ 3 trilhões em investimentos
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